Mostrando postagens com marcador Poesia Completa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poesia Completa. Mostrar todas as postagens

14 de dez de 2014

SUPÉRFLUO


A chuva coloca no bico dos pássaros
um guizo d’água.

A tarde levanta da verde folhagem
uma espuma de aroma.

Uma vida, quase a teus pés, dirige-te
um terno pensamento.

Oh, as pequenas coisas supérfluas
extraviadas no mundo.

Quem ouve? quem vê? quem entende?

Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos

29 de set de 2014

Chuva




Sobre as casas fechadas, a chuva.
Sobre o sono dos homens, a chuva.
Sobre os mortos inúmeros, a chuva.

A chuva noturna sobre as arvores.
A chuva noturna sobre os templos
A chuva noturna sobre o mar.

Sobre a solidão deste mundo, a chuva.
A solidão da chuva, na solidão.

Abril, 1954

Cecília Meireles
In: Poesia Completa

12 de jul de 2014

MAPA DE ANATOMIA: O OLHO



" O Olho  é  uma  espécie   de  globo  ,
é  um  pequeno planeta 
 com  pinturas  do  lado  de  fora .
Muitas  pinturas :
azuis , verdes, amarelas .
É  um  globo brilhante  :
parece  de  cristal ,
é  como um aquário com plantas
finamente  desenhadas :  algas , sargaços ,
miniaturas  marinhas , areias , rochas , naufrágios
e peixes  de  ouro .
 
Mas  por  dentro há outras  pinturas ,
que  não se  vêem :
umas  são  imagens  do  mundo  ,
outras  são  inventadas .
 
O  Olho  é  um  teatro  por dentro .
 
E  às  vezes , sejam  atores , sejam cenas ,
e  às  vezes  sejam   imagens , sejam  ausências
formam ,   no  Olho ,  lágrimas ."
 

Cecília  Meireles ,
in  " Poesia  Completa "
 

17 de jun de 2014

A moça pecadora apareceu-me de branco




A moça pecadora apareceu-me de branco
Toda de cetim branco bordado de vidro e prata.
A cintilante moça pecadora tinha um rosto
de quinze anos.

(Oh, como era belo teu rosto de quinze anos:
belos teus louros cílios,
teus olhos de água-marinha com raios dourados...

Tuas mãos de quinze anos, longas, límpidas, claras,
de unhas cor de perola, 
tuas mãos inocentes!)

E a moça ria-se entre arvores ondulantes,
e era uma ondina saída de algum rio,
e seu vestido era de luz e de água.

Quero encontrar essa moça, quero encontrá-la:
quero ver se ficou sobre ela um pouco desse brilho,
dessa alvura, dessa juventude, dessa castidade
com que me apareceu no sonho deslumbrante,
tênue como o luar:

1959


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

14 de abr de 2014

Sombra



Os homens passam pelas ruas misteriosas...

Ouvi ecoarem na noite
A sua loucura e o seu pavor...

Os homens olharam para dentro
E viram mistérios...
Os homens olharam para fora
E viram mistérios...

E foram pelas ruas misteriosas
Debatendo-se como pensamentos
Presos em círculos negros...

Agosto, 1927 



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

5 de abr de 2014

Panorama


Em cima, é a lua,
no meio, é a nuvem,
embaixo, é o mar.
Sem asa nenhuma,
sem veda vela nenhuma,
para me salvar.


Ao longe, são noites,
de perto, são noites,
quem se há de chamar?
Já dormiram todos,
não acordam outros...
Água. Vento. Luar.


O trilho da terra
para onde é que leva,
luz do meu olhar?
Que abismos aéreos
de reinos aéreos
para visitar!


Na beira do mundo,
do sono do mundo
me quero livrar.
E em cima – é a lua,
no meio – é a nuvem,
e embaixo – é o mar! 



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Vaga Música (1942)



18 de fev de 2014

Da solidão




Estarei só. Não por separada, não por evadida.
Pela natureza de ser só.


No entanto, a multidão tem sua musica,
seu ritmo, seu calor,
e deve ser uma felicidade, às vezes,
ser na multidão o que o peixe é no oceano.
Ah! mas quem sabe das solidões que haverá nessas águas enormes!


