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6 de nov de 2009

CANTATA VESPERAL



CERRAI-VOS, OLHOS, que é tarde, e longe,
E acabou-se a festa a festa do mundo:
Começam as saudades hoje.

Longos adeuses pelas varandas
Perdem-se; e vão fugindo em mármore
Cascatas céleres de escadas.

Pelos portões não passam mais sombras,
Nem há mais vozes que se entendam
Nas distâncias que o céu desdobra.

As ruas levam a mares densos.
E pelos mares fogem barcas
Sem esperanças de endereços.


Cecília Meireles
In Retrato Natural

28 de ago de 2009

INFÂNCIA



Levaram as grades da varanda
Por onde a casa se avistava.
As grades de prata.

Levaram a sombra dos limoeiros
Por onde rodavam arcos de música
E formigas ruivas.

Levaram a casa de telhado verde
Com suas grutas de conchas
E vidraças de flores foscas.

Levaram a dama e o seu velho piano
Que tocava, tocava, tocava
A pálida sonata.

Levaram as pálpebras dos antigos sonhos,
Deixaram somente a memória
E as lágrimas de agora.


Cecília Meireles
In Retrato Natural

INCLINA O PERFIL



Inclina o perfil amado
Nos veludos do silêncio
E apaga sobre esse quadro
As velas do pensamento.

E fecha a porta da sala
E desce a escada profunda
E sai pela rua clara
Onde não façam perguntas.

E vai por praias desertas
Desmanchando os teus caminhos,
Cortando o fio às conversas
Dos teus próprios labirintos.

E ao chão dize: Sou de areia.
E às ondas dize: Sou de água.
E em valas de ausência deita
A alma de outrora magoada.

Sem propósito de sonho
Nem de alvoradas seguintes,
Esquece teus olhos tontos
E teu coração tão triste.

Talvez nem a sobre humana
Mão que tece o ar e a floresta
Perturbe alguém que descansa
De tão duras controvérsias.

Talvez fiques tão tranqüila,
Ó vida, entre o mar e o vento,
Como o que ninguém divisa
De uma lágrima num lenço.


Cecília Meireles
In Retrato Natural

CANÇÃO



Há uma canção que já não fala,
Que se recolhe dolorida.
Onde, o lábio para cantá-la?
Onde, o tempo de ser ouvida?

Quando alguém passa e ainda murmura,
Abro os olhos, quase assustada.
A voz humana é absurda, obscura,
Sem força para dizer nada.

Qual será sobre a nossa poeira,
O lugar dessa flor secreta,
- da frágil canção derradeira
murcha no silêncio do poeta?

Que abstrata mão clarividente
Levantará do chão mortuário
Esse arabesco altivo e ardente
Morto num sonho solitário?

Cecília Meireles
In Retrato Natural

CANÇÃO



A palavra que te disse,
Talvez por ser tão pequena,
Em tais desprezos perdeu-se
Que não deixou pena.

Murmurei-a a uma cisterna
De turvas águas antigas
E foi-se de cova em cova
Em múltiplas cantigas.

Amadores deste mundo,
Nas águas vosso amor ponde;
Que elas vos darão resposta,
Quando ninguém responde.


Cecília Meireles
In Retrato Natural

CANÇÃO



Eras um rosto
Na noite larga
De altas insônias
Iluminada.

Serás um dia
Vago retrato
De quem se diga:
“o antepassado”.

Eras um poema
Cujas palavras
Cresciam dentre
Mistério e lágrimas.

Serás silêncio,
Tempo sem rastro,
De esquecimentos
Atravessados.

Disso é que sofre
A amargurada
Flor da memória
Que ao vento fala


Cecília Meireles
In Retrato Natural

19 de ago de 2009

CANÇÃO DO AMOR-PERFEITO



Eu vi o raio de sol
Beijar o outono.
Eu vi na mão dos adeuses
O anel de ouro.
Não quero dizer o dia.
Não posso dizer o dono.

Eu vi bandeiras abertas
Sobre o mar largo
E ouvi cantar as sereias.
Longe, num barco,
Deixei meus olhos alegres,
Trouxe meu sorriso amargo.

Bem no regaço da lua,
Já não padeço.
Ai, seja como quiseres,
Amor-Perfeito,
Gostaria que ficasses,
Mas, se fores, não te esqueço.


