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28 de jan de 2015

Abriu-se a janela



Abriu-se a janela
que existia no ar.
Ninguém viu posar
qualquer sombra nela.

Entre o lago e a lua,
sozinha subia
uma arvore fria,
delicada e nua.

E, de galho em galho,
andavam as loucas,
com cestas e toucas,
em busca de orvalho.

Azuis, os vestidos,
e o rosto coberto
de um luar incerto
- com os traços perdidos.

(Certamente para
que ninguém lembrasse
a dorida face
que amara e chorara...)

As loucas nos ramos
brincavam. E havia
no ar essa alegria
que nunca alcançamos.

Pela madrugada,
desfez-se a janela.
Partiram, com ela,
as sombras do nada.



Cecília Meireles
In: Canções (1956)

28 de mai de 2014

COMO OS PASSIVOS AFOGADOS



esperando o tempo da areia
pelo mar de inúmeros lados
bóio tão venturosa e alheia
que,para mim, a noite e o dia
têm o mesmo sol sem ocaso,
e o que eu queria e não queria
aceitaram seu justo prazo

E nem me encontra quem me espera
nem o que esperei foi havido,
tanto me ausento desta esfera.

Ó liberdade sem tormento!
(Ó fitas soltas, ó cortinas
Levadas por um amplo vento
além de campos e colinas!...)
Vencendo sucessivos planos,
abrindo mundo encobertos
chegando ao reinos sobre-humanos
onde há jardim para os desertos!

A alma do sonho fez-se ouvido
tão vertiginoso e profundo
que capta o recado perdido
dos ocultos donos do mundo.


Cecília Meireles
In:  Canções

18 de mar de 2014

HÁ UM NOME QUE NOS ESTREMECE

 
HÁ UM NOME que nos estremece,
como quando se corta a flor
e a árvore se torce e padece.

Há um nome que alguém pronuncia
sem qualquer alegria ou dor,
e que em nós, é dor e alegria.

Um nome que brilha e que passa,
que nos corta em puro esplendor,
que nos deixa em cinza e desgraça.

Nele se acaba a nossa vida,
porque é o nome total do amor
em forma obscura e dolorida.

Há um nome levado no vento.
Palavra. Pequeno rumor
entre a eternidade e o momento.

Cecília Meireles
In: Canções

[Arte; Wieslaw Walkuski]

MUIROS CAMPOS TÊNUES


 
MUITOS CAMPOS tênues
que se inclinam pálidos:
flores decadentes
por todos os lados.

Grandes nuvens líricas,
ventos e astros lânguidos
a alta noite fria
clareando e sombreando.

Que vitória etérea
de guerreiros límpidos!
Mira a brava guerra
sonhos decorridos.

Desce no tempo íngreme
o planeta rápido.
Todo de ouro, o instinto
imobilizado.

E os nomes nos túmulos
frágil cinza vária. . .
-Quebrados escudos,
abolidas armas.

Cecília Meireles
In: Canções

INESPERADAMENTE


INESPERADAMENTE
a noite se ilumina:
que há uma outra claridade
para o que se imagina.

Que sobre-humana face
vem dos caules da ausência
abrir na noite o sonho
de sua própria essência?

Que saudade se lembra
e, sem querer, murmura
seus vestígios antigos
de secreta ventura?

Que lábio se descerra
e – a tão terna distância! –
conversa amor e morte
com palavras da infância?

O tempo se dissolve:
nada mais é preciso,
desde que te aproximas,
porta do Paraíso!

Há noite? Há vida? Há vozes?
Que espanto nos consome,
de repente, mirando-nos?
(Alma, como é teu nome?)

Cecília Meireles
In: Canções

24 de out de 2013

Respiro teu nome




Respiro teu nome.
que brisa tão pura
súbito circula
no meu coração.

Respiro teu nome.
repentinamente,
de mim se desprende
a voz da canção.

Respiro teu nome.
Que nome? Procuro...
- Ah teu nome é tudo.
E é tudo ilusão.

Respiro teu nome.
Sorte. Vida. Tempo.
Meu contentamento
é límpido e vão.

Respiro teu nome.
Mas teu nome passa.
Alto é o sonho. Rasa,
minha breve mão.


Cecília Meireles
in Canções -1956

12 de nov de 2012

''Aedo''



Nós cinco sabemos de tudo
e estamos sorrindo sem medos,
em cinco rostos absolutos,
na prata de um único espelho.