Estarei só. Recordarei essas cidades, esses tempos.
Recordarei esses rostos. Pode ser que recorde
alguma palavra.
Nada perturbou o meu estar só. Por vezes, com o rosto nas mãos,
pode ser que sentisse como os desertos amontoavam suas areias
entre meu pensamento e o horizonte.
Mas o deserto tem sua musica,
seu ritmo, seu calor.


Era uma solidão que outrora se levava nos dedos,
como a chave do silencio. Uma solidão de infância
sobre a qual se podia brincar,
como sobre um tapete.
Uma solidão que se podia ouvir, como quem olha para as arvores,
onde há vento.
Uma solidão que se podia ver, provar, sentir,
pensar, sofrer, amar,
uma solidão como um corpo, fechado sobre a noção que temos de nós:
como a noção que temos de nós.


E andava, e sorria, cumprimentava e fazia discursos,
dava autógrafos, abria a janela, conhecia gavetas,
chaves, endereços, comprava, lia,
recordava, sonhava,
às vezes pensava – Solidão – e logo seguia,
tinha até dinheiro comigo, tinha palavras, também,
que escolhia, dava, usava, recusava...


Solidão – dizia: fechava a tarde de mil portas,
andava por essas fortalezas da noite,
essas escadas, essas plataformas, essas pedras...
e deitava-me sobre o mar, sobre as florestas,
deitava-me assim – aldeias? cidades?
O sono é um límpido deserto – deitava-me nos ares,
onde quer que estivesse deitada.


Deitava-me nessas asas. Ia para outras solidões.


Se me chamares, responderei, mas serei solidão.
Serei solidão, se me esqueceres ou lembrares.
Qualquer coisa que sintas por mim, eu te retribuirei:
como o eco.
Mas és tu que vens e voltas:
a tua solidão e a minha solidão.

1958


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)


7 de nov de 2013

Uma flor voava



Uma flor voava.
Por mais que pareça impossível,
uma flor voava.
Uma flor amarela ia voando,
e levava ao lado o seu botão fechado.
Parecia uma jovem graciosa
com sua bolsinha no braço.
Voava a flor amarela,
no ar indefinido.

E nuns troncos imensos,
muito grossos, muito altos,
uns troncos cheios de crepúsculo,
como colunas do céu,
sentinelas da vida,
nuns troncos muito escuros
iam pousando enormes borboletas flácidas,
amarelas e pretas,
que decerto pousavam para sempre,
sem rumo nem poder,
amarelas e pretas, muito sinistras,
muito flácidas, muito grandes.

E a pequena flor amarela voava,
solta, levíssima,
por um rumo secreto,
de alma evadida.


Cecília Meireles
In: Poesia Completa























4 de nov de 2013

Esta que em silencio


  
Esta que em silêncio
abaixa a cabeça
e escreve uma carta
anda tão cansada
de entregar ao mundo
mensagens de amor
que até as tulipas
perto do seu rosto
lágrimas escorrem
e de pesarosas
têm corações negros.

Que até uma brisa
que vinha passando
parou nos seus lábios,
não se moveu mais.
Manso beijo aéreo
de um céu compassivo.

Que até as palavras 
que vai escrevendo 
vão tomando formas
de nuvens errantes,
de ondas pressurosas
para a espuma e areia,
de passos humanos
em longos desertos
onde é sempre novo
o horizonte, e o mesmo...

Ah! terrena vida,
estranha aventura,
rumo involuntário,
perspectiva surda. 
 

Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

3 de nov de 2013

Meus amigos de vento e nuvem



Meus amigos de vento e nuvem,
meus amigos sem rosto algum,
abrem caminhos, mudam casas,
estendem paredes sem fim.


Meus fluidos amigos, num mundo
que existe apenas para mim.


Que longas escadas tão belas,
que luzes sem chama, que amável
cena para uma vida eterna
em cor de amizade e jardim.


Meus amigos estão construindo
um mundo aéreo para mim.


Mãos tão frágeis levantam muros,
corpos voantes transportam ruas,
todos num silencio conjunto
e gestos de anjo e volantim.