Cecília Meireles
In Retrato Natural-1949-

COMENTÁRIO DO ESTUDANTE DE DESENHO



ENTRE O EIXO e as pontas do compasso,
Meu Deus, que distância penosa,
Que giro difícil,
Que pesado manejo!

É certo que a circunferência está pronta,
Por toda a eternidade
Aqui no imóvel parafuso do alto,
Sonhada, prevista na perfeição total da auréola?

Meu Deus, meu Deus, é certo que só no caminho do traço
É que se vai assim de ponto em ponto,
De dor em dor,
Com medos de começo e fim,
Rodando cautelosamente?


Cecília Meireles
In Retrato Natural

TEMPO VIAJADO




DOS MEUS RETRATOS rasgados
Me recomponho,
Com minhas espumas de acaso,
Meus solos vivos de fogo.

Muito se sofre.
As doces uvas sabem a enxofre.

Vulcões mordem as raízes
Das minhas plantas.
Em barcos postos a pique,
Naufragaram minhas lembranças.

Dizei-me por que lugares
Que pastores pastoreiam
Até sempre estas saudades
A mim mesmo tão alheias.

Muito se pena.
E vimos na areia morrer a sirena.

Procuro pelo meu rosto
O tempo que se desprende.
Que agulhas de desencontro
Separaram minha gente?

Dos meus retratos rasgados
Me levanto.
E acho-me toda em pedaços,
E assim mesmo vou cantando.

Muito se perde:
Pela terra negra ou pela água verde.

(Se Deus agora me visse,
abaixaria seus olhos
e ficaria mais triste.)


Cecília Meireles
In Retrato Natural

CANTATA VESPERAL



CERRAI-VOS, OLHOS, que é tarde, e longe,
E acabou-se a festa a festa do mundo:
Começam as saudades hoje.

Longos adeuses pelas varandas
Perdem-se; e vão fugindo em mármore
Cascatas céleres de escadas.

Pelos portões não passam mais sombras,
Nem há mais vozes que se entendam
Nas distâncias que o céu desdobra.

As ruas levam a mares densos.
E pelos mares fogem barcas
Sem esperanças de endereços.


Cecília Meireles
In Retrato Natural

PEQUENA MEDITAÇÃO



Chorai, negras águas,
À sombra das pontes,
Na raiz das árvores.

Tempo melancólico
Amarrando os braços
Dos altos relógios.

Cresceriam lágrimas,
Se não se abolissem
As lembranças cálidas.

Noites antiqüíssimas
Até nos esperam
Nomes de carícia.

Seremos idênticos
Ao passado enorme,
De amor e silêncio,

Ao jamais recíproco
Sonho que resvala
Para precipícios.

Só triste matéria
Lembrará mais tarde
Nossa descendência.

Em ruas contrárias,
Vereis negros tetos,
Como velhas máscaras.

Mas não esta fluida
Verdade da vida.
As mãos – sem a música.

Chorai, negras águas,
A dor, vagarosa,
E a memória, rápida.


Cecília Meireles
In Retrato Natural

PALAVRAS



ESPADA entre flores,
Rochedo nas águas,
Assim firmes, duras,
Entre as coisas fluídas,
Fiquem as palavras,
As vossas palavras.

Pois se por acaso
Dentro dos sepulcros
Acordassem as almas
E em sonhos confusos
Suspirassem rumos
De história passadas
E houvesse um tumulto
De ânsias e de lágrimas,

- lembrassem as lágrimas
caídas no mundo
nas noites amargas
cercadas dos muros
das vossas palavras.
Todas as palavras

Nos espelhos puros
Que a memória guarda,
Fique o rosto surdo,
A música brava
Do humano discurso.
De qualquer discurso.

Só de morte exata
Sonharão os justos,
Saudosos de nada,
Isentos de tudo,
Pascendo auras claras,
Livres e absolutos,
Nos campos de prata
Dos túmulos fundos.

No meio das águas,
Das pedras, das nuvens,
Verão as palavras:
Estrelas de chumbo,
Rochedos de chumbo.
A cegueira da alma.
O peso do mundo.

Adeus, velhas falas
E antigos assuntos!

Cecília Meireles
In Retrato Natural

DESENHO


(Ilustração de Graziella Mattar)


Árvore da noite
Com ramos azuis
Até o horizonte.

Estendi meus braços,
E apenas achei
Nevoeiros esparsos.

O resto era sonhos
No profundo fim
Da vida e da noite.

A memória em pranto
Os ramos azuis
Fica procurando

E de olhos fechados
Vejo longe, sós,
Meus alados braços.

