23 de fev de 2010

'Apontamento'



Ó noite, ó noite, ó noite!
Luar e primavera
e os telhados cobrindo
sonhos que a vida gera!


Subo por essas horas
solitária e sincera,
e encontro, exausta e pura,
minha alma que me espera.


2, Maio, 1959


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

Sonhei um sonho


(Joan Miró)

Sonhei um sonho
e lembrei-me do sonho
e esqueci-me do sonho
e sonhei que procurava
em sonho aquele sonho
e pergunto se a vida
não é um sonho que procurava um sonho.


1959

Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

Venho do Sono


(Guillaume Seignac)

Venho do Sono,
desse fluido país
do pensamento visível,
dos endereços divinos,
dos nomes de amor,
das gloriosas ressurreições.


Venho do Sono.


Ai! distancias profundas...
E olho-me ao espelho.


1959


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

'Desenho'


(Kasimir Malevich)

Traça a reta e a curva,
a quebrada e a sinuosa.
Tudo é preciso.
De tudo viverás.


Cuida com exatidão da perpendicular
e das paralelas perfeitas.
Com apurado rigor.
Sem esquadro, sem nível, sem fio de prumo,
traçaras perspectivas, projetaras estruturas.
Numero, ritmo, distancia, dimensão.
Tens os teus olhos, o teu pulso, a tua memória.


Construirás os labirintos impermanentes
que sucessivamente habitaras.


Todos os dias estarás refazendo o teu desenho.
Não te fatigues logo. Tens trabalho para toda a vida.
E nem para o teu sepulcro terás a medida certa.


Somos sempre um pouco menos do que pensávamos.
Raramente, um pouco mais.


1963



Cecília Meireles
In: O Estudante Empírico (1959-1964)

18 de fev de 2010

Cerejas na prata



Em grandes bandejas de clara prata
há cerejas vermelhas, muito cintilantes.
Serão as manhãs nórdicas suspensas na noite?
lençóis d’água, ramos de flores?


Serão as pedras sangrentas de que coroas,
de que reinados – ó Golconda a meus pés
desfeita em sombra...?
Serão gotas de sangue, ó Crucifixos,
ó dor humana e divina alçada entre lanças
de pólo a pólo...?


Serão apenas lagrimas
vossas
minhas
nossas
estas lagrimas que vão e vêm pela nossas veias
e aparecem aqui resplandecentes,
anônimas e tão poderosas,
subitamente mostradas
e logo depois
em sonho, eternidade, gloria
confundidas...
Ah, o tempo!
Cerejas de fogo no rosto da prata quieta.


1961



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

10 de fev de 2010

A noite



A noite é essa escuridão tão envolvente
que aparece um exercício de morte:
assim vai desaparecendo tudo,
assim desaparecemos dos outros
e de nós.


Apenas respiramos.
Podem cortar esse ultimo fio
- e o tear que somos se imobiliza.


A noite esconde a terra, o céu, a casa,
os vossos rostos.


Estou novamente dentro de uma entranha?
Humana? Cósmica? Em que entranha me aninho,
onde se enrola o novelo da minha memória,
em que cofre, na escuridão?


Nossas asas estão docemente fechadas
e nossos olhos moram no pensamento.


Cada um tem a sua noite.
Cada coisa.
E tudo está na sua noite,
enquanto é noite.


O dia é um bailarino com sinos e espelhos.


Interrompemos a treva onde aprendíamos lembranças;
e somos de repente uns falsos acordados.

1960



Cecília Meireles
In: O Estudante Empírico (1959-1964)

Anatomia



É triste ver-se o homem por dentro:
tudo arrumado, cerrado, dobrado
como objetos num armário.


A alma, não.


É triste ver-se o mapa das veias,
e esse pequeno mar que faz trabalhar seus rios
como por obscuras aldeias
indo e vindo, a carregar vida, estranhos escravos.


Mas a alma?


É triste ver-se a elétrica floresta
dos nervos: para estrelas de olhos e lagrimas,
para a inquieta brisa da voz,
para esses ninhos contorcidos do pensamento.


E a alma?


É triste ver-se que de repente se imobiliza
esse sistema de enigmas,
de inexplicado exercício,
antes de termos encontrado a alma.


