4 de set de 2009

BEATITUDE



Corta-me o espírito de chagas!
Põe-me aflições em toda a vida:
Não me ouvirás queixas nem pragas ...

Eu já nasci desiludida,
De alma votada ao sofrimento
E com renúncias de suicida ...

Sobre o meu grande desalento,
Tudo, mas tudo, passa breve,
Breve, alto e longe como o vento ...

Tudo, mas tudo, passa leve,
Numa sombra muito fugace,
- Sombra de neve sobre neve ... –

Não deixando na minha face
Nem mais surpresas nem mais sustos:
- É como, até, se não passasse ...

Todos os fins são bons e justos ...
Alma desfeita, corpo exausto,
Olho as coisas de olhos augustos ...

Dou-lhes nimbos irreais de fausto,
Numa grande benevolência
De quem nascei u para o holocausto!

Empresto ao mundo outra aparência
E às palavras outra pronúncia,
Na suprema benevolência

De quem nasceu para a Renúncia! ...


Cecília Meireles
In Nunca Mais e Poema dos Poemas

Á HORA EM QUE OS CISNES CANTAM ...



Nem palavras de adeus, nem gestos de abandono.
Nenhuma explicação. Silêncio. Morte. Ausência.
O ópio do luar banhando os meus olhos de sono ...
Benevolência. Inconseqüência. Inexistência.

Paz dos que não tem fé, nem carinho, nem dono ...
Todo perdão divino e a divina clemência!
Oiro que cai dos céus pelos frios do outono ...
Esmola que faz bem ... – nem gestos, nem violência ...

Nem palavras. Nem choro. A mudez. Pensativas
Abstrações. Vão temores de saber. Lento, lento
Volver de olhos, em torno, augurais e espectrais ...

Todas as negações. Todas as negativas.
Ódio? Amor? Lê? Tu? Sim Não? Riso? Lamento?
- Nenhum mais. Ninguém mais. Nada mais. Nunca mais ...


Cecília Meireles
In 'Nunca Mais e Poema dos Poemas'1923

28 de ago de 2009

INFÂNCIA



Levaram as grades da varanda
Por onde a casa se avistava.
As grades de prata.

Levaram a sombra dos limoeiros
Por onde rodavam arcos de música
E formigas ruivas.

Levaram a casa de telhado verde
Com suas grutas de conchas
E vidraças de flores foscas.

Levaram a dama e o seu velho piano
Que tocava, tocava, tocava
A pálida sonata.

Levaram as pálpebras dos antigos sonhos,
Deixaram somente a memória
E as lágrimas de agora.


Cecília Meireles
In Retrato Natural

INCLINA O PERFIL



Inclina o perfil amado
Nos veludos do silêncio
E apaga sobre esse quadro
As velas do pensamento.

E fecha a porta da sala
E desce a escada profunda
E sai pela rua clara
Onde não façam perguntas.

E vai por praias desertas
Desmanchando os teus caminhos,
Cortando o fio às conversas
Dos teus próprios labirintos.

E ao chão dize: Sou de areia.
E às ondas dize: Sou de água.
E em valas de ausência deita
A alma de outrora magoada.

Sem propósito de sonho
Nem de alvoradas seguintes,
Esquece teus olhos tontos
E teu coração tão triste.

Talvez nem a sobre humana
Mão que tece o ar e a floresta
Perturbe alguém que descansa
De tão duras controvérsias.

Talvez fiques tão tranqüila,
Ó vida, entre o mar e o vento,
Como o que ninguém divisa
De uma lágrima num lenço.


Cecília Meireles
In Retrato Natural

CANÇÃO



Há uma canção que já não fala,
Que se recolhe dolorida.
Onde, o lábio para cantá-la?
Onde, o tempo de ser ouvida?

Quando alguém passa e ainda murmura,
Abro os olhos, quase assustada.
A voz humana é absurda, obscura,
Sem força para dizer nada.

Qual será sobre a nossa poeira,
O lugar dessa flor secreta,
- da frágil canção derradeira
murcha no silêncio do poeta?

Que abstrata mão clarividente
Levantará do chão mortuário
Esse arabesco altivo e ardente
Morto num sonho solitário?

Cecília Meireles
In Retrato Natural

CANÇÃO



A palavra que te disse,
Talvez por ser tão pequena,
Em tais desprezos perdeu-se
Que não deixou pena.

Murmurei-a a uma cisterna
De turvas águas antigas
E foi-se de cova em cova
Em múltiplas cantigas.

Amadores deste mundo,
Nas águas vosso amor ponde;
Que elas vos darão resposta,
Quando ninguém responde.


Cecília Meireles
In Retrato Natural

CANÇÃO



Eras um rosto
Na noite larga
De altas insônias
Iluminada.

Serás um dia
Vago retrato
De quem se diga:
“o antepassado”.

Eras um poema
Cujas palavras
Cresciam dentre
Mistério e lágrimas.

Serás silêncio,
Tempo sem rastro,
De esquecimentos
Atravessados.

Disso é que sofre
A amargurada
Flor da memória
Que ao vento fala


Cecília Meireles
In Retrato Natural

19 de ago de 2009

CANÇÃO DO AMOR-PERFEITO



Eu vi o raio de sol
Beijar o outono.
Eu vi na mão dos adeuses
O anel de ouro.
Não quero dizer o dia.
Não posso dizer o dono.

Eu vi bandeiras abertas
Sobre o mar largo
E ouvi cantar as sereias.
Longe, num barco,
Deixei meus olhos alegres,
Trouxe meu sorriso amargo.

