10 de fev de 2010

Anatomia



É triste ver-se o homem por dentro:
tudo arrumado, cerrado, dobrado
como objetos num armário.


A alma, não.


É triste ver-se o mapa das veias,
e esse pequeno mar que faz trabalhar seus rios
como por obscuras aldeias
indo e vindo, a carregar vida, estranhos escravos.


Mas a alma?


É triste ver-se a elétrica floresta
dos nervos: para estrelas de olhos e lagrimas,
para a inquieta brisa da voz,
para esses ninhos contorcidos do pensamento.


E a alma?


É triste ver-se que de repente se imobiliza
esse sistema de enigmas,
de inexplicado exercício,
antes de termos encontrado a alma.


Pela alma choramos.
Procuramos a alma.
Queríamos alma.


Agosto, 1959



Cecília Meireles
In: O Estudante Empírico (1959-1964)

O sol está numa tal posição



O sol está numa tal posição,
que de todos os lados se vê o mesmo.


Ah, que amor incontestado
podemos dar e ser,
que esfera impecável, impoluta,
de sempre adiado horizonte,
continuando-se, interminável,
na sucessão de si mesma,
afirmando sua duração,


ah, que esfera podemos ser, em sonho,
talvez,
em alma,
quem sabe,
que sol, que totalidade sem arestas,
que evidencia inegável,
em que lugar, em que posição?


1960



Cecília Meireles
In: O Estudante Empírico (1959-1964)

Todas as coisas têm nome



Todas as coisas têm nome.
(Têm nome todas as coisas?)


Todos os verbos são atos.
(São atos todos os verbos?)


Com a gramática e o dicionário
faremos nossos pequenos exercícios.


Mas quando lermos em voz alta o que escrevemos,
não saberão se era prosa ou verso,
e perguntarão o que se há de fazer com esses escritos:


porque existe um som de voz,
e um eco – e um horizonte de pedra
e uma floresta de rumores e água


que modificam os nomes e os verbos
e tudo não é somente léxico e sintaxe.


Assim tenho visto.


1960



Cecília Meireles
In: O Estudante Empírico (1959-1964)

2 de fev de 2010

'Mensagem a um desconhecido'



Teu bom pensamento longínquo me emociona.
Tu, que apenas me leste,
acreditaste em mim, e me entendeste profundamente.


Isso me consola dos que me viram,
a quem mostrei toda a minha alma,
e continuaram ignorantes de tudo que sou,
como se nunca me tivessem encontrado.


Fevereiro, 1956


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

'Como alguém que acordou muito tarde'


(Foto by Antônio Carlos Januario- MG)


Como alguém que acordou muito tarde,
e sente falta do dia passado,
do dia desconhecido
que esteve sobre os seus olhos fechados
repleto de movimento e dança,
todos os dias choramos,
secretamente, sem lagrimas nem consciência,
alguma coisa que se passou fora de nós.


E suspiramos com um suspiro vazio,
e entristecemos, de repente.


1957



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

31 de jan de 2010

'Antieclesiaste'



Chuva nas nuvens,
flores nas arvores,
lagrimas em nós.


Estação de chuva,
estação de flores.
O tempo inteiro para as lagrimas.
Por isso estamos tão extenuados:
todos os tempos foram de chorar.

1949


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

29 de jan de 2010

Com agulhas de prata



Com agulhas de prata
de brilho tão fino
bordai as sedas do vosso destino.


Bordai as tristezas
de todos os dias
e repentinamente as alegrias.


Que fiquem as sedas
muito primorosas
mesmo com lagrimas presas nas rosas.


Com agulhas de prata
de brilho tão frio...
ai, bordai as sedas, sem partir o fio!


1961


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

Uma noite me balancei no céu


(Tela by Jean-Honoré Frangonard)

Uma noite me balancei no céu.
O balanço era de flores ou de estrelas,
e suas pontas perdiam-se no Norte e no Sul,
e atiravam-me de Leste a Oeste.


Desci do sonho melancólica.
Às vezes suspiro por esse alto sonho.
Contá-lo não é nada: mas vivê-lo:
mas estar longe, numa solidão deleitosa,
mas crer, afinal, que há um tempo de viver...


