14 de mai de 2009

CAMPOS VERDES


Sobre o campo verde,
ondas de prata.

Andava-se, andava-se. . .
Sobre o verde campo,
sempre outras águas.

Sobre o campo verde,
paciente barco.

Errava-se, errava-se. . .
Sobre o verde campo,
Sempre outro espaço.

Sobre o campo verde,
todas as cartas.

Armava-se, armava-se. . .
Sobre o verde campo,
sempre o ás de espadas.

Sobre o campo verde,
qualquer palavra.

Olhava-se, olhava-se. . .
Ai! sobre o verde campo,
mais nada.


Cecília Meireles
In: Vaga Música

13 de mai de 2009

Baile Vertical


Deslizamos tão fluidos, vagamente,
neste chão vertical!
Nossos braços não lutam na torrente,
porque este é um baile sobrenatural.

Caem todos os nossos dons humanos
-palavras, pensamentos...-Vão,
mais depressa que nós, aos derradeiros planos
onde, afinal, se deixa mesmo o coração.

Mas é tão grande a festa! Há tanta pressa,
tamanha confusão, tal vertigem pelo ar,
que ninguém mais pergunta onde começa,
e parece impossível terminar.


Cecília Meireles
In: Mar Absoluto

Desapego


A vida vai depressa e devagar.
Mas a todo momento
penso que posso acabar.

Porque o bem da vida seria ter
mesmo no sofrimento
gosto de prazer.

Já não tenho vontade de falar
senão com árvores, vento,
estrelas, e águas do mar.

E isso pela certeza de saber
que nem ouvem meu lamento
nem me podem responder.


Cecília Meireles
in Mar Absoluto

Realização da Vida


Não me peças que cante,
pois ando longe,
pois ando agora
muito esquecida.

Vou mirando no bosque
o arroio claro
e a provisória
flor escondida.

E procuro minha alma
e o corpo, mesmo,
e a voz outrora
em mim sentida.

E me vejo somente
pequena sombra
sem tempo e nome,
nisto perdida

- nisto que se buscara
pelas estrelas,
com febre e lágrimas,
e que era a vida.


Cecília Meireles
in: Mar Absoluto

12 de mai de 2009

Doce Cantar


Tão liso está meu coração,
tão lisos, meus pensamentos,
que as lágrimas rolarão,
e os contentamentos.

Folhas verdes e encarnadas
tão lisas nunca serão
nem orvalhadas.

Nunca serão as espadas
lisas como meu coração,
mas grossas e enferrujadas.

E os meus pensamentos
nunca se compararão
nem luzes nem ventos.
Que as imagens e os momentos
rugas sempre são.

Cecília Meireles
In Mar Absoluto

Xadrez


Leva-me o tempo para frente
Certo de sua direção
Pausado o passo indiferente
(Peão.)

Que ímpeto me vem de repente
E se esforça para contrariá-lo?
Ó nervosa crina, asa ardente?
(Cavalo.)

Talvez meu poder aumente,
E o tempo invicto alcance e toque...
Como, porém, mudar-lhe a ação?
(Roque)

Leva-me o tempo para frente,
Dizendo passo a passo: “És minha!”
E acrescentando, por piedade:
“Rainha!”

E apenas digo debilmente
Como quem sonha e se persuade:
“Tua, apenas tua, serei...
Rei!”


Cecília Meireles
In: Mar Absoluto

EVELYN


Não te acabarás Evelyn

As rochas que te viram são negras, entre espumas finas
Sobre elas giram lisas gaivotas delicadas,
E ao longe as águas verdes revolvem seus jardins de vidro

Não te acabarás Evelyn

Guardei o vento que tocava
A harpa dos teus cabelos verticais,
E teus olhos estão aqui e são conchas brancas,
Docemente fechados, como se vê nas estátuas

Guardei teu lábio de coral róseo
E teus dedos de coral branco
E estás para sempre, como naquele dia
Comendo, vagarosa, fibras elásticas de crustáceos
Mirando a tarde e o silêncio
E a espuma que te orvalhava os pés

Não te acabarás Evelyn

Eu te farei aparecer entre as escarpas
Sereia, serena
E os que não te viram procurarão por ti
Que eras tão bela e nem falaste

Evelyn – disseram-me,
Apontando-te entre as barcas
E eras igual a meu destino

Evelyn – entre a água e o céu
Evelyn – entre a água e a terra
Evelyn – sozinha
Entre os homens e Deus.

Cecília Meireles
in: Mar Absoluto

Beira Mar


Sou morador das areias
De altas espumas
Os navios passam pelas minhas janelas
Como o sangue nas minhas veias
Como os peixinhos nos rios,

Não tem velas, e tem velas
E o mar tem e não tem sereias
E eu navego, e estou parada
Vejo mundos e estou cega,
Porque isto é mal de família
Ser de areia, de mar, de ilhas
E até sem barco navega
Quem para o mar foi fadada,

Deus te proteja Cecília
Que tudo é mar - e mais nada.