Rosa imortal e eterna murta
nem pousam no nosso cabelo.

Concentramos na lama o perfume
de que os outros fabricam beijos.

No silêncio dos nossos vultos,
não toca o pressuroso vento,
para que não se incline o lume
dos vigilantes céus acesos.

Somos cinco estranhas colunas
visitadas só pelo tempo,
feitas de dunas e de espumas,
- fábulas do humano momento.

Por desamor às criaturas e
outros desamores terrenos,
desabaremos todas juntas:
- Deus fechando os seus cinco dedos.

Cecília Meireles
de: "Canções",

9 de nov de 2011

Quando meu rosto contemplo


Quando meu rosto contemplo,
o espelho se despedaça
por ver como passa o tempo
e o meu desgosto não passa.


Amargo campo da vida,
quem te semeou com dureza,
que os que não se matam de ira
morrem de pureza tristeza?



Cecília Meireles
In: Canções (1956)

(Cecília de Meireles, nas. 07/11/1901 , morte 09/11/1964 )

14 de jul de 2011

Dos campos do Relativo

Dos campos do Relativo
escapei.
se perguntam como vivo,
que direi?

De um salto firme e tremendo,
- tão de além! –
chega-se onde estou vivendo
sem ninguém.

Gostava de estar contigo:
mas fugi.
Hoje, o que sonho, consigo,
já sem ti.

Verei, como quem sempre ama,
que te vais.
Não se volta, não se chama
nunca mais.

Os campos do Relativo
serão teus.
Se perguntam como vivo?
- De adeus.


Cecília Meireles
In: Canções (1956)

13 de jun de 2011

Amor, ventura,...


Amor, ventura,
não tenho.
Mas dor obscura
e tempo.


Deus encoberto
não vejo,
mas perto e certo
o entendo.


Viver, não vivo:
contemplo
meu sonho ativo
e isento.


Que mundo existe,
suspenso,
depois de um triste
degredo?


Não quero o acaso!
E penso:
lavra o meu prazo
que vento?



Cecília Meireles
In: Canções

Única sobrevivente...


Única sobrevivente
de uma casa desabada
- só eu me achava acordada.


E recordo a minha gente,
na noite sem madrugada.
Só eu me achava acordada.


Minha morte é diferente:
eles não souberam nada.
Só eu me achava acordada.


Mas quem sabe o que se sente,
entre ir na casa afundada
e ter ficado – acordada!?



Cecília Meireles
In: Canções

2 de mai de 2011

O rosto que me encontro...


O rosto que me encontro
e que a nuvem contempla
vai-se mudando noutro
só pelo que relembra.


De caminhos andados,
se levanta e suspira,
contando sonhos gastos
e palavras perdidas.


Tudo o que parecia,
tudo quanto não era,
tirou-lhe o gosto à vida
e a ternura da terra.


Guardei para o silencio
os tempos de renuncia:
quando meus sonhos penso,
vejo que sempre é nunca.


E é tão bela a tristeza,
que nem o amor alado
deixará dentro dela
mais que um desenho vago.


(Areia que aparece
dentro de águas que fogem,
sinto que te disperses
pela memória, longe...)



Cecília Meireles
In: Canções (1956)

15 de out de 2010

Dai-me algumas palavras...


Dai-me algumas palavras,
- porém, somente algumas! –
que às vezes apetece,
pelos jardins da areia,
colher flores de espuma.


Deixai, deixai, secreto,
o silencio que dorme
ás portas da minha alma,
guardando os labirintos
e as esfinges enormes.


(O silencio caído
com seus firmes oceanos
- onde não há mais nada
dos litorais do mundo
nem do périplo humano!



Cecília Meireles
In: Canções (1956)

Ó peso do coração!


Ó peso do coração!
Na grande noite da vida,
teus pesares que serão?


A sorte amadurecida
resplandece em minha mão:
lúcida, clara, polida.


Nem saudade nem paixão
nem morte nem despedida
seu brilho escurecerão.


Na grande noite da vida
brilha a sorte. O coração,
porém, é a dor desmedida.


Maior que a sorte e que a vida...



Cecília Meireles
In: Canções (1956)

Virgem, no teu coração...


Virgem, no teu coração,
sete espadas encontrei.
Sete vezes sete são
as minhas, segundo a Lei.