Bem no regaço da lua,
Já não padeço.
Ai, seja como quiseres,
Amor-Perfeito,
Gostaria que ficasses,
Mas, se fores, não te esqueço.


Cecília Meireles
In Retrato Natural-1949-

COMENTÁRIO DO ESTUDANTE DE DESENHO



ENTRE O EIXO e as pontas do compasso,
Meu Deus, que distância penosa,
Que giro difícil,
Que pesado manejo!

É certo que a circunferência está pronta,
Por toda a eternidade
Aqui no imóvel parafuso do alto,
Sonhada, prevista na perfeição total da auréola?

Meu Deus, meu Deus, é certo que só no caminho do traço
É que se vai assim de ponto em ponto,
De dor em dor,
Com medos de começo e fim,
Rodando cautelosamente?


Cecília Meireles
In Retrato Natural

TEMPO VIAJADO




DOS MEUS RETRATOS rasgados
Me recomponho,
Com minhas espumas de acaso,
Meus solos vivos de fogo.

Muito se sofre.
As doces uvas sabem a enxofre.

Vulcões mordem as raízes
Das minhas plantas.
Em barcos postos a pique,
Naufragaram minhas lembranças.

Dizei-me por que lugares
Que pastores pastoreiam
Até sempre estas saudades
A mim mesmo tão alheias.

Muito se pena.
E vimos na areia morrer a sirena.

Procuro pelo meu rosto
O tempo que se desprende.
Que agulhas de desencontro
Separaram minha gente?

Dos meus retratos rasgados
Me levanto.
E acho-me toda em pedaços,
E assim mesmo vou cantando.

Muito se perde:
Pela terra negra ou pela água verde.

(Se Deus agora me visse,
abaixaria seus olhos
e ficaria mais triste.)


Cecília Meireles
In Retrato Natural

CANTATA VESPERAL



CERRAI-VOS, OLHOS, que é tarde, e longe,
E acabou-se a festa a festa do mundo:
Começam as saudades hoje.

Longos adeuses pelas varandas
Perdem-se; e vão fugindo em mármore
Cascatas céleres de escadas.

Pelos portões não passam mais sombras,
Nem há mais vozes que se entendam
Nas distâncias que o céu desdobra.

As ruas levam a mares densos.
E pelos mares fogem barcas
Sem esperanças de endereços.


Cecília Meireles
In Retrato Natural

PEQUENA MEDITAÇÃO



Chorai, negras águas,
À sombra das pontes,
Na raiz das árvores.

Tempo melancólico
Amarrando os braços
Dos altos relógios.

Cresceriam lágrimas,
Se não se abolissem
As lembranças cálidas.

Noites antiqüíssimas
Até nos esperam
Nomes de carícia.

Seremos idênticos
Ao passado enorme,
De amor e silêncio,

Ao jamais recíproco
Sonho que resvala
Para precipícios.

Só triste matéria
Lembrará mais tarde
Nossa descendência.

Em ruas contrárias,
Vereis negros tetos,
Como velhas máscaras.

Mas não esta fluida
Verdade da vida.
As mãos – sem a música.

Chorai, negras águas,
A dor, vagarosa,
E a memória, rápida.


Cecília Meireles
In Retrato Natural

PALAVRAS



ESPADA entre flores,
Rochedo nas águas,
Assim firmes, duras,
Entre as coisas fluídas,
Fiquem as palavras,
As vossas palavras.

Pois se por acaso
Dentro dos sepulcros
Acordassem as almas
E em sonhos confusos
Suspirassem rumos
De história passadas
E houvesse um tumulto
De ânsias e de lágrimas,

- lembrassem as lágrimas
caídas no mundo
nas noites amargas
cercadas dos muros
das vossas palavras.
Todas as palavras

Nos espelhos puros
Que a memória guarda,
Fique o rosto surdo,
A música brava
Do humano discurso.
De qualquer discurso.

Só de morte exata
Sonharão os justos,
Saudosos de nada,
Isentos de tudo,
Pascendo auras claras,
Livres e absolutos,
Nos campos de prata
Dos túmulos fundos.

No meio das águas,
Das pedras, das nuvens,
Verão as palavras:
Estrelas de chumbo,
Rochedos de chumbo.
A cegueira da alma.
O peso do mundo.

Adeus, velhas falas
E antigos assuntos!

Cecília Meireles
In Retrato Natural

DESENHO


(Ilustração de Graziella Mattar)


Árvore da noite
Com ramos azuis
Até o horizonte.

Estendi meus braços,
E apenas achei
Nevoeiros esparsos.

O resto era sonhos
No profundo fim
Da vida e da noite.

A memória em pranto
Os ramos azuis
Fica procurando

E de olhos fechados
Vejo longe, sós,
Meus alados braços.

Ó noite, azul, árvore ...
Suspiro a subir
Muro de saudade!


Cecília Meireles
In Retrato Natural-1949-

16 de ago de 2009

Oração da Noite



Trabalhei, sem revoltas nem cansaços,
No infecundo amargor da solitude:
As dores, - embalei-as nos meus braços,
Como alguém que embala a juventude...

(...)

Acendi luzes, desdobrando espaços,
Aos olhos sem bondade ou sem virtude;
Consolei mágoas, tédios e fracassos
E fiz, a todos, todo o bem que pude!


Cecília Meireles
in Nunca Mais e Poemas dos Poemas- 1923-
(Excerto)
Seja bem-vindo. Hoje é