7 de jan de 2010

Espelho cego



Onde a face de prata e cristal puro,
e aquela deslumbrante exatidão
que revela o mais breve aceno obscuro


e o compasso das lagrimas, e a seta
que de repente galga os céus do olhar
e em margens sobre-humanas se projeta?


Onde, as auroras? Onde, os labirintos
- e o frêmito, que rasga o peso ao mar
- e as grutas, de áureos lustres e aéreos plintos?


Ah – que fazes do rosto que te entrego?
- Musgos imóveis sobre a sua luz...
Limos... Liquens... – Opaco espelho cego!


1954

Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

Chuva



Sobre as casas fechadas, a chuva.
Sobre o sono dos homens, a chuva.
Sobre os mortos inúmeros, a chuva.


A chuva noturna sobre as arvores.
A chuva noturna sobre os templos
A chuva noturna sobre o mar.


Sobre a solidão deste mundo, a chuva.
A solidão da chuva, na solidão.


Abril, 1954



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

6 de jan de 2010

Carnaval



Com os teus dedos feitos de tempo silencioso,
Modela a minha mascara, modela-a...
E veste-me essas roupas encantadas
Com que tu mesmo te escondes, ó oculto!

Põe nos meus lábios essa voz
Que só constrói perguntas,
E, à aparência com que me encobrires,
Dá um nome rápido, que se possa logo esquecer...

Eu irei pelas tuas ruas,
Cantando e dançando...
E lá, onde ninguém se reconhece,
Ninguém saberá quem sou,
À luz do teu Carnaval...

Modela a minha mascara!
Veste-me essas roupas!

Mas deixa na minha voz a eternidade
Dos teus dedos de silencioso tempo...
Mas deixa nas minhas roupas a saudade da tua forma...
E põe na minha dança o teu ritmo,
Para me conduzir...



Cecília Meireles
Dispersos (1918-1964)

4 de jan de 2010

Pergunto-te onde se acha a minha vida


('The Countess Brownlow' painting by Frederic Leighton)

Pergunto-te onde se acha a minha vida.
Em que dia fui eu. Que hora existiu formada
de uma verdade minha bem possuída.


Vão-se as minhas perguntas aos depósitos do nada.


E a quem é que pergunto? Em quem penso, iludida
por esperanças hereditárias? E de cada
pergunta minha vai nascendo a sombra imensa
que envolve a posição dos olhos de quem pensa.


Já não sei mais a diferença
de ti, de mim, da coisa perguntada,
do silencio da coisa irrespondida.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

1 de jan de 2010

Supérfluo




A chuva coloca no bico dos pássaros
um guizo d’água.


A tarde levanta da verde folhagem
uma espuma de aroma.


Uma vida, quase a teus pés, dirige-te
um terno pensamento.


Oh, as pequenas coisas supérfluas
extraviadas no mundo.


Quem ouve? quem vê? quem entende?



Cecília Meireles
Dispersos (1918-1964)

29 de dez de 2009

Ano de 2.010!



A todos amigos e visitantes do blogger,
desejo um ANO NOVO pleno de alegrias,
muita Paz, Saúde e Realizações.
Feliz, Ano Novo Cristão, de 2.010!

Maria Madalena

28 de dez de 2009

Antieclesiaste



Chuva nas nuvens,
flores nas arvores,
lagrimas em nós.


Estação de chuva,
estação de flores.
O tempo inteiro para as lagrimas.
Por isso estamos tão extenuados:
todos os tempos foram de chorar.

1949



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

20 de dez de 2009

Pensamento



Nestas pedras, caiu, certa noite, uma lagrima.
O vento que a secou deve estar voando noutros paises;
o luar, que a estremeceu, tem olhos brancos de cegueira:
e esteve sobre ela, mas sem ver seu esplendor.

Só na morte do tempo, os pensamentos que a choraram
verão, junto ao universo, como foram infelizes,
que, uma noite, uma lagrima levou a vida verdadeira,
com seu grito de sonho e seu tímido amor.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

Poemas



I



Edifica-te:
Longe,
Silencioso,
Só,
Edifica-te admirável,
Com altitudes imensas,
E, para além da humanidade,
Sê grandioso, excessivamente...

Cresce sempre,
Como uma arvore de eterna vida...

Escapa ao que atinge a todos.
Constrói-te para um tempo sem fim,
Que nunca te termine,
Ainda que morras todos os dias!

Sê o infindável,
Feito de renascenças sem termo...

Para lá das amarguras humanas,
Sê o que ficará para consolo e exemplo dos que vierem,
E cujo nome será,
Na terra triste,
Benção imortal para tudo o que vive!...


II


Quando olho para tudo isto que antes foi terra nua,
E que o vento semeou,
Barbaramente,
E que hoje é mata indômita,
Mar negro e farfalhante,
E cheio de feras sombrias,
Fico pensando em mim...

Eu fui à terra fecunda
Onde tudo que o destino deixou cair
Teve força de vida crescente
E poder criador de se multiplicar...


Eu fui à terra nua de uma idade sem data.
E as minhas arvores têm medidas que não param,
Crescendo sempre pelas raízes e pelas frondes...

Mas dentro da minha sombra nunca deslizaram as ferras...
E as próprias arvores de espinhos
Tiveram sempre
Ou resinas consoladoras
Ou frutos doces...


