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17 de mai de 2009

Entre lágrimas se fala


Entre lágrimas se fala
- e Deus sabe o que se sente!
Mas de longe não se escuta
nem se entende.

A voz é rouca e dorida
e a distância, tão penosa...
Quem sofre já não se espanta:
cala e chora.

Apenas, uma pergunta
às vezes, tímida, ocorre:
para que, noites e dias,
chora e sofre?

Quando amanhã todos formos
a mesma terra perdida,
ninguém saberá das dores
que sofria.

Onde o lábio sem resposta?
Onde, os olhos ainda cheios...?
Onde, o coração que havia?
Onde o peito?

De tão longe, não se escuta.
Não se escuta e não se entende.
Deus, entre as lágrimas fala:
- não se sente.

Cecilia Meireles
In: Canções -1956-

Já não tenho lágrimas


Já não tenho lágrimas:
estão caídas
longe, em vagas margens,
qual mornas ovelhas
recém-nascidas.

Longe estão caídas,
entre esses montes
de saudades vivas,
de figuras frias,
ai, de que horizontes!

Suspirosos montes!
Porém, agora,
talvez não me encontrem.
Pois a alma se esconde,
porque já nem chora.


Cecília Meireles
In: Canções -1956-

Dai-me algumas palavras


Dai-me algumas palavras,
- porém, somente algumas! -
que às vezes apetece,
pelos jardins de areia,
colher flores de espuma.

Deixai, deixai,secreto,
o silêncio que dorme
às portas da minha alma,
guardando os labirintos
e as esfinges enormes.

(O silêncio caido
com seus firmes oceanos
- onde não há mais nada
dos litorais do mundo
nem do périplo humano!)


Cecilia Meireles
in: Canções -1956-

15 de abr de 2009

Se Não Houvesse Montanhas


Se não houvesse montanhas!
Se não houvesse paredes!
Se o sonho tecesse malhas
e os braços colhessem redes!

Se a noite e o dia passassem
como nuvens, sem cadeias,
e os instantes da memória
fossem vento nas areias!

Se não houvesse saudade, solidão nem despedida...
Se a vida inteira não fosse, além de breve, perdida!
Eu não tinha cavalo de asas,
que morreu sem ter pascigo
E em labirintos se movem
Os fantasmas que persigo.

Cecília Meireles
Canções, 1956
Seja bem-vindo. Hoje é