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4 de mai de 2010

Busca da rosa


Há longos labirintos, fontes frias,
lábios sem rosto, sinos de doçura,
mas verdes solidões e na espessura
deste bosque onde vou perdendo os dias.
Vim no alado cavalo da Aventura,
ungida por meus votos e magias.
Vim, mas vejo-me só – porque as esguias
asas fugiram, procurando altura.
Insisto nesta busca vagarosa.
Quero ouvir, entre sombra e soledade,
o eco, o arroio, a cascata, a alma do mar
dizerem onde se elabora a rosa
sem morte, sem desejo e sem saudade
que vim de longe para contemplar.


Onde a pessoa encontra um vulto que não é o da rosa


Resigno-me a deixar pender meu rosto
sobre a fonte de encantos que desliza
nestas escuridões – e sinto o gosto
de tua vida: onda, frescura e brisa.
Mas logo vejo armar-se uma imprecisa
sombra de fora, denso muro oposto
a essa doçura – e avança, e escura pisa
mesmo a alegria do meu claro rosto.
Ah! não te posso amar, enamorada
perpetuamente, no êxtase da vida!
Esta é a pausa distante do meu peito.
Não padeças – que eu não te peço nada.
Nem se fica infeliz, por dolorida,
a vagar nestes bosques do Imperfeito.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

21 de abr de 2010

Fala-me agora, que estou cansado

(GUILLAUME SEIGNAC - França-1870 - 1924)


Fala-me agora, que estou cansado,
agora, que já voltaste, e conheces o mundo,
de cada lado.


Fala-me como alguém que já sabe da vida
e da sua seiva mais tenebrosa
e que transporta sua alma partida.


Fala-me como se a morte amanhã chegasse
e pusesse a fria coroa da lua
sobre a tua face.


Fala-me e dize que me ouviste um dia,
e que estavas só, perdido, acabado,
e tiveste alegria.


Fala-me, enfim, como nunca no mundo
ninguém já falou a um irmão, a um amigo
- abre o teu coração até o fundo.


Para que eu morra com o contentamento
de que o meu amor não foi um dom perdido,
lágrima no mar, suspiro no vento.


Que se pode ainda amar como em sonhos antigos,
sem mãos e sem voz, sem olhos, sem passos,
além de glórias e perigos.


Fala-me como alguém que me viu tão de frente
que eu não posso saber se é o meu próprio retrato
num espelho clarividente.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

9 de abr de 2010

Epigramas


I

À bela dama despojada
não lhe restava mais nada,
depois de batalhas ávidas.


Continuava, porém, tão bela,
que inveja dizia: “Àquela
ainda lhe restam as perolas...”


A bela dama despojada
não podia dizer nada.
(Não lhe restavam nem lagrimas.)


II


Não há rosto nenhum! E mesmo o meu, que importa?
E as mãos! – as mãos foram um desenho sem sentido.
Um dia sonhamos que existimos.
Vivemos desse sonho.
E dentro dele fomos tão desgraçados...


Quando recordaremos esse sonho sonhado?
Onde recordaremos esse sonho acabado?


Quem seremos, depois dessa antiga aventura,
e em que abismos de lembrança
despiremos, afinal, esta couraça tênue de vida,
esta opressão e esta fragilidade,
este martírio vago e perseverante da memória?


III


Sobre uma flor dormiríamos
e o vento nos dividiria com suas numerosas laminas.


Sobre uma flor. Sem rastros.
Sem espelho. Sem nome.
Ah! mas em que translúcido tempo?


IV


Não descerias em mim, porque a minha torrente
desmancharia o teu frágil momento
no rápido transito.


Fica só refletida, e as ondas que passarem
todas irão levando a ausência do teu rosto,
que será presença sem fim.


Não queiras ter a morte inglória dos encontros.
Mas a eterna, a profunda vida, no reflexo
que por onde passar te levará.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

2 de fev de 2010

'Mensagem a um desconhecido'



Teu bom pensamento longínquo me emociona.
Tu, que apenas me leste,
acreditaste em mim, e me entendeste profundamente.


Isso me consola dos que me viram,
a quem mostrei toda a minha alma,
e continuaram ignorantes de tudo que sou,
como se nunca me tivessem encontrado.


