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28 de jan de 2015
Falai de Deus com a clareza
Falai de Deus com a clareza
da verdade e da certeza:
com um poder
de corpo e alma que não possa
ninguém, à passagem vossa,
não o entender.
Falai de Deus brandamente,
que o mundo se pôs dolente,
tão sem leis.
Falai de Deus com doçura,
que é difícil ser criatura:
bem o sabeis.
Falai de Deus de tal modo
que por Ele o mundo todo
tenha amor
à vida e à morte, e, de vê-Lo,
O escolha como modelo
superior.
Com voz, pensamentos e atos
representai tão exatos
os reinos seus
que todos vão livremente
para esse encontro excelente.
Falai de Deus.
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
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14 de dez de 2014
SONETO ANTIGO
Responder a perguntas não respondo.
Perguntas impossíveis não pergunto.
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.
Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.
O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.
Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos
[Arte by Michael & Inessa Garmash]
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Dispersos
27 de ago de 2014
Diálogos do jardim
Debaixo de tanto calor,
o pássaro arranjou um ramo verde e fresco,
e pôs-se a falar.
O pássaro perguntava-me:
"Lembras-te das grandes árvores,
com lágrimas douradas de resina?"
Respondi-lhe que sim, que me lembrava,
que naquele tempo ouvíramos falar em âmbar,
e queríamos fazer colares de resina:
mas em nossas mãos ela perdia a transparência.
"Lembras-te dos cajus maduros,
caindo fofamente na folhagem morta do chão?"
Respondi-lhe que sim, que ainda os via,
muito longe, amarelos e túrgidos,
às vezes, rebentados, na queda,
escorrendo, perfumosos, sumo doce.
" Lembras-te das rodelinhas douradas
que a folhagem e o sol balançavam por cima dos livros?"
Respondi-lhe que sim, e que eram livros de histórias,
e foram depois romances, e um dia poemas,
e mais tarde pensamentos difíceis...
E o passarinho perguntava:
"Lembras-te da tua voz devolvida pelo eco?"
E eu me lembrava, mas não das palavras,
só que as respostas eram sempre incompletas.
"E o recorte da montanha, no horizonte,
lembras-te como era azul e negro? E as palmeiras?
E as sebes de flores encarnadas?"
E eu me lembrava de tudo, e sentia o aroma da tarde,
e o canto das cigarras, e o lamento dos sabiás
e das rolas,
e via brilhar a bola azul do telhado, que amei tanto,
e sentia, tão doce,a minha perpétua solidão.
E perguntei ao pássaro:"Onde estavas,
para me perguntares tudo isso?
Também já viveste tanto?"
E ele me respondeu: "Não, tudo isso está no fundo dos teus olhos.
Eu só vou perguntando o que estou lendo...
E, porque o leio, canto."
- Cecília Meireles,
in Dispersos
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21 de jul de 2014
Pequeno poema de Ouro Preto
A Rodrigo M.F. de Andrade
Quem é a dona que toca?
Fechei os olhos, não vi.
Que nunca se abra a cortina
quando eu passar por aqui.
Sonho seus longos cabelos
como harpa, na escuridão;
seus olhos de prata, esquivos,
e uma perola nublosa
no nácar de sua mão.
O que a dona vai tocando?
Que importa? Seja o que for.
Tudo aqui fora á saudade.
Lá dentro, seria amor.
O piano que a dona toca,
de onde, de que tempo vem?
E o que eu penso, enquanto a escuto,
ela o pensará também?
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
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7 de jul de 2014
Até quando terás, minha alma, esta doçura
Até quando terás, minha alma, esta doçura,
este dom de sofrer, este poder de amar,
a força de estar sempre – insegura – segura
como a flecha que segue a trajetória obscura,
fiel ao seu movimento, exata em seu lugar...?
Fevereiro, 1955
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
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Felizes os que podem mover facilmente os olhos, sem os ver transbordar
Felizes os que podem mover facilmente os olhos, sem os ver transbordar,
oh! abrir e fechar as pálpebras de mil modos,
refletir as variedades do mundo,
revelar as ramagens múltiplas e delicadas da alma
- levemente.
Eu, do coração para cima sou toda lagrimas:
qualquer movimento abala esta secreta arquitetura,
qualquer pequeno descuido pode derramar este oceano
sempre crescente.
Felizes as folhas que o vento da sua carga de orvalho.
Felizes.