Ó noite, azul, árvore ...
Suspiro a subir
Muro de saudade!


Cecília Meireles
In Retrato Natural-1949-

28 de jul de 2009

Canção do amor-perfeito



O tempo seca a beleza.
Seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
Desunido para sempre
Como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade,
Seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
Vagando seco e vazio
Como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo
E suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
Vestígio do musgo humano,
Na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo
Com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque,
Não na terra, Amor-Perfeito,
Num tempo depois das almas.


Cecília Meireles
in 'Retrato Natural'

23 de jun de 2009

Serenata



Dize-me tu, montanha dura,
onde nenhum rebanho passe,
de que lado na terra escura
brilha o nácar de sua face.

Dize-me tu, palmeira fina,
onde nenhum pássaro canta,
em que caverna submarina
seu silêncio em corais descansa.

Dize-me tu, ó céu deserto,
dize-me tu se é muito tarde,
se a vida é longe e a dor é perto
e tudo é feito de acabar-se!

Cecília Meireles
in; Retrato Natural

Cantata Vesperal



Cerrai-vos, olhos, que é tarde, e longe,
e acabou-se a festa do mundo:
começam as saudades hoje.

Longos adeuses pelas varandas
perdem-se; e vão fugindo em mármore
cascatas céleres de escadas.

Pelos portões não passam mais sombras,
nem há mais vozes que se entendam
nas distâncias que o céu desdobra.

As ruas levam a mares densos.
E pelos mares fogem barcas
sem esperanças de endereços.

Cecília Meireles
in; Retrato Natural

20 de jun de 2009

Palavras



Espada entre flores,
rochedo nas águas,
assim firmes, duras,
entre as coisas fluidas,
fiquem as palavras,
as vossas palavras.

Pois se por acaso
dentro dos sepulcros
acordassem as almas
e em sonhos confusos
suspirassem rumos
de histórias passadas
e houvesse um tumulto
de ânsias e de lágrimas,

– lembrassem as lágrimas
caídas no mundo
nas noites amargas
cercadas dos muros
das vossas palavras.
Todas as palavras.

Nos espelhos puros
que a memória guarda,
fique o rosto surdo,
a música brava
do humano discurso.
De qualquer discurso.

Só de morte exata
sonharão os justos,
saudosos de nada,
isentos de tudo,
pascendo auras claras,
livres e absolutos,
nos campos de prata
dos túmulos fundos.

No meio das águas
das pedras, das nuvens,
verão as palavras:
estrelas de chumbo,
rochedos de chumbo.
A cegueira da alma.
O peso do mundo.

Adeus, velhas falas
E antigos assuntos!


Cecília Meirels
in Retrato Natural

19 de jun de 2009

As valsas


(Jack Vettriano)


Como se desfazem as valsas
por longos pianos aéreos
que a noite envolve em suas chuvas!
Que ternura nas nossas pálpebras,
pelo exílio suave dos gestos
e dos perfis de antigas músicas!

Os marfins opacos recordam,
com uma graça desiludida,
a aura da morta formosura.
Gente de sonho, sem memória,
entrelaçada, conduzida
por salões de esperança e dúvida.

E eram tão leves, nessas valsas!
E levavam lágrimas entre
seus colares e suas luvas!
E falavam de suas mágoas,
valsando, e delicadamente,
com a voz presa e as pestanas úmidas!

Ah, tão longe, tão longe, as salas...
Levados os lustres e as vidas,
o amor triste, a humilde loucura...
Ficaram apenas as valsas,
girando cegas e sozinhas,
sem os habitantes da música!


Cecília Meireles
in Retrato Natural

Canção quase triste



Brilhou a rosa
no espinhoso galho.
Quem a viu? Ninguém.

Nuvens muito altas
lágrimas de orvalho
deram-lhe: – de além.

Seca os teus olhos,
no amargo trabalho,
que a noite já vem.

Vê-te a ti mesmo,
sê teu agasalho,
pobre Pero Sem.


Cecília Meireles
in Retrato Natural

Apresentação



Aqui está minha vida – esta areia tão clara
com desenhos de andar dedicados ao vento.

Aqui está minha voz – esta concha vazia,
sombra de som curtindo o seu próprio lamento.

Aqui está minha dor – este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.

Aqui está minha herança – este mar solitário,
que de um lado era amor e, do outro, esquecimento.


Cecília Meireles
In Retrato Natural
Seja bem-vindo. Hoje é