3 de mai de 2010

Nuvens dos olhos meus, de altas chuvas paradas


 
Nuvens dos olhos meus, de altas chuvas paradas,
- por chãos de adeuses vão-se os dias em tumulto,
em noites êrmas e saudades longe morre.


Sem testemunha vão passando as horas belas.
Tudo que pôde ser vitória cai perdido,
Sem mãos, sem posse, pela sombra, entre os planêtas.


Tudo é no espaço - desprendido de lugares.
Tudo é no tempo - separado de ponteiros.
E a bôca é apenas instrumento de segredos.


Por que esperais, olhos severos, grandes nuvens?
Tudo se vai, tudo se perde, - e vós, detendo,
num prêso céu, fora da vida, as águas densas

de inalcançáveis rostos amados!


Cecilia Meireles
in Solombra

O que amamos está sempre longe de nós


O que amamos está sempre longe de nós:
E longe mesmo do que amamos—que não sabe
De onde vem, aonde vai nosso impulso de amor.

O que amamos está como a flor na semente,
Entendido com medo e inquietude, talvez.
Só para em nossa morte estar durando sempre.

Como as ervas do chão, como as ondas do mar,
Os acasos se vão cumprindo e vão cessando.
Mas, sem acaso, o amor límpido e exato jaz.

Não necessita nada o que em ti tudo ordena:
Cuja tristeza unicamente pode ser
E equívoco do tempo, os jogos da cegueira

Com setas negras na escuridão.

Cecília Meireles.
in Solombra

30 de abr de 2010

Perspectiva


Tua passagem se fez por distancias antigas.
O silencio dos desertos pesava-lhe nas asas
e, juntamente com ele, o volume das montanhas e do mar.


Tua velocidade desloca mundos e almas.
Por isso, quando passaste, caiu sobre mim tua violência
e desde então alguma coisa se aboliu.


Guardo uma sensação de drama sombrio, com vozes de ondas
lamentando-me, e a multidão das estrelas avermelhadas fugindo
com o céu para longe de mim.


Os dias que vêm são feitos de vento plácido e apagam tudo.
Dispersam a sombra dos gestos sobre os cenários.
Levam dos lábios cada palavra que desponta.
Gastam o contorno da minha síntese.
Acumulam ausência em minha vida...


Oh! um pouco de neve matando, docemente, folha a folha...


Mas a seiva lá dentro continua, sufocada,
nutrindo de sonho a morte.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Viagem (1939)

23 de abr de 2010

Sonho com plantas e gestos amáveis


Em sonho vireis delicadamente
e sem motivo algum
direis palavras amáveis
que vos surpreenderiam
se vos fossem contadas.


Em sonho mandareis colocar no meu terraço
plantas cheias de flores
que todos admirariam,
pois jamais foram vistas
da China à Patagônia
e existem apenas neste sonho.


Jamais saberei o que sonháveis
enquanto eu sonhava com as vossas gentilezas.
Jamais sabereis que tais gentilezas foram sonhadas.


Sem motivo algum,
ficam floridos noutro mundo os meus terraços.
E somente eu poderei pensar nisso.
Somente eu vi tudo isso.


E é como um achado arqueológico,
momentâneo e perene
entre o ar e o pó.


1959



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

21 de abr de 2010

Fala-me agora, que estou cansado

(GUILLAUME SEIGNAC - França-1870 - 1924)


Fala-me agora, que estou cansado,
agora, que já voltaste, e conheces o mundo,
de cada lado.


Fala-me como alguém que já sabe da vida
e da sua seiva mais tenebrosa
e que transporta sua alma partida.


Fala-me como se a morte amanhã chegasse
e pusesse a fria coroa da lua
sobre a tua face.


Fala-me e dize que me ouviste um dia,
e que estavas só, perdido, acabado,
e tiveste alegria.


Fala-me, enfim, como nunca no mundo
ninguém já falou a um irmão, a um amigo
- abre o teu coração até o fundo.


Para que eu morra com o contentamento
de que o meu amor não foi um dom perdido,
lágrima no mar, suspiro no vento.


Que se pode ainda amar como em sonhos antigos,
sem mãos e sem voz, sem olhos, sem passos,
além de glórias e perigos.


Fala-me como alguém que me viu tão de frente
que eu não posso saber se é o meu próprio retrato
num espelho clarividente.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

9 de abr de 2010

Epigramas


I

À bela dama despojada
não lhe restava mais nada,
depois de batalhas ávidas.


Continuava, porém, tão bela,
que inveja dizia: “Àquela
ainda lhe restam as perolas...”


A bela dama despojada
não podia dizer nada.
(Não lhe restavam nem lagrimas.)


II


Não há rosto nenhum! E mesmo o meu, que importa?
E as mãos! – as mãos foram um desenho sem sentido.
Um dia sonhamos que existimos.
Vivemos desse sonho.
E dentro dele fomos tão desgraçados...


Quando recordaremos esse sonho sonhado?
Onde recordaremos esse sonho acabado?


Quem seremos, depois dessa antiga aventura,
e em que abismos de lembrança
despiremos, afinal, esta couraça tênue de vida,
esta opressão e esta fragilidade,
este martírio vago e perseverante da memória?


III


Sobre uma flor dormiríamos
e o vento nos dividiria com suas numerosas laminas.


Sobre uma flor. Sem rastros.
Sem espelho. Sem nome.
Ah! mas em que translúcido tempo?


IV


Não descerias em mim, porque a minha torrente
desmancharia o teu frágil momento
no rápido transito.


Fica só refletida, e as ondas que passarem
todas irão levando a ausência do teu rosto,
que será presença sem fim.


