30 de abr de 2014

TAJ-MAHAL



Somos todos fantasmas
evaporados entre água e frondes,
com o luar e o zumbido do silêncio,
a música dos insetos,
gaze tensa na solidão.

De vez em quando, uma borbulha d'água:
pérola desabrochada,
súbito jasmim de cristal aos nossos pés.

Fantasmas de magnólias, as cúpulas brancas,
orvalhadas de estrelas, na friagem noturna.

Tudo como através de lágrimas,
com as bordas franjadas de antiguidade,
de indecisos limites,
e um vago aroma vegetal, logo esquecido.

Tudo celeste, inumano, intocável,
subtraindo-se ao olhar, às mãos:
fuga das rendas de alabastro e dos jardins minerais,
com lírios de turquesa e calcedônia
pelas paredes;
fuga das escadas pelos subterrâneos.
E os pés naufragando em sombra.

Eis o sono da rainha adorada:
longo sono sob mil arcos, de eco em eco.
(Fuga das vozes, livres de lábios, independentes,
continuando-se...)

Vêm morrer castamente os bogaris sobre os túmulos.

Movem-se apenas sedas, xales de lã,
alvuras: como sem corpo nenhum.

Tudo mais está imóvel, estático:
mesmo o rio, essa vencida espada d'água:
mesmo o lago, esse rosto dormente.

Entre a morte e a eternidade, o amor,
essa memória para sempre.

Foi uma borbulha d'água que ouvimos?
Uma flor que desabrochou?
Uma lágrima na sombra da noite,
em algum lugar?


Cecilia Meireles, 
in Poemas escritos na Índia




PÁGINA



Entre mil jorros de arco-íris e entrelaçados arroios
entre mil flóreos turbantes e faixas vermelhas
e rendas de jaspe e chispas de pássaros
e coleções de flores nunca vistas,
_um sorriso brilha,
um gesto pára desenhado
e uma palavra se imprime.

É uma figura, apenas,
na riqueza prolixa
da imensa tarde oriental.

Entre arabescos de mil voltas,
um verso antigo.

Uma palavra imortal, sózinha.

E o resto, a farfalhante floresta
da intricada moldura.


Cecília Meireles,
in Poemas escritos na Índia



MAHATMA GANDHI



Nas grandes paredes solenes, olhando, 
o Mahatma. 

Longe no bosque, adorado entre incensos, 
o Mahatma. 

Nas escolas, entre os meninos que brincam, 
o Mahatma. 

Em frente do céu, coberto de flores, 
o Mahatma. 

Na vaca, na praia, no sal, na oração, 
o Mahatma. 

De alto a baixo, de mar a mar, em mil idiomas, 
o Mahatma. 

Construtor de esperança, mestre da liberdade, 
o Mahatma. 

Noite e dia, nos poços, nos campos, no sol e na lua,
o Mahatma. 

No trabalho, no sonho, falando lúcido, 
o Mahatma. 

De dentro da morte falando vivo, 
o Mahatma. 

Na bandeira aberta a um vento de música, 
o Mahatma. 

Cidades e aldeias escutam atentas: 
é o Mahatma. 


Cecília Meireles,
in Poemas escritos na Índia

26 de abr de 2014

Romantismo




Quem tivesse um amor, nesta noite de lua,
para pensar um belo pensamento
e pousá-lo no vento!

Quem tivesse um amor - longe, certo e impossível -
para se ver chorando, e gostar de chorar,
e adormecer de lágrimas e luar!

Quem tivesse um amor, e, entre o mar e as estrelas,
partisse por nuvens, dormente e acordado,
levitando apenas, pelo amor levado...

Quem tivesse um amor, sem dúvida e sem mácula,
sem antes nem depois: verdade e alegoria...
Ah! quem tivesse... (Mas, quem teve? quem teria?)


Cecília Meireles, 
in 'Mar Absoluto e Outros Poemas

22 de abr de 2014

Serenata para Verlaine




Trago-te o luar e as folhas secas
e os violinos do outono
e as mãos azuis das águas frescas
às varandas do sono.


Trago-te as estatuas e a dança
das mascaras antigas
e os fluidos pés e a voz escassa
das amadas amigas.


Trago-te a estrela, a rosa, o cisne 
e a etérea balaustrada
em que brandamente se incline
tua alma deslembrada.


Trago-te parques de tão longe 
com rouxinóis nos ramos.
Lerás nos troncos: “Até Hoje,
ó Verlaine, te amamos”.


Trago-te a flor contra o pecado
e  contra o sofrimento.
Com seus perfumes te engrinaldo,
entre fitas de vento. 



Cecília Meireles
Poesia Completa
In: Dispersos (1918 – 1964)


20 de abr de 2014

Das três princesas



As três Princesas silenciosas
Virão da sombra de outros mundos,
Trazendo aromas, nevoas, rosas...