Mas o Anjo repete-me sobre cada passo do ponteiro:
“Sustenta a agonia para sempre intacta!”
Para sempre a sustento.
Agosto, 1955
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
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Chega o verão
Vamos abrir as janelas ao vento salgado do mar.
Chega o verão, vagarosa nau, de um trêmulo horizonte,
com seu andar de floresta e seus odores enevoados
de resinas espessas e tormentas no alto da tarde.
Nuvens de cupins jorram da sombra, girando em cegueira.
Asas sem peso chovem o arco-íris, semeiam nácar pelos meus dedos.
Oh, por que serão feitas estas mínimas vidas
com tanta perfeição para instantâneas se desfazerem?
Vamos fechar as janelas sobre a noite, com seu vento de fogo.
Aqui vêm, despojados, os cupins pelas mesas,
arrastando-se por entre as próprias asas caídas.
Aqui vêm, num cortejo de desvalidos, de sentenciados...
Oh, dizei-me, dizei-me, que anjos, que santos, que potencias
se ocupam desse silencio movediço, do apressado
itinerário dos moribundos frágeis que passam!
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
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2 de jul de 2014
As perolas
O mercador dizia-me que as perolas deste colar
levaram dez anos a ser reunidas.
Pequenas perolas
– de que mares?
– de que conchas?
– menores que lagrimas, apenas maiores que grãos
de areia, transpiração das flores.
Talvez o mercador mentisse. Mas a própria mentira
não perturbava a beleza das perolas.
E eu via dez anos, de mar em mar, em muitas mãos,
escuras e magras, sob longos olhares pacientes,
aquele pequeno orvalho medido, perfurado, enfiado
para uma criatura de muito longe, desconhecida
e inesperada, que um dia tinha de recebê-las aqui.
Maio, 1954
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
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Poema do nome perdido
Como é teu nome, ó amiga estrangeira,
como é teu nome, ó rosto branco,
madona de tranças tristes, rio de ouro que um vento frisa?
Onde está o teu nome, dentro de mim, que não o encontro?
Acho tuas mãos tão finas, teus olhos verdes,
teu silencio delicado...
Mas teu nome onde está?
Deves começar por A, tão clara tão nítida,
tão perdida...
água...Oh!... Ar... Dize, como te chamas?
Quero escrever-te, e conheço-te,
e não me lembro do teu nome...
Alba... Aurora... Asa... Aragem...
Como te chamas? E por que não me lembro,
lembrando-te tanto, querendo-te tanto?
Decerto, o que estimo em ti não tem nome nenhum.
Nem mesmo o teu.
Mas o teu qual é, ó amiga que assim te escondes?
Cigarra na folhagem, sussurra para que te encontre!
Amália! Amália!
Ó exata, ó fiel, ó geométrica,
é dona das cores matutinas, dos barcos brancos,
das janelas fechadas ao crepusculo!...
Quem separa dentro de mim teu rosto do teu nome?
E procurei-o letra por letra,
como em noite escura se adivinha uma flor,
tocando pétala por pétala.
E eras inúmera! Amália, Amália...
Dália .
Cecília Meireles
Poesia Completa
In: Dispersos (1918 – 1964)
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26 de jun de 2014
EIS A CASA
Eis a casa
menos que ar
imponderável,
no entanto é branca de camélia
e tem perfume de cal
Com seus corredores
O alpendre
As janelas uma a uma
Vê-se o mar. As montanhas. O trem passando
O gasômetro
Vêem-se as árvores por cima com suas flores
A casa imponderável
Mas de cimento madeira tijolos ferro vidro
A pintura prateada das grades cheira a óleo a fruta a luz
A água a pingar cheira a musgo,
soa metálica, trêmula
insetos pássaros líquidos
pequenas estrelas
clarins muito longe
Peitoris gastos de braços antigos
Sombras de borboletas
Eu sei quem comprou a terra
quem pensou nos desenhos
quem carregou as telhas
Passam legiões de formigas pelos patamares
Eu sei de quem era a casa
quem morou na casa
quem morreu
Eu sei quem não pôde viver na casa
É uma casa
com seus andares
suas escadas
seus corredores
varandas
aposentos
alvenaria
muros
imponderável.
Uma casa qualquer.
Cruz que se carrega.
Imponderávelmente, para sempre, às costas.
1961.
