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14 de dez de 2014

DESENHO


Árvore da noite
Com ramos azuis
Até o horizonte.

Estendi meus braços,
E apenas achei
Nevoeiros esparsos.

O resto era sonhos
No profundo fim
Da vida e da noite.

A memória em pranto
Os ramos azuis
Fica procurando

E de olhos fechados
Vejo longe, sós,
Meus alados braços.

Ó noite, azul, árvore ...
Suspiro a subir
Muro de saudade!

Cecília Meireles
In Retrato Natural

25 de set de 2014

O tempo seca o amor




O tempo seca a beleza,
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.

Cecília Meireles, 
in "Retrato Natural", 1949.

24 de out de 2013

''CANÇÃO NO MEIO DO CAMPO''


Lá vai, sem qualquer palavra
Seguindo o pranto,
Pequeno arado que lavra
Tão grande campo.

Torvos pássaros dos ares
Gritam sombra
Aos caminhos singulares
Que o sonho apronta.

Ó terra tão delicada
Que estás sofrendo,
Não é nada, não é nada:
Setas de vento.

No dia da primavera,
Longe anda o corvo.
E a flor mostrará como era
Seu grito morto.

Cecília Meireles
In Retrato Natural

''CANÇÃO''

A palavra que te disse,
Talvez por ser tão pequena,
Em tais desprezos perdeu-se
Que não deixou pena.

Murmurei-a a uma cisterna
De turvas águas antigas
E foi-se de cova em cova
Em múltiplas cantigas.

Amadores deste mundo,
Nas águas vosso amor ponde;
Que elas vos darão resposta,
Quando ninguém responde.

Cecília Meireles
In Retrato Natural

[Tela de Nita Engle]

''IMPROVISO''


Eu mesma sou a culpada
Dos malefícios alheios.
A quem não podia nada,
Eu é que fui dar os meios
Para me ver maltratada.

Vai correndo, fonte pura,
Não mires quem te bebeu.
Não queiras ver a criatura
Que se nutriu do que é teu.
Salva-te da desventura!

Cecília Meireles
In Retrato Natural

[Tela de Nita Engle]

''CANÇÃO DO AMOR-PERFEITO''


Eu vi o raio de sol
Beijar o outono.
Eu vi na mão dos adeuses
O anel de ouro.
Não quero dizer o dia.
Não posso dizer o dono.

Eu vi bandeiras abertas
Sobre o mar largo
E ouvi cantar as sereias.
Longe, num    barco,
Deixei meus olhos alegres,
Trouxe meu sorriso amargo.

Bem no regaço da lua,
Já não padeço.
Ai, seja como quiseres,
Amor-Perfeito,
Gostaria que ficasses,
Mas, se fores, não te esqueço.

Cecília Meireles
In Retrato Natural

''CANÇÃO''


Eras um rosto
Na noite larga
De altas insônias
Iluminada.

Serás um dia
Vago retrato
De quem se diga:
“o antepassado”.

Eras um poema
Cujas palavras
Cresciam dentre
Mistério e lágrimas.

Serás silêncio,
Tempo sem rastro,
De esquecimentos
Atravessados.

Disso é que sofre
A amargurada
Flor da memória
Que ao vento fala

Cecília Meireles
In Retrato Natural

22 de out de 2013

''PÁSSARO''

Aquilo que ontem cantava
Já não canta.
Morreu de uma flor na boca:
Não do espinho na garganta.

Ele amava a água sem sede,
E, em verdade,
Tendo asas, fitava o tempo,
Livre de necessidade.

Não foi desejo ou imprudência:
Não foi nada.
E o dia toca em silêncio
A desventura causada.

Se acaso isso é desventura:
Ir-se a vida
Sobre uma rosa tão bela,
Por uma tênue ferida.

Cecília Meireles
In Retrato Natural

''SERENATA''

Dize-me Tu, montanha dura,
Onde nenhum rebanho pasce,
De que lado na terra escura
Brilha o nácar de sua face.

Dize-me tu, palmeira fina,
Onde nenhum pássaro canta,
Em que caverna submarina
Seu silêncio em corais descansa.

Dize-me tu, ó céu deserto,
Dize-me tu se é muito tarde,
Se a vida é longe e a dor é perto
E tudo é feito de acabar-se!