Ah, meus invisíveis amigos
que entre os céus trabalhais por mim!



Cecília Meireles
In: Poesia Completa

20 de out de 2013

NÃO: JÁ NÃO FALO DE TI,JÁ NÃO SEI DE SAUDADES



Não: já não falo de ti, já não sei de saudades.
Feche-se o coração como um livro, cheio de imagens,
de palavras adormecidas, em altas prateleiras,
até que o pó desfaça o pobre desespero sem força,
que um dia, pode ser, pareceu tão terrível.

A aranha dorme em sua teia, lá fora, entre a roseira e o muro.
Resplandecem os azulejos – é tudo quanto posso ver.
O resto é imaginado, e não coincide, e é temerário
cismar. Talvez se as pálpebras pudessem
inventar outros sonhos, não de vida...

Ah! rompem-se na noite ardentes violas,
pelo ar e pelo frio subitamente roçadas.
Por onde pascerão, nestes céus invioláveis,
nossas perguntas com suas crinas de séculos arrastando-se...
Não só de amor a noite transborda mas de terríveis 
crueldades, loucuras, de homicídios mais verdadeiros.

Os homens de sangue estão nas esquinas resfolegando,
e os homens da lei sonolentos movem letras 
sobre imensos papeis que eles mesmos não entendem...
Ah! que rosto amaríamos ver inclinar-se da aérea varanda?
Nem os santos podem mais nada. Talvez os anjos abstratos
da álgebra e da geometria. 


Cecília Meireles
In: Poesia Completa





16 de out de 2013

APONTAMENTO


 
Ó noite, ó noite, ó noite!
Luar e primavera
e os telhados cobrindo
sonhos que a vida gera!
 
 
Subo por essas horas
solitária e sincera, 
e encontro, exausta e pura, 
minha alma que me espera. 
 
 
Cecília Meireles
In: Poesia Completa

17 de set de 2013

OS HOMENS RÚSTICOS REZAVAM


 
Os homens rústicos rezavam:
em seus lábios quase de pedra
passavam palavras aladas
como delicadas libélulas.
 
 
E por delicadas libélulas
seus olhos eram poços de alma
que uma água ia enchendo, secreta,
profunda, de infindáveis lagrimas.
 
 
Setembro, 1962
 
 
Cecília Meireles
In: Poesia Completa

16 de set de 2013

ANTIECLESIASTE



Chuva nas nuvens,
flores nas arvores,
lagrimas em nós.


Estação de chuva,
estação de flores.
O tempo inteiro para as lagrimas.
Por isso estamos tão extenuados:
todos os tempos foram de chorar.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa

3 de set de 2013

FESTA




Jardins de raciocínio:
teoremas de flor em flor.
Assim as pedras e a areia.

Agora, os cultivadores contentes meditam.
E as tulipas de todas as cores
tecem longos tapetes sossegados.

Carrilhões d’água, repuxos de musica,
e um raio de sol desenhando hipotenusas
de canteiro em canteiro.

E pessoas de todas as idades
enternecendo-se entre as flores:
- Gente da Rainha Juliana, da Rainha Guilhermina,
do Príncipe Mauricio de Nassau.

Em que malas portentosas se guardam secularmente
chapéus de plumas e altas golas de lã?


E pessoas de todas as idades vêm de suas cidades,
de seus campos, de canais e moinhos
para sorrirem sobre as flores.
Extasiadas respiram o mês de maio.
Explicam todos os matizes,
pregas de pétalas, peso do pólen,
com sua experiência de artesanato subterrâneo.

Jardins de raciocínio:
- axiomas de raiz em raiz.

Tão simples, tão cordial, a festa no jardim:
Sapatos como pedras passam como borboletas.
Os cultivadores sorriem.

O ano inteiro se trabalhou por esse sorriso.
Por esse tapete de flores.


E o raio de sol re colhe o seus desenhos,
sobe para o céu, perde-se na bruma
como frágil escada de ouro.

E os anjos da alegria, de asas abertas,
acompanham Descartes. 