Cecília Meireles,
in Dispersos
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15 de jun de 2014
Tomar a substancia do dia
Tomar a substancia do dia,
a sua mágica substancia,
e levantá-la como um vaso,
desenhando no seu cristal
desejo, deslumbramento, esperança
na rosa que não é apenas flor,
mas diagrama da perfeição.
E de novo recomeçar,
porque é sempre um novo dia,
e o cristal da sua substancia
foge entre os nossos dedos,
e amarga em nossa boca,
e é puro quartzo de lagrima
que se prepara e forma e quebra
para sempre, na eterna solidão.
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
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Fragmento
Eu falava no mar como alguém que recorda
seus pais. E amava todo o aparelho naval:
- o grosso cheiro de óleo, o contorno da corda,
o arrastar da corrente - e águas, e brisa e sal.
Eu pisava no cais com marítimo passo.
Invejava o molusco em líquen pelas quilhas.
E minha alma era um grito às gaivotas no espaço,
e paixão de encontrar cabos, recifes, ilhas.
Que me diz hoje o mar, e que me diz o vento,
que me diz esse amor, sem lugar para mim?
De tudo se desprende um triste pensamento.
No mais longe horizonte avisto o breve fim.
Tudo igual, em redor. Tudo, de qualquer lado,
preso no seu limite, em seu tempo, em seu luto.
E o mar que eu via, o mar eterno, continuado,
grande por ser sozinho, imortal, absoluto...?
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
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Música matinal
A Onestaldo de Pennafort
Não me digam quem é
a dona que toca
por detrás da manhã
quase noite ainda
nesta franja de luar
do velho teclado
caminho de marfim
de pálidas Musas.
Ó Mozart de cristal
desfolhado à brisa
de orvalho e jasmim!
Cavalos tranqüilos
mascam trevos de som,
hastes de sustenidos
e fieiras de grãos
negros de semifusas.
Bebem a água do ar
E levantam nos olhos
as ruas do céu.
Não me digam quem é
a dona da sombra
imperativa e irreal.
Deixai que a cidade
encontre ao despertar
o passaro claro
que vem de suas mãos
e das nuvens à terra
abre asas de luz
e suspende em seu canto
a áurea rosa do sol.
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
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22 de abr de 2014
Serenata para Verlaine
Trago-te o luar e as folhas secas
e os violinos do outono
e as mãos azuis das águas frescas
às varandas do sono.
Trago-te as estatuas e a dança
das mascaras antigas
e os fluidos pés e a voz escassa
das amadas amigas.
Trago-te a estrela, a rosa, o cisne
e a etérea balaustrada
em que brandamente se incline
tua alma deslembrada.
Trago-te parques de tão longe
com rouxinóis nos ramos.
Lerás nos troncos: “Até Hoje,
ó Verlaine, te amamos”.
Trago-te a flor contra o pecado
e contra o sofrimento.
Com seus perfumes te engrinaldo,
entre fitas de vento.
Cecília Meireles
Poesia Completa
In: Dispersos (1918 – 1964)
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14 de abr de 2014
Ninguém me venha dar vida
Ninguém me venha dar vida,
que estou morrendo de amor,
que estou feliz de morrer,
que não tenho mal nem dor,
que estou de sonho ferida,
que não me quero curar,
que estou deixando de ser
e não me quero encontrar,
que estou dentro de um navio
que sei que vai naufragar,
já não falo e ainda sorrio,
porque está perto de mim
o dono verde do mar
que busquei desde o começo,
e estava apenas no fim.
Corações, por que chorais?
Preparai meu arremesso
para as algas e os corais.
Fim ditoso, hora feliz:
guardai meu amor sem preço,
que só quis a quem não quis.
1947
Cecília Meireles
In: Dispersos (1918-1964)
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23 de fev de 2014
Eternidade inútil
Até morrer estarei enamorada
de coisas impossíveis:
tudo que invento, apenas,
e dura menos que eu,
que chega e passa.
Não chorarei minha triste brevidade:
unicamente a alheia,
a esperança plantada em tristes dunas,
em vento, em nuvens, n’água.
A pronta decadência,
a fuga súbita
de cada coisa amada.
O amor sozinho vagava.
Sem mais nada além de mim...
numa eternidade inútil.
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
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14 de set de 2013
SOBRE A FLORESTA VERDE
Sobre a floresta verde,
as casas brancas.
Ao longo das ruas barrentas,
os muros brancos.