Cecília Meireles
In Retrato Natural

21 de out de 2013

''CANTATA VESPERAL''


CERRAI-VOS, OLHOS, que é tarde, e longe,
E acabou-se a festa a festa do mundo:
Começam as saudades hoje.

Longos adeuses pelas varandas
Perdem-se; e vão fugindo em mármore
Cascatas céleres de escadas.

Pelos portões não passam mais sombras,
Nem há mais vozes que se entendam
Nas distâncias que o céu desdobra.

As ruas levam a mares densos.
E pelos mares fogem barcas
Sem esperanças de endereços.

Cecília Meireles
In Retrato Natural

18 de out de 2013

''PEQUENA MEDITAÇÃO''

Chorai, negras águas,
À sombra das pontes,
Na raiz das árvores.

Tempo melancólico
Amarrando os braços
Dos altos relógios.

Cresceriam lágrimas,
Se não se abolissem
As lembranças cálidas.

Noites antiqüíssimas
Até nos esperam
Nomes de carícia.

Seremos idênticos
Ao passado enorme,
De amor e silêncio,

Ao jamais recíproco
Sonho que resvala
Para precipícios.

Só triste matéria
Lembrará mais tarde
Nossa descendência.

Em ruas contrárias,
Vereis negros tetos,
Como velhas máscaras.

Mas não esta fluida
Verdade da vida.
As mãos – sem a música.

Chorai, negras águas,
A dor, vagarosa,
E a memória, rápida.

Cecília Meireles
In Retrato Natural


16 de out de 2013

''PALAVRAS''

ESPADA entre flores,
Rochedo nas águas,
Assim firmes, duras,
Entre as coisas fluídas,
Fiquem as palavras,
As vossas palavras.

Pois se por acaso
Dentro dos sepulcros
Acordassem as almas
E em sonhos confusos
Suspirassem rumos
De história passadas
E houvesse um tumulto
De ânsias e de lágrimas,

- lembrassem as lágrimas
caídas no mundo
nas noites amargas
cercadas dos muros
das vossas palavras.
Todas as palavras

Nos espelhos puros
Que a memória guarda,
Fique o rosto surdo,
A música brava
Do humano discurso.
De qualquer discurso.

Só de morte exata
Sonharão os justos,
Saudosos de nada,
Isentos de tudo,
Pascendo auras claras,
Livres e absolutos,
Nos campos de prata
Dos túmulos fundos.

No meio das águas,
Das pedras, das nuvens,
Verão as palavras:
Estrelas de chumbo,
Rochedos de chumbo.
A cegueira da alma.
O peso do mundo.

Adeus, velhas falas
E antigos assuntos!

Cecília Meireles
In Retrato Natural

[Arte de Catrin Welz-Stein]

CANÇÃO QUASE TRISTE




 Brilhou a rosa
No espinhoso galho.
Quem viu? Ninguém.

Nuvens muito altas
Lágrimas de orvalho
Deram-lhe: - de além.

Seca os teus olhos,
No amargo trabalho,
Que a noite já vem.

Vê-te a ti mesmo,
Sê teu agasalho,
Pobre Pero Sem.

Cecília Meireles
In Retrato Natural

12 de out de 2013

''APELO''

Abri na noite as grandes águas
Criadas no tempo de chorar.
Levantei os mortos do sonho
Que trouxestes para viajar.
Fechai os olhos, despedi-vos,
Atirai os mortos ao mar!

Por amor às vossas estrelas,
Chamai ventos de solidão.
Em voz alta, dizei responsos,
Descarregai o coração!
Aos mortos que descem nas águas,
Mandai amor, pedi perdão!

Fazei-vos marinheiros límpidos,
Isentos do bem e do mal.
Dizei que, à procura dos deuses,
Com um rumo sobrenatural,
Necessitais da despedida
De toda lembrança mortal.

Ide, com o esbelto movimento,
A graça da libertação,
À proa das naves solenes
Que os deuses vos transportarão.

Mas não fiteis a densa vaga
Que se arquear em redor de vós!
- O rosto dos mortos flutua
para sempre. E é um longo cometa
a aérea franja da sua voz.