1953


Cecília Meireles
In: Poesia Completa

18 de jan de 2013

''Retrato de Mulher Triste''



Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.

Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.

Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.

Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.


Cecília Meireles
de 'Poesias Completas'

(Painting by Conrad Kiesel)

28 de jun de 2012

''Pela flor amarela viajaremos''


Pela flor amarela viajaremos:
afastaremos as nuvens espessas
e as florestas de espinhos.


Pela flor amarela, vamos e voltamos,
por escadas escuras, corredores estreitos,
falando a desconhecidos.


Onde está, dizei-nos, a flor amarela?
Era minha? era vossa? era do seu próprio instante,
era sua, cativa por algum caçador floral?


Pela flor amarela atravessaremos a pedra,
o vidro, o metal, as palavras.
Atravessaremos o coração, como quem se mata.


Atravessaremos um novo mar desconhecido,
correremos Áfricas e Ásias, pólo e tropico,
e jogaremos nossa vida entre as estrelas.


A flor amarela está guardada em si mesma,
seu perfume, sob mil pétalas tranqüilas,
seu pólen resguardado contra o vão descobrimento.


1962



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

16 de jan de 2012

Meus amigos de vento e nuvem


Meus amigos de vento e nuvem,
meus amigos sem rosto algum,
abrem caminhos, mudam casas,
estendem paredes sem fim.


Meus fluidos amigos, num mundo
que existe apenas para mim.


Que longas escadas tão belas,
que luzes sem chama, que amável
cena para uma vida eterna
em cor de amizade e jardim.


Meus amigos estão construindo
um mundo aéreo para mim.


Mãos tão frágeis levantam muros,
corpos voantes transportam ruas,
todos num silencio conjunto
e gestos de anjo e volantim.


Ah, meus invisíveis amigos
que entre os céus trabalhais por mim!


Fevereiro, 1961



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

Trinta anos no vale de exílios da sombra

Trinta anos no vale de exílios da sombra,
tua voz se eleva cintilante, responde-me
com seus cristais clarificados, - e sem nenhum rumor.


Fica repleta a noite e meus ouvidos te reconhecem:
os ouvidos que nem estão no meu corpo
nem na memória, mas só no ausente universo do sono.


Eu te digo: “Espera-me! Desculpa-me!
Vou chegar muito tarde!” E não sei se falo
com palavras ou símbolos, nas dimensões submersas do horizonte.


E eu te digo: “Atira-me a chave!” E deploro-me –
e de muito longe vejo a chave que me atiras,
e que receberei como álibi do sobrenatural.


Assim, eu sou agora, ainda que a mesma, também outra,
em mundo paralelo, com a chave da porta invisível,
e o som da tua voz é uma arvore clara que não se ouve,
numa atmosfera absurda –
como se nos fossemos encontrar, um dia, e continuássemos.


Abril, 4, 1963



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

8 de nov de 2011

PAPÉIS – V –


Mas por que sempre lembrar essas coisas longínquas?
A verdade, porém é que há uns dias inesquecíveis,
uns fatos inesquecíveis, dentro de nós.
Tudo o mais, que vivemos, gira em redor deles.
Toda uma vida se reduz, afinal, a umas poucas emoções,
por muitos anos que vivamos,
apesar de viagens, experiências, realizações, sonhos, saber...
Vivemos tudo – o humano e o universal –
nuns pequenos instantes, obscuros e essenciais.

Todos os dias assim, de chuvinha fina,
penso em velhas cenas de infância:
a tarde em que comia um pedaço de maçã
e conheci o arco íris;
o livro em que estudava francês,
com uma gravura de crianças felizes, que riam para o ar:
La pluie;
a minha solidão com tesouras, cola e cartolina:
“Brinquedos para os dias de chuva...”

Tudo isso vem `a minha memória, como visitantes inesperados.
Interrompo o que estou fazendo, tenho um pena imensa de mim.
Depois, penso em velhos poemas chineses, curtos e leves.

Sou como quem mira uma antiga coleção de cartões-postais.



Setembro, 1955


Cecília Meireles.
Antologia Poética . p. 168/9
Seja bem-vindo. Hoje é