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

20 de jan de 2010

Luar póstumo



Numa noite de lua escreverei palavras,
simples palavras tão certas
que hão de voar para longe, com asas súbitas,
e pousar nessas torres das mudas vidas inquietas.


O luar que esteve nos meus olhos, uma noite,
nascerá de novo no mundo.
Outra vez brilhará, livre de nuvens e telhados,
livre de pálpebras, e num país sem muros.


Por esse luar formado em minhas mãos, e eterno,
é doce caminhar, viver o que se vive.
Porque a noite é tão grande... Ah, quem faz tanta noite?
E estar próximo é tão impossível!



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

18 de jan de 2010

Epitáfio da navegadora




A Gastón Figueira


Se te perguntarem quem era
essa que às areias e gelos
quis ensinar a primavera;


e que perdeu seus olhos pelos
mares sem deuses desta vida,
sabendo que, de assim perdê-los,


ficaria também perdida;
e que em algas e espumas presa
deixou sua alma agradecida;


essa que sofreu de beleza
e nunca desejou mais nada;
que nunca teve uma surpresa


em sua face iluminada,
dize: “Eu não pude conhecê-la,
sua história está mal contada,


mas seu nome, de barca e estrela,
foi: SERENA DESESPERADA”.



Cecília Meireles
Vaga Música (1942)

16 de jan de 2010

Os homens rústicos rezavam



Os homens rústicos rezavam:
em seus lábios quase de pedra
passavam palavras aladas
como delicadas libélulas.


E por delicadas libélulas
seus olhos eram poços de alma
que uma água ia enchendo, secreta,
profunda, de infindáveis lagrimas.


Setembro, 1962


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

7 de jan de 2010

'Improviso à janela'



Este é o começo do dia,
como o começo e o fim do mundo:
as nuvens aprendem a voar,
os campos vão sonhando nuvens,
o vento vai sonhando o pó
onde tristemente o amor palpitará.


Este é o começo do dia.
Vemos tudo o que já foi visto,
alguma coisa não mais se verá.


Nem sempre olhamos o dia
tão face a face e tão docemente.
Nem sempre sentimos esta saudade,
ainda ausente, ainda futura,
do que há e do que não há.


Este é o começo do dia:
- do céu, da luz, da terra, dos homens,
que acontecerá?


1954

Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

Espelho cego



Onde a face de prata e cristal puro,
e aquela deslumbrante exatidão
que revela o mais breve aceno obscuro


e o compasso das lagrimas, e a seta
que de repente galga os céus do olhar
e em margens sobre-humanas se projeta?


Onde, as auroras? Onde, os labirintos
- e o frêmito, que rasga o peso ao mar
- e as grutas, de áureos lustres e aéreos plintos?


Ah – que fazes do rosto que te entrego?
- Musgos imóveis sobre a sua luz...
Limos... Liquens... – Opaco espelho cego!


1954

Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

Chuva



Sobre as casas fechadas, a chuva.
Sobre o sono dos homens, a chuva.
Sobre os mortos inúmeros, a chuva.


A chuva noturna sobre as arvores.
A chuva noturna sobre os templos
A chuva noturna sobre o mar.


Sobre a solidão deste mundo, a chuva.
A solidão da chuva, na solidão.


Abril, 1954



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

6 de jan de 2010

Carnaval



Com os teus dedos feitos de tempo silencioso,
Modela a minha mascara, modela-a...
E veste-me essas roupas encantadas
Com que tu mesmo te escondes, ó oculto!

Põe nos meus lábios essa voz
Que só constrói perguntas,
E, à aparência com que me encobrires,
Dá um nome rápido, que se possa logo esquecer...

Eu irei pelas tuas ruas,
Cantando e dançando...
E lá, onde ninguém se reconhece,
Ninguém saberá quem sou,
À luz do teu Carnaval...

Modela a minha mascara!
Veste-me essas roupas!

Mas deixa na minha voz a eternidade
Dos teus dedos de silencioso tempo...
Mas deixa nas minhas roupas a saudade da tua forma...
E põe na minha dança o teu ritmo,
Para me conduzir...



Cecília Meireles
Dispersos (1918-1964)
Seja bem-vindo. Hoje é