28 de jan de 2015

Abriu-se a janela



Abriu-se a janela
que existia no ar.
Ninguém viu posar
qualquer sombra nela.

Entre o lago e a lua,
sozinha subia
uma arvore fria,
delicada e nua.

E, de galho em galho,
andavam as loucas,
com cestas e toucas,
em busca de orvalho.

Azuis, os vestidos,
e o rosto coberto
de um luar incerto
- com os traços perdidos.

(Certamente para
que ninguém lembrasse
a dorida face
que amara e chorara...)

As loucas nos ramos
brincavam. E havia
no ar essa alegria
que nunca alcançamos.

Pela madrugada,
desfez-se a janela.
Partiram, com ela,
as sombras do nada.



Cecília Meireles
In: Canções (1956)

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