Fevereiro, 1956


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

'Como alguém que acordou muito tarde'


(Foto by Antônio Carlos Januario- MG)


Como alguém que acordou muito tarde,
e sente falta do dia passado,
do dia desconhecido
que esteve sobre os seus olhos fechados
repleto de movimento e dança,
todos os dias choramos,
secretamente, sem lagrimas nem consciência,
alguma coisa que se passou fora de nós.


E suspiramos com um suspiro vazio,
e entristecemos, de repente.


1957



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

31 de jan de 2010

'Antieclesiaste'



Chuva nas nuvens,
flores nas arvores,
lagrimas em nós.


Estação de chuva,
estação de flores.
O tempo inteiro para as lagrimas.
Por isso estamos tão extenuados:
todos os tempos foram de chorar.

1949


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

20 de jan de 2010

Luar póstumo



Numa noite de lua escreverei palavras,
simples palavras tão certas
que hão de voar para longe, com asas súbitas,
e pousar nessas torres das mudas vidas inquietas.


O luar que esteve nos meus olhos, uma noite,
nascerá de novo no mundo.
Outra vez brilhará, livre de nuvens e telhados,
livre de pálpebras, e num país sem muros.


Por esse luar formado em minhas mãos, e eterno,
é doce caminhar, viver o que se vive.
Porque a noite é tão grande... Ah, quem faz tanta noite?
E estar próximo é tão impossível!



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

16 de jan de 2010

Os homens rústicos rezavam



Os homens rústicos rezavam:
em seus lábios quase de pedra
passavam palavras aladas
como delicadas libélulas.


E por delicadas libélulas
seus olhos eram poços de alma
que uma água ia enchendo, secreta,
profunda, de infindáveis lagrimas.


Setembro, 1962


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

7 de jan de 2010

'Improviso à janela'



Este é o começo do dia,
como o começo e o fim do mundo:
as nuvens aprendem a voar,
os campos vão sonhando nuvens,
o vento vai sonhando o pó
onde tristemente o amor palpitará.


Este é o começo do dia.
Vemos tudo o que já foi visto,
alguma coisa não mais se verá.


Nem sempre olhamos o dia
tão face a face e tão docemente.
Nem sempre sentimos esta saudade,
ainda ausente, ainda futura,
do que há e do que não há.


Este é o começo do dia:
- do céu, da luz, da terra, dos homens,
que acontecerá?


1954

Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

Espelho cego



Onde a face de prata e cristal puro,
e aquela deslumbrante exatidão
que revela o mais breve aceno obscuro


e o compasso das lagrimas, e a seta
que de repente galga os céus do olhar
e em margens sobre-humanas se projeta?


Onde, as auroras? Onde, os labirintos
- e o frêmito, que rasga o peso ao mar
- e as grutas, de áureos lustres e aéreos plintos?


Ah – que fazes do rosto que te entrego?
- Musgos imóveis sobre a sua luz...
Limos... Liquens... – Opaco espelho cego!


1954

Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

Chuva



Sobre as casas fechadas, a chuva.
Sobre o sono dos homens, a chuva.
Sobre os mortos inúmeros, a chuva.


A chuva noturna sobre as arvores.
A chuva noturna sobre os templos
A chuva noturna sobre o mar.


Sobre a solidão deste mundo, a chuva.
A solidão da chuva, na solidão.


Abril, 1954



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

6 de jan de 2010

Carnaval



Com os teus dedos feitos de tempo silencioso,
Modela a minha mascara, modela-a...
E veste-me essas roupas encantadas
Com que tu mesmo te escondes, ó oculto!

Põe nos meus lábios essa voz
Que só constrói perguntas,
E, à aparência com que me encobrires,
Dá um nome rápido, que se possa logo esquecer...

Eu irei pelas tuas ruas,
Cantando e dançando...
E lá, onde ninguém se reconhece,
Ninguém saberá quem sou,
À luz do teu Carnaval...

Modela a minha mascara!
Veste-me essas roupas!

Mas deixa na minha voz a eternidade
Dos teus dedos de silencioso tempo...
Mas deixa nas minhas roupas a saudade da tua forma...
E põe na minha dança o teu ritmo,
Para me conduzir...



Cecília Meireles
Dispersos (1918-1964)

4 de jan de 2010

Pergunto-te onde se acha a minha vida


('The Countess Brownlow' painting by Frederic Leighton)

Pergunto-te onde se acha a minha vida.
Em que dia fui eu. Que hora existiu formada
de uma verdade minha bem possuída.


Vão-se as minhas perguntas aos depósitos do nada.


