9 de nov de 2009

Quanto o meu rosto contemplo



Quando meu rosto contemplo
O espelho se despedaça:
Por ver como passa o tempo
E o meu desgosto não passa.

Amargo campo da vida,
Quem te semeou com dureza,
Que os que não se matam de ira
Morre de pura tristeza ?

Cecília Meireles
in Canções

IMPROVISO DO AMOR-PERFEITO



Naquela nuvem, naquela
Mando-te meu pensamento:
Que Deus se ocupe do vento.

Os sonhos foram sonhados,
E o padecimento aceito.
E onde estás, Amor-Perfeito?

Imensos jardins da insônia,
De um olhar de despedida
Deram flor por toda a vida.

Ai de mim que sobrevivo
Sem o coração no peito,
E Onde estás, Amor-Perfeito?

Longe, longe, atrás do oceano
Que nos meus olhos se alteia,
Entre pálpebras de areia ...

Longe, longe ... Deus te guarde
Sobre o seu lado direito,
Como eu te guardava do outro,
Noite e dia, Amor-Perfeito.

Cecília Meireles
In Retrato Natural

RETRATO EM LUAR



Meus olhos ficam neste parque,
Minhas mãos no musgo dos muros,
Para o que um dia vier buscar-me,
Entre pensamentos futuros.

Não quero pronunciar teu nome,
Que a voz é o apelido do vento,
E os graus da esfera me consomem
Toda, no mais simples momento.

São mais duráveis a hera, as malvas,
Que a minha face deste instante.
Mas posso deixá-la em palavras,
Grava num tempo constante.

Nunca tive os olhos tão claros
E o sorriso em tanta loucura.
Sinto-me toda igual às arvores:
Solitária, perfeita e pura.

Aqui estão meus olhos nas flores,
Meus braços ao longo dos ramos:
E, no vago rumor das fontes,
Uma voz de amor que sonhamos.


Cecília Meireles
In Retrato Natural

IMPROVISO




Minha canção não foi bela:
Minha canção foi só triste.
Mas eu sei que não existe
Mais canção igual àquela.

Não há gemido nem grito
Pungentes como a serena
Expressão da doce pena.

E por um tempo infinito
Repetiria o meu canto
- saudosa de sofrer tanto.


Cecília Meireles
In Retrato Natural

6 de nov de 2009

SERENATA



Dize-me Tu, montanha dura,
Onde nenhum rebanho pasce,
De que lado na terra escura
Brilha o nácar de sua face.

Dize-me tu, palmeira fina,
Onde nenhum pássaro canta,
Em que caverna submarina
Seu silêncio em corais descansa.

Dize-me tu, ó céu deserto,
Dize-me tu se é muito tarde,
Se a vida é longe e a dor é perto
E tudo é feito de acabar-se!


Cecília Meireles
In Retrato Natural

CANTATA VESPERAL



CERRAI-VOS, OLHOS, que é tarde, e longe,
E acabou-se a festa a festa do mundo:
Começam as saudades hoje.

Longos adeuses pelas varandas
Perdem-se; e vão fugindo em mármore
Cascatas céleres de escadas.

Pelos portões não passam mais sombras,
Nem há mais vozes que se entendam
Nas distâncias que o céu desdobra.

As ruas levam a mares densos.
E pelos mares fogem barcas
Sem esperanças de endereços.


Cecília Meireles
In Retrato Natural

26 de out de 2009

Poema da duvida



Nesta sombra em que vivo,
Sonho que me apareceras,
Numa hora extática...
E ando a esperar-te, noite por noite...
Sonho que te hei de ver,
Todo vestido de oiro,
Com os cabelos carregados de estrelas
E as mãos enfeitadas de luas...
Sonho que desceras a ver-me,
De tanto me ouvires
Cantar e louvar
O teu nome...
Nesta sombra em que vivo,
De te evocar,
É como se já tivesses vindo...
Como se houvesse visto os teus olhos,
Que devem ser a própria alma da luz...
Como se houvesse adorado o teu coração,
Onde morrem todos os corações que viveram
E de onde nascem todos os corações...
Nesta sombra em que vivo,
Sofro por seres assim irreal,
Assim tão além do que se pode pensar...
Sofro porque nem sei
Quando haverá, nos meus olhos,
Luz com que te veja
E com que te adore...
.................................................................
Nesta sombra em que vivo,
Por que me não apareces,
Numa hora extática,
Se sabes que te ando a esperar,
Noite por noite!...



