9 de nov de 2013

Entre mil dores palpitava a flor antiga



Entre mil dores palpitava a flor antiga,
quando o tempo anunciava um suspiro do vento.
Cada seta de sombra era um sinal de morte.

Lento orvalho embebeu de um consante silêncio
o manso labirinto em que a abelha sussurra,
o aroma de veludo em seus bosques perdido.

Hoje, um céu de cristal protege a flor imóvel.
Não se sabe se é morta e parada em beleza,
ou viva e acostumada às condições da morte.

Mas o vento que passa é um passante longíquo:
à flor antiga não perturba o exato rosto
sem esperanças nem temores nem certezas.

Pálido mundo só de memória.


Cecilia Meireles
In Solombra






8 de nov de 2013

Uma vida cantada me rodeia


Uma vida cantada me rodeia.
Mas pergunto-me até onde me alcança
o canto que me envolve e me protege.

Qual será o meu destino verdadeiro?
De onde vem essa morte? e que sentido
tem o desejo de suster a vida?

E que vida oferece a voz que canta?
Por que roubar à sorte do silêncio
o náufrago, entre mil, que em nós levamos?

Casualidade humana obscura e incerta...
quem fomos? quem seríamos? quem somos
se o canto nos envolve e rasga o tempo

e - em que hora isenta? - nos deixa a salvo.


Cecília Meireles
In Solombra


7 de nov de 2013

Uma flor voava



Uma flor voava.
Por mais que pareça impossível,
uma flor voava.
Uma flor amarela ia voando,
e levava ao lado o seu botão fechado.
Parecia uma jovem graciosa
com sua bolsinha no braço.
Voava a flor amarela,
no ar indefinido.

E nuns troncos imensos,
muito grossos, muito altos,
uns troncos cheios de crepúsculo,
como colunas do céu,
sentinelas da vida,
nuns troncos muito escuros
iam pousando enormes borboletas flácidas,
amarelas e pretas,
que decerto pousavam para sempre,
sem rumo nem poder,
amarelas e pretas, muito sinistras,
muito flácidas, muito grandes.

E a pequena flor amarela voava,
solta, levíssima,
por um rumo secreto,
de alma evadida.


Cecília Meireles
In: Poesia Completa























5 de nov de 2013

''24''

Uma pessoa adormece:
ramo de vida sozinho
na pedra escura da noite
pousado.

E em sua cabeça a flor
dos sonhos já se arredonda,
com muitas seivas trazidas
do caos.

Uma leve brisa apenas
anima esse ramo calmo
e os lábios desse perfume
exausto.

Ah... se essa brisa parasse!
que sonhariam os sonhos
do frágil ramo, na vida
pousado?


Cecília Meireles
Metal Rosicler (1960)

[Arte de Christian Schloe]

''23''

Chovem duas chuvas:
de água e de jasmins
por estes jardins
de flores e nuvens.

Sobem dois perfumes
por estes jardins
de flores e nuvens.

Sobem dois perfumes
por estes jardins:
de terra e jasmins,
de flores e chuvas.

E os jasmins são chuvas
e as chuvas, jasmins,
por estes jardins
de perfume e nuvens. 

Cecília Meireles
Metal Rosicler (1960)

PARA MIM MESMA

 Para os meus olhos, quando chorarem,
Terem belezas mansas de brumas,
Que na penumbra se evaporarem...

Para os meus olhos, quando chorarem,
Terem doçuras de auras e plumas...

E as noites mudas de desencanto
Se constelarem, se iluminarem
Com os astros mortos que vêm no pranto...

As noites mudas de desencanto...
Para os meus olhos, quando chorarem...

Para os meus olhos, quando chorarem,
Terem divinas solicitudes
Pelos que mais os sacrificarem...

Para os meus olhos, quando chorarem,
Verterem flores sobre os paludes...

Para que os olhos dos pecadores
Que os humilharem, que os maltratarem,
Tenham carinhos consoladores.

Se, em qualquer noite de ânsias e dores,
Os olhos tristes dos pecadores
Para os meus olhos se levantarem...


Cecília Meireles
In: Baladas para El-Rei

EXTRA-TERRENA




(Para Cecília Meirelles)

Nós colhíamos flores de hastes muito longas
E cujos nomes nem ao menos conhecíamos...
E nem sequer, também, sabíamos os nossos nomes...
E para quê, se um para o outro éramos Tu, apenas...
Ou quem sabe a Morte nos houvera bordado
numa tapeçaria
A que o vento emprestasse a vida por um momento?
E por isso os nossos gestos eram ondulantes como
as plantas marinhas
E as nossas palavras como asas suspensas no vento...

Mario Quintana
In: Preparativos de Viagem

4 de nov de 2013

Esta que em silencio


  
Esta que em silêncio
abaixa a cabeça
e escreve uma carta
anda tão cansada
de entregar ao mundo
mensagens de amor
que até as tulipas
perto do seu rosto
lágrimas escorrem
e de pesarosas
têm corações negros.

Que até uma brisa
que vinha passando
parou nos seus lábios,
não se moveu mais.
Manso beijo aéreo
de um céu compassivo.

Que até as palavras 
que vai escrevendo 
vão tomando formas
de nuvens errantes,
de ondas pressurosas
para a espuma e areia,
de passos humanos
em longos desertos
onde é sempre novo
o horizonte, e o mesmo...

Ah! terrena vida,
estranha aventura,
rumo involuntário,
perspectiva surda. 
 

Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

3 de nov de 2013

Meus amigos de vento e nuvem



Meus amigos de vento e nuvem,
meus amigos sem rosto algum,
abrem caminhos, mudam casas,
estendem paredes sem fim.


Meus fluidos amigos, num mundo
que existe apenas para mim.


Que longas escadas tão belas,
que luzes sem chama, que amável
cena para uma vida eterna
em cor de amizade e jardim.


Meus amigos estão construindo
um mundo aéreo para mim.


Mãos tão frágeis levantam muros,
corpos voantes transportam ruas,
todos num silencio conjunto
e gestos de anjo e volantim.


Ah, meus invisíveis amigos
que entre os céus trabalhais por mim!



Cecília Meireles
In: Poesia Completa

1 de nov de 2013

O Cavalinho Branco




À tarde, o cavalinho branco
está muito cansado:

mas há um pedacinho do campo
onde é sempre feriado.

O cavalo sacode a crina
loura e comprida

e nas verdes ervas atira 
sua branca vida.

Seu relincho estremece as raízes
e ele ensina aos ventos

a alegria de sentir livres
seus movimentos.

Trabalhou todo o dia, tanto!
desde a madrugada!

Descansa entre as flores, cavalinho branco,
de crina dourada!


Cecília Meireles,
in Ou Isto, Ou Aquilo


Colar de Carolina



 Com seu colar de coral,
  Carolina
  corre por entre as colunas
  da colina.

  O colar de Carolina
  colore o colo de cal,
  torna corada a menina.

  E o sol, vendo aquela cor
  do colar de Carolina,
  põe coroas de coral
  nas colunas da colina.


Cecília Meireles,
in  Ou Isto, Ou Aquilo

Seja bem-vindo. Hoje é