Pela alma choramos.
Procuramos a alma.
Queríamos alma.


Agosto, 1959



Cecília Meireles
In: O Estudante Empírico (1959-1964)

O sol está numa tal posição



O sol está numa tal posição,
que de todos os lados se vê o mesmo.


Ah, que amor incontestado
podemos dar e ser,
que esfera impecável, impoluta,
de sempre adiado horizonte,
continuando-se, interminável,
na sucessão de si mesma,
afirmando sua duração,


ah, que esfera podemos ser, em sonho,
talvez,
em alma,
quem sabe,
que sol, que totalidade sem arestas,
que evidencia inegável,
em que lugar, em que posição?


1960



Cecília Meireles
In: O Estudante Empírico (1959-1964)

Todas as coisas têm nome



Todas as coisas têm nome.
(Têm nome todas as coisas?)


Todos os verbos são atos.
(São atos todos os verbos?)


Com a gramática e o dicionário
faremos nossos pequenos exercícios.


Mas quando lermos em voz alta o que escrevemos,
não saberão se era prosa ou verso,
e perguntarão o que se há de fazer com esses escritos:


porque existe um som de voz,
e um eco – e um horizonte de pedra
e uma floresta de rumores e água


que modificam os nomes e os verbos
e tudo não é somente léxico e sintaxe.


Assim tenho visto.


1960



Cecília Meireles
In: O Estudante Empírico (1959-1964)

2 de fev de 2010

'Mensagem a um desconhecido'



Teu bom pensamento longínquo me emociona.
Tu, que apenas me leste,
acreditaste em mim, e me entendeste profundamente.


Isso me consola dos que me viram,
a quem mostrei toda a minha alma,
e continuaram ignorantes de tudo que sou,
como se nunca me tivessem encontrado.


Fevereiro, 1956


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

'Como alguém que acordou muito tarde'


(Foto by Antônio Carlos Januario- MG)


Como alguém que acordou muito tarde,
e sente falta do dia passado,
do dia desconhecido
que esteve sobre os seus olhos fechados
repleto de movimento e dança,
todos os dias choramos,
secretamente, sem lagrimas nem consciência,
alguma coisa que se passou fora de nós.


E suspiramos com um suspiro vazio,
e entristecemos, de repente.


1957



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

31 de jan de 2010

'Antieclesiaste'



Chuva nas nuvens,
flores nas arvores,
lagrimas em nós.


Estação de chuva,
estação de flores.
O tempo inteiro para as lagrimas.
Por isso estamos tão extenuados:
todos os tempos foram de chorar.

1949


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

29 de jan de 2010

Com agulhas de prata



Com agulhas de prata
de brilho tão fino
bordai as sedas do vosso destino.


Bordai as tristezas
de todos os dias
e repentinamente as alegrias.


Que fiquem as sedas
muito primorosas
mesmo com lagrimas presas nas rosas.


Com agulhas de prata
de brilho tão frio...
ai, bordai as sedas, sem partir o fio!


1961


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

Uma noite me balancei no céu


(Tela by Jean-Honoré Frangonard)

Uma noite me balancei no céu.
O balanço era de flores ou de estrelas,
e suas pontas perdiam-se no Norte e no Sul,
e atiravam-me de Leste a Oeste.


Desci do sonho melancólica.
Às vezes suspiro por esse alto sonho.
Contá-lo não é nada: mas vivê-lo:
mas estar longe, numa solidão deleitosa,
mas crer, afinal, que há um tempo de viver...


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

20 de jan de 2010

Luar póstumo



Numa noite de lua escreverei palavras,
simples palavras tão certas
que hão de voar para longe, com asas súbitas,
e pousar nessas torres das mudas vidas inquietas.


O luar que esteve nos meus olhos, uma noite,
nascerá de novo no mundo.
Outra vez brilhará, livre de nuvens e telhados,
livre de pálpebras, e num país sem muros.


Por esse luar formado em minhas mãos, e eterno,
é doce caminhar, viver o que se vive.
Porque a noite é tão grande... Ah, quem faz tanta noite?
E estar próximo é tão impossível!



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
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