Cecília Meireles
in: Mar Absoluto

O Tempo no Jardim


Nestes jardins - há vinte anos - andaram nossos muitos passos,
e aqueles que então éramos se contemplaram nestes lagos.

Se algum de nós avistasse o que seríamos com o tempo,
todos nós choraríamos, de mútua pena e susto imenso.

E assim nos separamos, suspirando sonhos futuros,
e nenhum se atrevia a desvelar seus próprios mundos.

E agora que separados vivemos o que foi vivido,
com doce amor choramos o que fomos nesse tempo antigo!

Cecília Meireles
in: Mar absoluto

2º Motivo da rosa


A Mário de Andrade

Por mais que te celebre, não me escutas,
embora em forma e nácar te assemelhes
à concha soante, à musical orelha
que grava o mar nas íntimas volutas.

Deponho-te em cristal, defronte a espelhos,
sem eco de cisternas ou de grutas...
Ausências e cegueiras absolutas
ofereces às vespas e às abelhas,

e a quem te adora, ó surda e silenciosa,
e cega e bela e interminável rosa,
que em tempo e aroma e verso te transmutas!

Sem terra nem estrelas brilhas, presa
a meu sonho, insensível à beleza
que és e não sabes, porque não me escutas...

Cecília Meireles
in: Mar absoluto

Os presentes dos mortos


Os presentes dos mortos
arrastam-se ternamente
no encalço dos vivos

Usam um silêncio diferente
pousam de um modo peculiar

Como também morreram um pouco,
têm uma feição pálida e ausente.
Comanda-os de longe esquiva estrela.

Como, porém, não morreram de todo,
aproximam-se com branduras de fantasma,
e a cada instante se detêm,
medrosos, por se encontrarem em nossa frente.

Somos tão bruscos, tão agressivos!
É tão insensível aos delicados modos de morte
a condição do áspero ser vivente!

Cecília Meireles
In: Mar Absoluto

7 de mai de 2009

Cantata vesperal


Cerrai-vos, olhos, que é tarde, e longe,
e acabou-se a festa do mundo:
começam as saudades hoje.

Longos adeuses pelas varandas
perdem-se;e vão fugindo em mármore
cascatas céleres de escadas.
Pelos portões não passam mais sombras,
nem há mais vozes que se entendam
nas distâncias que o céu desdobra.

As ruas levam a mares densos.
E pelos mares fogem barcas
sem esperanças de endereços.

Cecília Meireles
In Flor de Poemas, 1972

"38"


Não sobre peito ou companhia humana:
sobre papéis chorava.
A pobre lágrima comprimida muito longe
perguntava admirada
se podia correr, se estava solta agora,
e com angústia se concentrava
- amiga lágrima, grito mudo dos tristes!-
e acorria desesperada,
tão pequena, meu Deus, para tão grande tormento,
que se pensava:
como é possível sem queixa nem desafogo!
Que dor tão bem guardada!
E tinha-se pena de deixar a lágrima livre
e de deixá-la escrava.
Nem sabia se era melhor sofrer, consolar-se,
nem se compreendia mais nada.

Sobre papéis escritos, sobre papéis impressos,
uma única lágrima se evaporava.
Era uma solidão muito solene, a vida,
fora do mundo, calada.

Os algozes jogavam dados na mesa do tempo.
Quem sabe o que apostavam?


Cecília Meireles
In ‘Metal Rosicler’

Surdina

(Pierre-Auguste Renoir)

Quem toca piano sobre a chuva,
na tarde turva e despovoada?
De que antiga, límpida música
recebo a lembrança apagada?

Minha vida, numa poltrona
jaz diante da janela aberta.
Vejo árvores, nuvens, - é a longa
rota do tempo, descoberta.

Entre os meus olhos descansados
e os meus descansados ouvidos,
alguém colhe com dedos calmos
ramos de som,descoloridos.

A chuva interfere na música.
Tocam tão longe! O turvo dia
mistura piano, árvore, nuvens,
séculos de melancolia...


Cecília Meireles
In Flor de Poemas, 1972

Saio do sonho, da noite, do absurdo



Saio do sonho, da noite, do absurdo:
sou navegante que aborda o limite humano,
espuma breve
Meus vestidos são de uma tristeza total:
de frágil superfície ao denso forro,
profundo mar.
Pergunto-me por que venho
e por que venho assim vestida:
- é dos lugares do sonho, da noite, do absurdo?
- é do limite humano a que abordo,
séria e inerme?
Entre os dias humanos
e a noite ex-humana
que mensageiro acaso somos?
A que destinatários?
em que linguagem?
que mensagem?
Ó noite, ó sonhos, ó absurdo
onde, no entanto, fluíamos, claríssimos!


Cecília Meireles
In Poesia Completa, 1994
Seja bem-vindo. Hoje é