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
(POESIA COMPLETA, organização Antonio Carlos Secchin (2 volumes) Editora Nova Fronteira 2001.)

17 de dez de 2009

Sombra



Os homens passam pelas ruas misteriosas...

Ouvi ecoarem na noite
A sua loucura e o seu pavor...

Os homens olharam para dentro
E viram mistérios...
Os homens olharam para fora
E viram mistérios...

E foram pelas ruas misteriosas
Debatendo-se como pensamentos
Presos em círculos negros...

Agosto, 1927



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

Noite



Úmido gosto de terra,
cheiro de pedra lavada,
- tempo inseguro do tempo! –
sombra do flanco da serra,
nua e fria, sem mais nada.


Brilho de areias pisadas,
sabor de folhas mordidas,
- lábio da voz sem ventura! –
suspiro das madrugadas
sem coisas acontecidas.


A noite abria a frescura
dos campos todos molhados,
- sozinha, com o seu perfume! –
preparando a flor mais pura
com ares de todos os lados.


Bem que a vida estava quieta.
Mas passava o pensamento...
- de onde vinha aquela musica?
E era uma nuvem repleta,
entre as estrelas e o vento.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Viagem (1939)

20 de nov de 2009

Improviso



A lua nos nossos ombros
e a sombra que não se encontra
despedaçada no chão.

O resto, passos altivos
nos labirintos do tempo
que não se sabe aonde irão.

Faixas de silencio dobram
sobre os olhos que estão vendo
jardins de recordação.

Deixai que cantem as fontes,
ao menos, sobre esta pedra
que põem no meu coração.



Cecília Meireles
In: Retrato Natural

12 de nov de 2009

Soturna




Olhas o céu, que é a flama azul do olhar de um santo.
Parece, até, que, de tão fluida, a luz é aroma...

E eu, vendo o céu lúcido assim, penso no pranto
De súlfur vivo que escorreu sobre Sodoma...

Olhas os ramos, na opulência e na indolência...
Lembras sazões, pomos, desejos e pecados...

E eu, nesses ramos, sinto a lúgubre cadencia
Da pendular oscilação dos enforcados...

Olhas a terra toda em flor... Falas na gloria
De messidores, de farturas, de celeiros...

Diante da terra, oiço a canção desilusoria
Da ronda triste e sonolenta dos coveiros...

Olhas o mar em que o oiro-azul do céu se estrela:
Não sentes, vendo-o, nem pavores nem presságios...

E eu, pelo mar, vejo os espectros da procela,
E as naus sem norte, os precipícios, e os naufrágios...

Olhas a Vida... E ouves, da terra aos céus, o coro
Propiciatório de alegrias e noivado...

Dos céus à terra, eu sinto as suplicas e o choro
Dos prisioneiros, ofendidos, degradados...

Diante da Morte, unicamente, se alevanta
Minha alma em luz, serena e só, tranqüila e forte...

E, diante dela, o seu louvor sem frases canta...
Que é que tu sentes, meu Irmão, diante da Morte?



Cecília Meireles
In: Baladas para El-Rei (1925)

Na grande noite tristonha



Na grande noite tristonha,
Meu pensamento parado
Tem quietudes de cegonha
Numa beira de telhado.

- Na grande noite tristonha...

Lembram planícies desertas
De uma paisagem do Norte,
As perspectivas abertas
No mundo da minha sorte...

- Lembram planícies desertas...

Ao longe, distancias ermas...
Em tudo quanto se abarca
Há ligeirezas enfermas
De luas da Dinamarca...

- Ao longe, distancias ermas...
Em tudo quanto se abarca
Há ligeirezas enfermas
De luas da Dinamarca...

- Ao longe, distancias ermas...

E sob olhares em pranto
De estrelas alucinadas,
Vais – coroa, cetro e manto,
Ó Rei das minhas baladas!

- E sob olhares em pranto...
......................................................
Na grande noite tristonha,
Meu pensamento parado
Tem quietudes de cegonha
Numa beira de telhado.

- Na grande noite tristonha...

E eu sonho o meu sonho oculto
De ave triste – que não voa,
Detida a ver o teu vulto
De cetro, manto e coroa...

- Eu sonho o meu sonho oculto...


Cecília Meireles
In: Baladas para El-Rei (1925)

10 de nov de 2009

O VENTO



O cipreste inclina-se em fina reverência
e as margaridas estremecem, sobressaltadas.

A grande amendoeira consente que balancem
suas largas folhas transparentes ao sol.

Misturam-se uns aos outros, rápidos e frágeis,
os longos fios da relva, lustrosos, lisos cílios verdes.

Frondes rendadas de acácias palpitam inquietantemente
com o mesmo tremor das samambaias
debruçadas nos vasos.

Fremem os bambus sem sossego,
num insistente ritmo breve.

O vento é o mesmo:
mas sua resposta é diferente, em cada folha.

Somente a árvore seca fica imóvel,
entre borboletas e pássaros.

Como a escada e as colunas de pedra,
ela pertence agora a outro reino.
Se movimento secou também, num desenho inerte.
Jaz perfeita, em sua escultura de cinza densa.

O vento que percorre o jardim
pode subir e descer por seus galhos inúmeros:

ela não responderá mais nada,
hirta e surda, naquele verde mundo sussurrante.


Cecília Meireles
in Mar Absoluto
Seja bem-vindo. Hoje é