12 de set de 2014

NOTURNO




Brumoso navio
o que me carrega
por um mar abstrato.
Que insigne alvedrio
prende à idéia cega
teu vago retrato?


A distante viagem
adormece a espuma
breve da palavra:
-máquina de aragem
que percorre a bruma
e o deserto lavra.


Ceras de mistério
selam cada poro
da vida entregada.
Em teu mar, no império
de exílio onde moro,
tudo é igual a nada.


Capitão que conte
quem és, porque existes,
deve ter havido.
Eu? – bebo o horizonte. . .
Estrelas mais tristes.
Coração perdido.


Sonolentas velas
hoje dobraremos:
-e a nossa cabeça.
Talvez dentro delas
ou nos duros remos
teu NOME apareça.



Cecilia Meireles
In: Mar Absoluto

 [Arte by Christian Schloe]

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