As três Princesas silenciosas
Que dão consolo aos moribundos...

Da alma das noites desoladas
Hão de surgir, mudas, piedosas,
Loiras e lindas como fadas...

Da alma das noites desoladas
As três Princesas silenciosas...

As três Princesas silenciosas
Virão dizer quando termino...
Virão trazer-me astros e rosas...

As três Princesas silenciosas,
As fiandeiras do meu destino...

E as longas, mórbidas tristezas
Das minhas horas dolorosas
Desaparecerão surpresas,

À chegada das três Princesas,
Das três Princesas silenciosas... 



Cecília Meireles
In: Baladas para El-Rei (1925)

Meninas sonhadas



As três meninas são muito leves
cor de laranja
com seus vestidos de fina gaze
plissados.


Elas são como três grandes leques
plissados
abrindo ao sol gazes redondas
cor de laranja.

São muito leves as três meninas
cor de laranja
como brinquedos de papel fino
plissados.

Posso exibi-las no ar: seus vestidos
plissados 
cheios de vento: balões, lanternas
cor de laranja.

As três meninas são muito leves
cor de laranja:
talvez não sejam mais que vestidos
plissados.

Talvez não sejam mais do que hibiscos
plissados,
flores de seda, papel de flores
cor de laranja.

Pétalas tênues, nimbo da lua
cor de laranja
por pensamentos adormecidos
plissados.

1961



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

17 de abr de 2014

JORNAL LONGE



Que faremos destes jornais, com telegramas, notícias,
anúncios,fotografias,opiniões...?

Caem as folhas secas sobre os longos relatos de guerra:
e o sol empalidece suas letras infinitas.

Que faremos destes jornais, longe do mundo e dos homens?
Este recado de loucura perde o sentido entre a terra e o céu.

De dia, lemos na flor que nasce e na abelha que voa;
de noite, nas grandes estrelas, e no aroma do campo serenado.

Aqui, toda a vizinhança proclama convicta:
"Os jornais servem para fazer embrulhos."

E é uma das raras vezes em que todos estão de acordo.


Cecília Meireles
In Mar Absoluto e Outros Poemas



15 de abr de 2014

Menina do sonho




Menina do sonho,
filha não vivente,
desenho da noite,
piedosa menina,
toca a doce musica
do teu alaúde,
mensagem do tempo,
muito necessária,
porém tão discreta,
delicada e tímida
que se comunica
em noite, somente,
em nuvem de sonho,
sem vida verídica:
esta caridade 
sobre o sofrimento
do dia, do mundo,
das palavras de ódio.
Toca a doce musica
do teu alaúde:
filha não vivente,
toda consolante,
de que céu descida
sem nenhum apelo
e aos céus retornada,
límpida e incorpórea,
numa noite única.


Nunca misterioso,
vivo para sempre,
som dentro do sonho,
desatando angustias,
abafando vozes,
convertendo lagrimas.


A aurora, no entanto,
vem depois da musica
e ainda traz nos olhos
sinistros impérios
cobertos de espadas

1961

Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

Sonho com carneirinhos e falas meigas




O carneirinho que em sonho
pousa as mãos delicadas
sobre o meu coração:
é o de Blake? é o de Cristo?
Ou o de São João?


Com voz humana fala,
mais que a dos homens humana:
diz que tem fome de pão.
(Oh! A que pão se refere?)
E beija-me na mão.


E eu me sinto pastora
em campo sem horizonte.
Meu campo é só lagrima e resignação.
Que te posso dar, carneirinho meigo
de Blake, de Cristo ou de São João?


Viveremos de fome,
de uma fome encantada
do espírito do ar e do chão.
Em fome nos transcendermos,
ininteligíveis na vigília, irmão. 


Conversaremos em sonho,
tão simples e sobre-humanos,
numa inviolável comunicação.
Pasceremos símbolos, bailaremos glorias
por tempos sem fim de perdão.


1960



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

14 de abr de 2014

Ninguém me venha dar vida




Ninguém me venha dar vida,
que estou morrendo de amor,
que estou feliz de morrer,
que não tenho mal nem dor,
que estou de sonho ferida,
que não me quero curar,
que estou deixando de ser 
e não me quero encontrar,
que estou dentro de um navio
que sei que vai naufragar,
já não falo e ainda sorrio,
porque está perto de mim
o dono verde do mar
que busquei desde o começo,
e estava apenas no fim.


Corações, por que chorais?
Preparai meu arremesso
para as algas e os corais.


Fim ditoso, hora feliz:
guardai meu amor sem preço,
que só quis a quem não quis.

1947



Cecília Meireles
In: Dispersos (1918-1964)

Sombra



Os homens passam pelas ruas misteriosas...

Ouvi ecoarem na noite
A sua loucura e o seu pavor...

Os homens olharam para dentro
E viram mistérios...
Os homens olharam para fora
E viram mistérios...