Ah! como voam brancos
os pombos entre o céu e a terra!
Na terra, os jardins de jasmins brancos,
no céu, as nuvens que sobem,
tão brancas!
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
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12 de nov de 2012
“PRELÚDIO DA MONÇÃO”
Vai chover muito.
No jardim que se esboroa de secura,
cada folha suplica uma gota d´água.
Os passarinhos já fecham os olhos,
antes que o sol lhes seque
o pingo líquido dos olhos.
As cigarras crepitam,
queimadas sobre os troncos ardentes.
Sai o halo do fogo de dentro das pedras.
Não há nada a fazer, senão descair
como as lânguidas palmas.
Esperar que seja possível a vida.
Vai chover muito:
tudo está olhando para as nuvens que engrossam,
que tropeçam no seu peso,
se acomodam para choverem tranquilamente.
Ah! como vai chover…
A ordem virá de um vento brando
que ainda se adestra longe.
Seu corcel pulará de súbito no alto do monte
e seu chicote luzirá no céu, turvo de azul.
Talvez o mar já sinta o comando remoto
e esteja concentrando seus cristais verdes,
estendendo sua pequena espuma fatigada,
cavando sua cavernas roxas,
oleosas campânulas súbitas,
nesse campo de estranhas metamorfoses.
Tremendo levemente estas pequenas folhas sensíveis,
e a sombra do céu virá toldar estas serenas estátuas.
As areias se moverão, timidamente, em seus lugares
e os galhos secos tristemente cairão, para sempre mortos.
Como vai chover!
Oh! Os tambores da chuva torrencial já se ouvem dentro do chão celeste…
Lá vem o corcel de retorcidas crinas,
e o látego do invisível ginete
ziguezagueia e esconde-se.
Vai chover toda a noite:
— no sono abafado da floresta profunda;
— nas calvas pedras, sulcadas por antigas tormentas;
— no grande mar parado e nublado pelo aguaceiro
— nos brancos cemitérios de anjos inúteis, de míseras lâmpadas;
— nas ruas vazias, com seus charcos onde se afogam as sombras humanas;
— nos jardins extenuados, com os pássaros escondidos até a voz.
Vai cair uma chuva intensa,
pelos vestidos dos santos,
pelos cabelos dos colegiais,
pelos vidros dos palácios,
pelas escadas dos asilos,
pelos pátios dos manicômios,
dos hospitais e dos necrotérios...
Vai cair uma chuva tão grande sobre todas as coisas,
que tudo ficará abolido;
mas ficará purificado?
Mesmo a palavra de amor,
o suspiro de agonia,
o protesto, o riso, o lamento
serão levados nessa chuva poderosa.
Ninguém poderá levantar a mão
e agarrar e prender como a trança de uma mulher,
a crina de um animal ou a ramagem de uma árvore,
essa livre chuva sem dono humano
que cai sozinha e governa.
Só quando o temporal cessar,
e os ralos das tristes cidades sossegarem,
se poderá subir o que sobrevive,
se alguma coisa recomeçará.
Cecília Meireles
antes que o sol lhes seque
o pingo líquido dos olhos.
As cigarras crepitam,
queimadas sobre os troncos ardentes.
Sai o halo do fogo de dentro das pedras.
Não há nada a fazer, senão descair
como as lânguidas palmas.
Esperar que seja possível a vida.
Vai chover muito:
tudo está olhando para as nuvens que engrossam,
que tropeçam no seu peso,
se acomodam para choverem tranquilamente.
Ah! como vai chover…
A ordem virá de um vento brando
que ainda se adestra longe.
Seu corcel pulará de súbito no alto do monte
e seu chicote luzirá no céu, turvo de azul.
Talvez o mar já sinta o comando remoto
e esteja concentrando seus cristais verdes,
estendendo sua pequena espuma fatigada,
cavando sua cavernas roxas,
oleosas campânulas súbitas,
nesse campo de estranhas metamorfoses.
Tremendo levemente estas pequenas folhas sensíveis,
e a sombra do céu virá toldar estas serenas estátuas.
As areias se moverão, timidamente, em seus lugares
e os galhos secos tristemente cairão, para sempre mortos.
Como vai chover!
Oh! Os tambores da chuva torrencial já se ouvem dentro do chão celeste…
Lá vem o corcel de retorcidas crinas,
e o látego do invisível ginete
ziguezagueia e esconde-se.