Cecília Meireles
In Retrato Natural

11 de out de 2013

''CANÇÃO NO MEIO DO CAMPO''

 
Lá vai, sem qualquer palavra
Seguindo o pranto,
Pequeno arado que lavra
Tão grande campo.

Torvos pássaros dos ares
Gritam sombra
Aos caminhos singulares
Que o sonho apronta.

Ó terra tão delicada
Que estás sofrendo,
Não é nada, não é nada:
Setas de vento.

No dia da primavera,
Longe anda o corvo.
E a flor mostrará como era
Seu grito morto.

Cecília Meireles
In Retrato Natural

[Tela by  Juan Carlos Boveri]

21 de set de 2013

''COMENTÁRIO DO ESTUDANTE DE DESENHO''


ENTRE O EIXO e as pontas do compasso,
Meu Deus, que distância penosa,
Que giro difícil,
Que pesado manejo!

É certo que a circunferência está pronta,
Por toda a eternidade
Aqui no imóvel parafuso do alto,
Sonhada, prevista na perfeição total da auréola?

Meu Deus, meu Deus, é certo que só no caminho do traço
É que se vai assim de ponto em ponto,
De dor em dor,
Com medos de começo e fim,
Rodando cautelosamente?

Cecília Meireles
In Retrato Natural

''PRANTO NO MAR''


EU SEMPRE TE DISSE  que era grande o oceano
Para a nossa pequena barca.
Cantavas, quando eu te dava o desengano
De partir por água tão larga.

Não, tu não devias ter ido.
Mas foi tempo perdido.

Eu sempre te disse que os olhos de um morto
Ficavam nas águas suspensos,
Procurando os vivos, os mastros, o porto,
Na oscilação de águas e ventos.

Não, tu não devias ter ido.
Mas era amor perdido.

Teço velas negras para abarca nova,
Redes de prata para as ondas.
Ensinai-me, peixes, sua funda cova
Nestas escuridões tão longas!

Não, tu não devias ter ido.
E isto é pranto perdido.

Cecília Meireles
In Retrato Natural

19 de fev de 2013

''PALAVRAS''



 
ESPADA entre flores,
Rochedo nas águas,
Assim firmes, duras,
Entre as coisas fluídas,
Fiquem as palavras,
As vossas palavras.

Pois se por acaso
Dentro dos sepulcros
Acordassem as almas
E em sonhos confusos
Suspirassem rumos
De história passadas
E houvesse um tumulto
De ânsias e de lágrimas,

- lembrassem as lágrimas
caídas no mundo
nas noites amargas
cercadas dos muros
das vossas palavras.
Todas as palavras

Nos espelhos puros
Que a memória guarda,
Fique o rosto surdo,
A música brava
Do humano discurso.
De qualquer discurso.

Só de morte exata
Sonharão os justos,
Saudosos de nada,
Isentos de tudo,
Pascendo auras claras,
Livres e absolutos,
Nos campos de prata
Dos túmulos fundos.

No meio das águas,
Das pedras, das nuvens,
Verão as palavras:
Estrelas de chumbo,
Rochedos de chumbo.
A cegueira da alma.
O peso do mundo.

Adeus, velhas falas
E antigos assuntos!

Cecília Meireles
In Retrato Natural

''APRESENTAÇÃO''

 
AQUI ESTÁ MINHA VIDA – esta areia tão clara
Com desenhos de andar dedicados ao vento.

Aqui está minha voz – esta concha vazia,
Sombra de som curtindo o seu próprio lamento.

Aqui está minha dor – este coral quebrado,
Sobrevivendo ao seu patético momento.

Aqui está minha herança – este mar solitário,
Que de um lado era amor e, de outro, esquecimento.

Cecília Meireles
In Retrato Natural

''DESENHO''



 
Árvore da noite
Com ramos azuis
Até o horizonte.

Estendi meus braços,
E apenas achei
Nevoeiros esparsos.

O resto era sonhos
No profundo fim
Da vida e da noite.

A memória em pranto
Os ramos azuis
Fica procurando

E de olhos fechados
Vejo longe, sós,
Meus alados braços.

Ó noite, azul, árvore ...
Suspiro a subir
Muro de saudade!

Cecília Meireles
In Retrato Natural

Seja bem-vindo. Hoje é