E foram pelas ruas misteriosas
Debatendo-se como pensamentos
Presos em círculos negros...

Agosto, 1927 



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

10 de abr de 2014

Do meu outono




O outono vai chegar... Neva a névoa do outono...
Perdem-se astros sem luz... Anda em choro a folhagem...
Há desesperos silenciosos de abandono...


O outono vai chegar... Neva a névoa do outono...
E eu sofro a angustia irremediável da paisagem...


O outono vai chegar... O outono vem tão cedo!
Irão morrer flores e estrelas, como as crianças
Tristes e mudas, que impressionam, fazem medo?


O outono vai chegar... Têm vozes do passado
As horas loiras, a cantarem vagarosas,
Com ressonâncias de convento abandonado...


Vozes de sonho, vozes lentas, do passado,
Falando coisas nebulosas, nebulosas...


O outono vai chegar, como um poeta descrente
Que funerais desilusórios acompanha...


O outono vai chegar... Neva a névoa do outono...
Perdem-se astros sem luz... Anda em choro a folhagem...
Há desesperos silenciosos de abandono...


O outono vai chegar... Neva a nevoa do outono...
E eu sofro a angustia irremediável da paisagem... 



Cecília Meireles
In: Baladas para El-Rei (1925)

Das avozinhas mortas



As avozinhas acordaram
Porque eu chorei, no meu violino,
Um morto amor que elas choraram...

Na meia-noite do destino,
As avozinhas acordaram...

As ultima arcada era tão triste
Que os meus olhos se emocionaram...
Coisas tão longe do que existe!

E as avozinhas recordaram
Todo um passado ausente e triste...

As avozinhas murmuraram
Frases antigas como lendas...
Frases, decerto, que escutaram

Entre jóias, leques e rendas...
As avozinhas murmuraram...

De alma, porém, desiludida,
Os olhos úmidos fecharam...
E, no ermo sonho da outra vida,

As avozinhas continuaram
A partitura interrompida... 



Cecília Meireles
In: Baladas para El-Rei (1925)

Suavíssima



Os galos cantam, no crepúsculo dormente...
No céu de outono, anda um langor final de pluma
Que se desfaz por entre os dedos, vagamente...

Os galos cantam, no crepúsculo dormente...
Tudo se apaga, e se evapora, e perde, e esfuma...

Fica-se longe, quase morta, como ausente...
Sem ter certeza de ninguém... de coisa alguma...
Tem-se a impressão de estar bem doente, muito doente,

De um mal sem dor, que se não saiba nem resuma...
E os galos cantam, no crepúsculo dormente...

Os galos cantam, no crepúsculo dormente...
A alma das flores, suave e tácita, perfuma
A solitude nebulosa e irreal do ambiente...

Os galos cantam, no crepúsculo dormente...
Tão para lá!... No fim da tarde... Além da bruma...

E silenciosos, como alguém que se acostuma
A caminhar sobre penumbras, mansamente,
Meus sonhos surgem, frágeis, leves como espuma...

Põem-se a tecer frases de amor, uma por uma...
E os galos cantam, no crepúsculo dormente... 



Cecília Meireles
In: Baladas para El-Rei (1925)


5 de abr de 2014

Panorama


Em cima, é a lua,
no meio, é a nuvem,
embaixo, é o mar.
Sem asa nenhuma,
sem veda vela nenhuma,
para me salvar.


Ao longe, são noites,
de perto, são noites,
quem se há de chamar?
Já dormiram todos,
não acordam outros...
Água. Vento. Luar.


O trilho da terra
para onde é que leva,
luz do meu olhar?
Que abismos aéreos
de reinos aéreos
para visitar!


Na beira do mundo,
do sono do mundo
me quero livrar.
E em cima – é a lua,
no meio – é a nuvem,
e embaixo – é o mar! 



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Vaga Música (1942)



3 de abr de 2014

A MINHA PRINCESA BRANCA



Estendo os olhos aos mares:
Ela anda pelas espumas ...
Serenidades lunares,
Tristezas suaves de brumas ...

Ela anda nos céus vazios,
Em brancas noites morosas;
Mira-se nas águas dos rios,
Dorme na seda das rosas ...

Passa em tudo, grave e mansa ...
E, do seu gesto profundo,
Solta-se a grande esperança
De coisas fora do mundo ...

Por sobre almas vagueia:
Almas santas ... Almas boas ...
É um palor de lua cheia,
Na água morta das lagoas ...

Quando contemplo as encostas,
De alma ansiosa por vencê-las,
Vejo-a no alto, de mãos postas,
Muda e coroada de estrelas ...

E vou, sofrendo degredos,
A dominar os espaços ...
Só quero beijar-lhe os dedos
E adormecer-lhe nos braços!


Cecília Meireles
In Nunca Mais
Seja bem-vindo. Hoje é