29 de mai de 2014

MIMETISMO



O sábio no jardim sorria
do artifício da borboleta
convertida em folha amarela
até com manchas e defeitos.

O sábio sorria daquela
mentira. Ó colorido embuste!
Ó fingimento desenhado
por cegos presságios e sustos!

Para salvar seu breve tempo,
- tempo de inseto - dom dos vivos,
tinha a borboleta bordado
seu sigiloso mimetismo.

( atrás das máscaras, que morte
pode alcançar o oculto pólo
sensível, no pulsante abismo
onde a hora de existir se acolhe?)

Sendo e não sendo, perto e longe,
escondia-se, ignota e inquieta,
guardando, em paredes de medo,
a esperança da seiva eterna.

O sábio no jardim sorria
do cauteloso fingimento,
de tênue silêncio expectante
sobre os universais segredos.


Cecília Meireles -
In 'O Estudante Empírico'

28 de mai de 2014

PEQUENA CANÇÃO



Pássaro da lua,
que queres cantar,
nessa terra tua,
sem flor e sem mar?

Nem osso de ouvido
Pela terra tua.
Teu canto é perdido,
pássaro da lua...

Pássaro da lua,
por que estás aqui?
Nem a canção tua
precisa de ti!


CECÍLIA MEIRELES
In: Vaga Música 

COMO OS PASSIVOS AFOGADOS



esperando o tempo da areia
pelo mar de inúmeros lados
bóio tão venturosa e alheia
que,para mim, a noite e o dia
têm o mesmo sol sem ocaso,
e o que eu queria e não queria
aceitaram seu justo prazo

E nem me encontra quem me espera
nem o que esperei foi havido,
tanto me ausento desta esfera.

Ó liberdade sem tormento!
(Ó fitas soltas, ó cortinas
Levadas por um amplo vento
além de campos e colinas!...)
Vencendo sucessivos planos,
abrindo mundo encobertos
chegando ao reinos sobre-humanos
onde há jardim para os desertos!

A alma do sonho fez-se ouvido
tão vertiginoso e profundo
que capta o recado perdido
dos ocultos donos do mundo.


Cecília Meireles
In:  Canções

26 de mai de 2014

ANOITECER



Ao longo do bazar brilham pequenas luzes.
A roda do último carro faz a sua última volta.
Os búfalos entram pela sombra da noite,
onde se dispersam.

As crianças fecham os olhos sedosos.
As cabanas são como pessoas muito antigas,
sentadas, pensando.

Uma pequena música toca no fim do mundo.

Uma pequena lua desenha-se no alto do céu.

Uma pequena brisa cálida
flutua sobre a árvore da aldeia
como o sonho de um pássaro.

Oh, eu queria ficar aqui,
pequenina.


Cecília Meireles,
in Poemas escritos na Índia


21 de mai de 2014

OU ISTO OU AQUILO



Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo . . .
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

- Cecília Meireles, 
in "Ou Isto ou Aquilo"1990


O ECO



O menino pergunta ao eco
Onde é que ele se esconde:
Mas o eco só responde: “Onde? Onde?”

O menino também lhe pede:
“Eco, vem passear comigo!”
Mas não sabe se o eco é amigo
Pois só lhe ouve dizer
“Migo”!


Cecília Meireles,
in Ou isto ou aquilo.



16 de mai de 2014

Romantismo



Seremos ainda românticos 
- e entraremos na densa mata, 
em busca de flores de prata, 
de aéreos, invisíveis cânticos. 

Nas pedras, à sombra, sentados, 
respiraremos a frescura 
dos verdes reinos encantados 
das lianas e da fonte pura. 

E tão românticos seremos, 
de tão magoado romantismo, 
que as folhas dos galhos supremos 
que se desprenderem no abismo 

pousarão na nossa memória 
- secas borboletas caídas -
e choraremos sua história, 
- resumo de todas as vidas. 

Cecília Meireles
In: "Mar Absoluto e outros poemas"


O Menino Azul



O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.

O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
— de tudo o que aparecer.

O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.

E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.

(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)


Cecília Meireles,
in O Menino Azul

14 de mai de 2014

ORAÇÃO DA NOITE



Trabalhei, sem revoltas nem cansaços,
No infecundo amargor da solitude:
As dores, - embalei-as nos meus braços,
Como alguém que embalasse a juventude...

Acendi luzes, desdobrando espaços,
Aos olhos sem bondade ou sem virtude;
Consolei mágoas, tédios e fracassos
E fiz, a todos, todo o bem que pude!

Que o sonho deite bênçãos de ramagens
E névoas soltas de distância e ausência
Na minha alma, que nunca foi feliz.

Escondendo-me as tácitas voragens
De males que me deram, sem consciência.
Pelos míseros bens que sempre fiz!... 


Cecília Meireles
in Nunca Mais e Poema dos Poemas

Cada palavra uma folha



Cada palavra uma folha
no lugar certo.

Uma flor de vez em quando
no ramo aberto.

Um pássaro parecia
pousado e perto.

Mas não: que ia e vinha o verso
pelo universo.



Cecília Meireles,
in Metal Rosicler


3 de mai de 2014

'Epigrama nº6'




NESTAS pedras caíu, certa noite, uma lágrima.
O vento que a secou deve estar voando noutros países,
o luar que a estremeceu tem olhos brancos de cegueira,
— esteve sôbre ela, mas não viu seu esplendor.

Só, com a morte do tempo, os pensamento que a choraram
verão, junto ao universo, como foram infelizes,
que, uma lágrima foi, naquela noite a vida inteira,
— tudo quanto era dar, — a tudo que era opôr.

Cecília Meireles
in 'Viagem'





Campo



Campo da minha saudade:
vai crescendo, vai subindo,
de tanto jazer sem nada.

Desvelo mudo e contínuo
que vai revestindo os montes
e estendendo outros caminhos.

Mergulhada em suas frondes,
a tristeza é uma esperança
bebendo a vazia sombra.

Águas que vão caminhando
dispersam nos mares fundos
mel de beijo e sal de pranto.

Levam tudo, levam tudo
agasalhado em seus braços.

Campo imenso com meu vulto...
E ao longe cantam os pássaros.

Cecília Meireles
In Mar Absoluto e Outros Poemas

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