Cecília Meireles
In: Poema dos Poemas

19 de out de 2009

Lei



O que é preciso é entender a solidão!
O que é preciso é aceitar, mesmo, a onda amarga
que leva os mortos.

O que é preciso é esperar pela estrela
que ainda não está completa.

O que é preciso é que os olhos sejam cristal sem névoa,
e os lábios de ouro puro.

O que é preciso é que a alma vá e venha;
e ouça a notícia do tempo,
entre os assombros da vida e da morte,
estenda suas diáfanas asas,
isenta por igual.
de desejo e de desespero.


Cecília Meireles,
in Dispersos (1954)

8 de out de 2009

TUMULTO



Tempestade. O desgrenhamento
Das ramagens ... O choro vão
Da água triste, do longo vento,
Vem morrer-me no coração.

A água triste cai como um sonho,
Sonho velho que se esqueceu ...
(quando virás, ó meu tristonho
Poeta, ó doce troveiro meu! ...)
.....................................................
E minha alma, sem luz nem tenda,
Passa errante, na noite má,
À procura de quem me entenda
E de quem me consolará ...


Cecília Meireles
In Nunca Mais e Poema dos poemas

7 de out de 2009

Defronte da janela em que trabalho



Defronte da janela em que trabalho.
Nas horas quietas, em que tudo dorme,
Sobranceira e viril, como um carvalho,
Alevanta-se espessa arvore enorme.

O zéfiro um momento encrespa um galho
À sua barba: e, ou seja que a transforme
O vento ou meu olhar, a arvore enorme,
Erguida ante a janela em que trabalho,

Toma a feição de uma cabeça rude,
Sonolenta e selvatica oscilando
Numa estranha, fantástica atitude.

E, posta a contemplá-la, esta alma cuida
Ver sob o azul do céu, diáfano e brando,
A fronte erguer, leonina, o ultimo druida.


Cecília Meireles
In: Espectros

26 de set de 2009

Epigrama N° 3



Mutilados jardins e primaveras abolidas
abriram seus miraculosos ramos
no cristal em que pousa a minha mão.

(Prodigioso perfume!)

Recompuseram-se tempos, formas, cores, vidas ...

Ah! mundo vegetal, nós, humanos, choramos
só da incerteza da ressurreição.


Cecília Meireles
Viagem, 1938

21 de set de 2009

CANTIGA OUTONAL



Outono. As árvores pensando ...
Tristezas mórbidas no mar ...
O vento passa, brando ... brando ...
E sinto medo, susto, quando
Escuto o vento assim passar ...

Outono. Eu tenho a alma coberta
De folhas mortas, em que o luar
Chora, alta noite, na deserta
Quietude triste da hora incerta
Que cai do tempo, devagar ...

Outono. E quando o vento agita,
Agita os galhos negros, no ar,
Minha alma sofre e põe-se aflita,
Na inconsolável, na infinita
Pena de ter de se esfolhar ...


Cecília Meireles
In Nunca Mais e Poema dos Poemas

Evocação


(Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais, Paris -1732-1799)

(Lendo Beaumarchais)


Noite fresca e serena. Aberta a gelosia
Do florido balcão, numa penumbra leve,
Dorme a câmara avoenga. O vulto a um canto amplia
O velho cravo mudo. O luar Poe tons de neve


No embutido do assoalho, em que a sombra descreve,
Larga e aconchegadora, a poltrona macia,
Onde sonha, esquecida, uma guitarra breve
O seu sonho eternal de amor e melodia.


Há um perfume no ambiente – um perfume de outrora,
Muito vago, a lembrar todo um passado morto...
... E é quando no silencio um largo acorde chora,


e sente-se fremir, numa estranha dolência,
sob o esplendido céu, calmo, profundo, absorto,
a alma de Querubim, na ansiosa adolescência...



Cecília Meireles
In: Espectros

Feliz Ano 5.770 !!!



Minhas sinceras homenagens a todo povo judeu, Feliz Ano 5.770,
שתהיה לך שנה מתוקה נפלאה ומלאה בדברים טובים

שנה טובה

16 de set de 2009

13


(Julie Andrews , The Sound of Music')


Gente que anda pela vida
precisa andar distraída
(e as coisas distraem tanto!).


Mas eu, que fiquei parada,
como não encontro nada
para distrair-me – canto.



Cecília Meireles
In: Morena, Pena de amor -1.939
Seja bem-vindo. Hoje é