Vai chover toda a noite:
— no sono abafado da floresta profunda;
— nas calvas pedras, sulcadas por antigas tormentas;
— no grande mar parado e nublado pelo aguaceiro
— nos brancos cemitérios de anjos inúteis, de míseras lâmpadas;
— nas ruas vazias, com seus charcos onde se afogam as sombras humanas;
— nos jardins extenuados, com os pássaros escondidos até a voz.
Vai cair uma chuva intensa,
pelos vestidos dos santos,
pelos cabelos dos colegiais,
pelos vidros dos palácios,
pelas escadas dos asilos,
pelos pátios dos manicômios,
dos hospitais e dos necrotérios...
Vai cair uma chuva tão grande sobre todas as coisas,
que tudo ficará abolido;
mas ficará purificado?
Mesmo a palavra de amor,
o suspiro de agonia,
o protesto, o riso, o lamento
serão levados nessa chuva poderosa.
Ninguém poderá levantar a mão
e agarrar e prender como a trança de uma mulher,
a crina de um animal ou a ramagem de uma árvore,
essa livre chuva sem dono humano
que cai sozinha e governa.
Só quando o temporal cessar,
e os ralos das tristes cidades sossegarem,
se poderá subir o que sobrevive,
se alguma coisa recomeçará.
Cecília Meireles
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31 de jul de 2012
'Tarde de chuva'
A nuvem negra
é uma outra noite precoce
que chega do Oeste.
As mães chamam pelos filhos
exatamente como se aquela sombra
fosse um exército inimigo.
Os pássaros fogem
por todos os lados
e os jasmins deixam cair
suas brancas estrelas
ao vento que frisa
a água verde do tanque.
As margaridas inclinam-se
tontas, tontas.
Cai uma chuva alegre,
que não apaga o trinar dos pássaros.
O tijolo bebe cada gota,
instantaneamente.
Esta é uma chuva
das que trazem colar de arco-íris.
Esta é uma chuva
dançarina de cristal.
Mas, de repente, o trovão fala, severamente.
E tudo presta atenção.
A nuvem negra
chega do Oeste
e é como a noite,
em plena tarde,
no meu jardim.
E o vento desce
nas margaridas,
e se arredonda
entre as mangueiras
e se desfolha
na leve sebe
e é verde e branco.
9.1.1957
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
é uma outra noite precoce
que chega do Oeste.
As mães chamam pelos filhos
exatamente como se aquela sombra
fosse um exército inimigo.
Os pássaros fogem
por todos os lados
e os jasmins deixam cair
suas brancas estrelas
ao vento que frisa
a água verde do tanque.
As margaridas inclinam-se
tontas, tontas.
Cai uma chuva alegre,
que não apaga o trinar dos pássaros.
O tijolo bebe cada gota,
instantaneamente.
Esta é uma chuva
das que trazem colar de arco-íris.
Esta é uma chuva
dançarina de cristal.
Mas, de repente, o trovão fala, severamente.
E tudo presta atenção.
A nuvem negra
chega do Oeste
e é como a noite,
em plena tarde,
no meu jardim.
E o vento desce
nas margaridas,
e se arredonda
entre as mangueiras
e se desfolha
na leve sebe
e é verde e branco.
9.1.1957
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
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Paisagem e silencio
O hirto cipreste com pássaros escondidos na rama crespa.
A rendada folhagem das sucessivas acácias.
Folhas coloridas, agaves, roseiras descendo entrelaçadas
A encosta pedregosa.
Para onde foram as borboletas que aqui dançaram?
Os telhados muito velhos, ainda com clarabóias.
Escuros vãos de janelas, tão longe que não se avista ninguém.
Coníferas, palmeiras. Tudo imóvel,
a não ser uma fumaça que sobe azuladamente, entre as arvores.
O flanco da montanha, com seus verdes turvos,
com sua pedra riscada por sulcos de água.
Nuvens tempestuosas, grossas nuvens aquosas
crescendo insensivelmente, cinzentas, pardas, lívidas.
São conchas monumentais, balaustradas, zimbórios frágeis.
Montanhas aéreas de opalas foscas.
De repente, duas pequenas asas fugitivas:
- o pombo branco.
Atrás delas, igual a elas, assim clara, alta e rápida,
uma voz de criança a correr.
Depois, entre o olhar e a tarde,
prossegue o silencio.
Abril, 1954
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
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