(Sangue que corres, por quem
minhas veias deixarás?
Morre-se só. E a ninguém
com o morrer se deixa em paz!)


Num cego mundo sem fim,
é bem que se morra só.
Virgem, lembra-te de mim,
deste meu misero pó,


que foi coração também,
todo recortado de ais,
e já nem espaço tem
para outras espadas mais!


Virgem, no teu coração,
sete espadas enconteri.
Pelas tuas, chorarão.
Pelas minhas, não chorei.



Cecília Meireles
In: Canções (1956)

15 de jun de 2010

Muitos campos tênues


Muitos campos tênues
que se inclinam pálidos:
flores decadentes
por todos os lados.


Grandes nuvens líricas,
ventos e astros lânguidos
a alta noite fria
clareando e sombreando.


Que vitória etérea
de guerreiros límpidos!
Mira a brava guerra
sonhos decorridos.


Desce no tempo íngreme
o planeta rápido.
Todo de ouro, o instinto
imobilizado.


E os nomes nos túmulos,
frágil cinza vária...
- Quebrados escudos,
abolidas armas.


Cecília Meireles
In: Canções (1956)

27 de mai de 2010

Inesperadamente


Inesperadamente,
a noite se ilumina:
que há uma outra claridade
para o que se imagina.


Que sobre-humana face
vem dos caules da ausência
abrir na noite o sonho
de sua própria essência?


Que saudade se lembra
e, sem querer, murmura
seus vestígios antigos
de secreta ventura?


Que lábio se descerra
e – a tão terna distancia! –
conversa amor e morte
com palavras da infância?


O tempo se dissolve:
nada mais é preciso,
desde que te aproximas,
porta do Paraíso!


Há noite? Há vida? Há vozes?
Que espanto nos consome,
de repente, mirando-nos?
(Alma, como é teu nome?)



Cecília Meireles
In: Canções (1956)

9 de nov de 2009

Quanto o meu rosto contemplo



Quando meu rosto contemplo
O espelho se despedaça:
Por ver como passa o tempo
E o meu desgosto não passa.

Amargo campo da vida,
Quem te semeou com dureza,
Que os que não se matam de ira
Morre de pura tristeza ?

Cecília Meireles
in Canções

19 de mai de 2009

Cavalgada



Escuta o galope certeiro dos dias
saltando as roxas barreiras da aurora.

Já passaram azuis e brancos:
cinzentos, negros, dourados passaram.

Nós, entretidos pela terra,
não levantamos quase nunca os olhos.

E eles iam de estrela a estrela,
asas, crinas e caudas agitando.

Todos belos, e alguns sinistros,
com centelhas de sangue pelos cascos.

Se alguém lhes suplicasse:"Parem!"
- não parariam - que invisível látego

ao flanco impôs-lhe ritmo certo.
Se por acaso alguém dissesse: "Voem!

Mais depressa e para mais longe?"
- veria o que é, no céu, a voz humana...

Escuta o galope sem pausa
da cavalgada que vai para oeste.

Não suspires pelo que existe
nesses caminhos do sol e da lua.

Semeia, colhe, perde, canta,
que a cavalgada leva seu destino.

Ferraduras, ígneas virão
procurar onde estás, na hora que é tua.

Entre essas patas de aço e nuvem,
estão presos teus campos e teus mares.

Irás ao céu num selim de ouro,
sem saberes quem pôs teu pé no estribo.

Rodarás entre a poeira e Sírius,
com esses ginetes sem voz e sem sono,

até vir o mais poderoso
que esmague a rosa guardada em teu peito.

Depois, continuarão saltando, mas tão longe
que não perturbarão tuas pálpebras soterradas.

Cecília Meireles
In: Canções -1956-

SE ESTIVE no mundo
ou fora do mundo. . . ?
Mas que lhe respondo,
se o Arcanjo pergunta,
num tempo profundo?

No mundo passava:
porém muito longe.
Por sonhos e amores
me desintegrava.

O mundo não via:
minha permanência
foi, por toda parte,
fantasmagoria.

Dava, mas não tinha.
E, nessa abundância,
nada me ficava:
nem sei se fui minha.

Se estive no mundo
ou fora do mundo?
-Assim me apresento,
se o Arcanjo pergunta
meu nome profundo.



Cecília Meireles
In: Canções -1956-
Seja bem-vindo. Hoje é