Não queiras ter a morte inglória dos encontros.
Mas a eterna, a profunda vida, no reflexo
que por onde passar te levará.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

7 de abr de 2010

Epigrama n° 1


Pousa sobre esses espetáculos infatigáveis
uma sonora ou silenciosa canção:
flor do espírito, desinteressada e efêmera.


Por ela, os homens te conhecerão:
por ela, os tempos versáteis saberão
que o mundo ficou mais belo, ainda que inutilmente,
quando por ele andou teu coração.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Viagem (1939)

22 de mar de 2010

Itinerário



Primeiro, foram os verdes
e águas e pedras da tarde,
e meus sonhos de perder-te
e meus sonhos de encontrar-te...


Mas depois houve caminhos
pelas florestas lunares,
e, mortos em meus ouvidos,
mares brancos de palavras.


Achei lugares serenos
e aromas de fonte extinta.
Raízes fora do tempo,
com flores vivas ainda.


E eram flores encarnadas,
por cima das folhas verdes.
(Entre os espinhos de prata,
só meus sonhos de perder-te...)



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Vaga Música (1942)

Cantiguinha



Brota esta lagrima e cai.
Vêm de mim, mas não é minha.
Percebe-se que caminha,
sem que se saiba aonde vai.


Parece angustia espremida
de meu negro coração
- pelos meus olhos fugida
e quebrada em minha mão.


Mas é rio, mais profundo,
sem nascimento e sem fim,
que, atravessando este mundo,
passou por dentro de mim.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Vaga Música (1942)

21 de mar de 2010

Viagem



No perfume dos meus dedos,
há um gosto de sofrimento,
como o sangue dos segredos
no gume do pensamento.

Por onde é que vou?

Fechei as portas sozinha.
Custaram tanto a rodar!
Se chamasse, ninguém vinha.
Para que se há de chamar?

Que caminho estranho!

Eras coisa tão sem forma,
tão sem tempo, tão sem nada...
- arco-íris do meu dilúvio!-
que nem podias ser vista
nem quase mesmo pensada.

Ninguém mais caminha?

A noite bebeu-te as cores
para pintar as estrelas.
Desde então, que é dos meus olhos?
Voaram de mim para as nuvens,
com redes para prendê-las.

Quem te alcançará?

Dentro da noite mais densa,
navegarei sem rumores,
seguindo por onde fores
como um sonho que se pensa.

Por onde é que vou?



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Vaga Música (1942)

16 de mar de 2010

Trinta anos no vale de exílios da sombra



Trinta anos no vale de exílios da sombra,
tua voz se eleva cintilante, responde-me
com seus cristais clarificados, - e sem nenhum rumor.


Fica repleta a noite e meus ouvidos te reconhecem:
os ouvidos que nem estão no meu corpo
nem na memória, mas só no ausente universo do sono.


Eu te digo: “Espera-me! Desculpa-me!
Vou chegar muito tarde!” E não sei se falo
com palavras ou símbolos, nas dimensões submersas do horizonte.


E eu te digo: “Atira-me a chave!” E deploro-me –
e de muito longe vejo a chave que me atiras,
e que receberei como álibi do sobrenatural.


Assim, eu sou agora, ainda que a mesma, também outra,
em mundo paralelo, com a chave da porta invisível,
e o som da tua voz é uma arvore clara que não se ouve,
numa atmosfera absurda –
como se nos fossemos encontrar, um dia, e continuássemos.


Abril, 4, 1963



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

Pela flor amarela viajaremos



Pela flor amarela viajaremos:
afastaremos as nuvens espessas
e as florestas de espinhos.


Pela flor amarela, vamos e voltamos,
por escadas escuras, corredores estreitos,
falando a desconhecidos.


Onde está, dizei-nos, a flor amarela?
Era minha? era vossa? era do seu próprio instante,
era sua, cativa por algum caçador floral?


Pela flor amarela atravessaremos a pedra,
o vidro, o metal, as palavras.
Atravessaremos o coração, como quem se mata.


Atravessaremos um novo mar desconhecido,
correremos Áfricas e Ásias, pólo e tropico,
e jogaremos nossa vida entre as estrelas.


A flor amarela está guardada em si mesma,
seu perfume, sob mil pétalas tranqüilas,
seu pólen resguardado contra o vão descobrimento.


1962



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

5 de mar de 2010

Em algum lugar me encontro deitada


(Roman Zaslonov)


Em algum lugar me encontro deitada
com longos vestidos graves,
como um quadro, tênue de cor, muito sereno.


E reconheço-me.


Não há paisagem nenhuma, apenas um vazio imenso,
a luz de um crepúsculo imóvel,
uma grandiosa quietude.


Em algum lugar me encontro assim deitada,
sem brisa que me altere, presença que me perturbe.
Do céu à terra, de leste a oeste, tudo é muito longe,
infinitamente,
num lugar de nenhum país.


Horizontes de esquecimento circundam a imagem,
a imagem minha que parece venturosa,
que descansa em nobre solidão,
que talvez esteja sonhando
sonhos que jamais conhecerei,
mas que dão a seus olhos fechados
uma plácida curva.


Reconheço-me e ignoro-me.
(Uma noite dentro de outra noite.)


1958



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos

3 de mar de 2010

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Porução de Regina Helena.

23 de fev de 2010

'Apontamento'



Ó noite, ó noite, ó noite!
Luar e primavera
e os telhados cobrindo
sonhos que a vida gera!


Subo por essas horas
solitária e sincera,
e encontro, exausta e pura,
minha alma que me espera.


2, Maio, 1959


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)
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