E a quem é que pergunto? Em quem penso, iludida
por esperanças hereditárias? E de cada
pergunta minha vai nascendo a sombra imensa
que envolve a posição dos olhos de quem pensa.


Já não sei mais a diferença
de ti, de mim, da coisa perguntada,
do silencio da coisa irrespondida.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

1 de jan de 2010

Supérfluo




A chuva coloca no bico dos pássaros
um guizo d’água.


A tarde levanta da verde folhagem
uma espuma de aroma.


Uma vida, quase a teus pés, dirige-te
um terno pensamento.


Oh, as pequenas coisas supérfluas
extraviadas no mundo.


Quem ouve? quem vê? quem entende?



Cecília Meireles
Dispersos (1918-1964)

28 de dez de 2009

Antieclesiaste



Chuva nas nuvens,
flores nas arvores,
lagrimas em nós.


Estação de chuva,
estação de flores.
O tempo inteiro para as lagrimas.
Por isso estamos tão extenuados:
todos os tempos foram de chorar.

1949



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

20 de dez de 2009

Pensamento



Nestas pedras, caiu, certa noite, uma lagrima.
O vento que a secou deve estar voando noutros paises;
o luar, que a estremeceu, tem olhos brancos de cegueira:
e esteve sobre ela, mas sem ver seu esplendor.

Só na morte do tempo, os pensamentos que a choraram
verão, junto ao universo, como foram infelizes,
que, uma noite, uma lagrima levou a vida verdadeira,
com seu grito de sonho e seu tímido amor.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

Poemas



I



Edifica-te:
Longe,
Silencioso,
Só,
Edifica-te admirável,
Com altitudes imensas,
E, para além da humanidade,
Sê grandioso, excessivamente...

Cresce sempre,
Como uma arvore de eterna vida...

Escapa ao que atinge a todos.
Constrói-te para um tempo sem fim,
Que nunca te termine,
Ainda que morras todos os dias!

Sê o infindável,
Feito de renascenças sem termo...

Para lá das amarguras humanas,
Sê o que ficará para consolo e exemplo dos que vierem,
E cujo nome será,
Na terra triste,
Benção imortal para tudo o que vive!...


II


Quando olho para tudo isto que antes foi terra nua,
E que o vento semeou,
Barbaramente,
E que hoje é mata indômita,
Mar negro e farfalhante,
E cheio de feras sombrias,
Fico pensando em mim...

Eu fui à terra fecunda
Onde tudo que o destino deixou cair
Teve força de vida crescente
E poder criador de se multiplicar...


Eu fui à terra nua de uma idade sem data.
E as minhas arvores têm medidas que não param,
Crescendo sempre pelas raízes e pelas frondes...

Mas dentro da minha sombra nunca deslizaram as ferras...
E as próprias arvores de espinhos
Tiveram sempre
Ou resinas consoladoras
Ou frutos doces...


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
(POESIA COMPLETA, organização Antonio Carlos Secchin (2 volumes) Editora Nova Fronteira 2001.)

17 de dez de 2009

Sombra



Os homens passam pelas ruas misteriosas...

Ouvi ecoarem na noite
A sua loucura e o seu pavor...

Os homens olharam para dentro
E viram mistérios...
Os homens olharam para fora
E viram mistérios...

E foram pelas ruas misteriosas
Debatendo-se como pensamentos
Presos em círculos negros...

Agosto, 1927



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

19 de out de 2009

Lei



O que é preciso é entender a solidão!
O que é preciso é aceitar, mesmo, a onda amarga
que leva os mortos.

O que é preciso é esperar pela estrela
que ainda não está completa.

O que é preciso é que os olhos sejam cristal sem névoa,
e os lábios de ouro puro.

O que é preciso é que a alma vá e venha;
e ouça a notícia do tempo,
entre os assombros da vida e da morte,
estenda suas diáfanas asas,
isenta por igual.
de desejo e de desespero.


Cecília Meireles,
in Dispersos (1954)

16 de jun de 2009

Rosa



Vim pela escada de espinhos.
(Mais durável esse esforço que o esplendor.)

Depois de ascensão tão longa,
qualquer vento, qualquer chuva
converte-me em queda e pó.

Quando se vê a coroa
que eu trazia, já não sou.

Entre espinhos e derrotas,
qual é meu tempo de flor?


Cecília Meireles
Dispersos -1960-
Seja bem-vindo. Hoje é