18 de mai de 2010

O VENTO

(Foto by Fernanado Campanella)

O cipreste inclina-se em fina reverência
e as margaridas estremecem, sobressaltadas.

A grande amendoeira consente que balancem
suas largas folhas transparentes ao sol.

Misturam-se uns aos outros, rápidos e frágeis,
os longos fios da relva, lustrosos, lisos cílios verdes.

Frondes rendadas de acácias palpitam inquietantemente
com o mesmo tremor das samambaias
debruçadas nos vasos.

Fremem os bambus sem sossego,
num insistente ritmo breve.

O vento é o mesmo:
mas sua resposta é diferente, em cada folha.

Somente a árvore seca fica imóvel,
entre borboletas e pássaros.

Como a escada e as colunas de pedra,
ela pertence agora a outro reino.
Se movimento secou também, num desenho inerte.
Jaz perfeita, em sua escultura de cinza densa.

O vento que percorre o jardim
pode subir e descer por seus galhos inúmeros:

ela não responderá mais nada,
hirta e surda, naquele verde mundo sussurrante.


Cecília Meireles
in Mar Absoluto

14 de mai de 2010

Cântico


IV


Adormece o teu corpo com a musica da vida.
Encanta-te.
Esquece-te.
Tem por volúpia a dispersão.
Não queiras ser tu.
Quere ser a alma infinita de tudo.
Troca o teu curto sonho humano
Pelo sonho imortal.
O único.
Vence a miséria de ter medo.
Troca-te pelo Desconhecido.
Não vês, então, que ele é maior?
Não vês que ele não tem fim?
Não vês que ele és tu mesmo?
Tu que andas esquecido de ti?

Cecília Meireles
In: Cânticos (1927)

5 de mai de 2010

Anunciação


Toca essa musica de seda, frouxa e trêmula
que apenas embala a noite e balança as estrelas noutro mar.


Do fundo da escuridão nascem vagos navios de ouro,
com as mãos de esquecidos corpos quase desmanchados no vento.


E o vento bate nas cordas, e estremecem as velas opacas,
e a água derrete um brilho fino, que em si mesmo logo se perde.


Toca essa musica de seda, entre areias e nuvens e espumas.


Os remos pararão no meio da onda, entre os peixes suspensos;
e as cordas partidas andarão pelos ares dançando à toa.


Cessará essa musica de sombra, que apenas indica valores de ar.
Não haverá mais nossa vida, talvez não haja nem o pó que fomos.


E a memória de tudo desmanchará sua dunas desertas,
e em navios novos homens eternos navegarão.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Viagem (1939)

4 de mai de 2010

Busca da rosa


Há longos labirintos, fontes frias,
lábios sem rosto, sinos de doçura,
mas verdes solidões e na espessura
deste bosque onde vou perdendo os dias.
Vim no alado cavalo da Aventura,
ungida por meus votos e magias.
Vim, mas vejo-me só – porque as esguias
asas fugiram, procurando altura.
Insisto nesta busca vagarosa.
Quero ouvir, entre sombra e soledade,
o eco, o arroio, a cascata, a alma do mar
dizerem onde se elabora a rosa
sem morte, sem desejo e sem saudade
que vim de longe para contemplar.


Onde a pessoa encontra um vulto que não é o da rosa


Resigno-me a deixar pender meu rosto
sobre a fonte de encantos que desliza
nestas escuridões – e sinto o gosto
de tua vida: onda, frescura e brisa.
Mas logo vejo armar-se uma imprecisa
sombra de fora, denso muro oposto
a essa doçura – e avança, e escura pisa
mesmo a alegria do meu claro rosto.
Ah! não te posso amar, enamorada
perpetuamente, no êxtase da vida!
Esta é a pausa distante do meu peito.
Não padeças – que eu não te peço nada.
Nem se fica infeliz, por dolorida,
a vagar nestes bosques do Imperfeito.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

3 de mai de 2010

Nuvens dos olhos meus, de altas chuvas paradas


 
Nuvens dos olhos meus, de altas chuvas paradas,
- por chãos de adeuses vão-se os dias em tumulto,
em noites êrmas e saudades longe morre.


Sem testemunha vão passando as horas belas.
Tudo que pôde ser vitória cai perdido,
Sem mãos, sem posse, pela sombra, entre os planêtas.


Tudo é no espaço - desprendido de lugares.
Tudo é no tempo - separado de ponteiros.
E a bôca é apenas instrumento de segredos.


Por que esperais, olhos severos, grandes nuvens?
Tudo se vai, tudo se perde, - e vós, detendo,
num prêso céu, fora da vida, as águas densas

de inalcançáveis rostos amados!


Cecilia Meireles
in Solombra

O que amamos está sempre longe de nós


O que amamos está sempre longe de nós:
E longe mesmo do que amamos—que não sabe
De onde vem, aonde vai nosso impulso de amor.

O que amamos está como a flor na semente,
Entendido com medo e inquietude, talvez.
Só para em nossa morte estar durando sempre.

Como as ervas do chão, como as ondas do mar,
Os acasos se vão cumprindo e vão cessando.
Mas, sem acaso, o amor límpido e exato jaz.

Não necessita nada o que em ti tudo ordena:
Cuja tristeza unicamente pode ser
E equívoco do tempo, os jogos da cegueira

Com setas negras na escuridão.

Cecília Meireles.
in Solombra

30 de abr de 2010

Perspectiva


Tua passagem se fez por distancias antigas.
O silencio dos desertos pesava-lhe nas asas
e, juntamente com ele, o volume das montanhas e do mar.


Tua velocidade desloca mundos e almas.
Por isso, quando passaste, caiu sobre mim tua violência
e desde então alguma coisa se aboliu.


Guardo uma sensação de drama sombrio, com vozes de ondas
lamentando-me, e a multidão das estrelas avermelhadas fugindo
com o céu para longe de mim.


Os dias que vêm são feitos de vento plácido e apagam tudo.
Dispersam a sombra dos gestos sobre os cenários.
Levam dos lábios cada palavra que desponta.
Gastam o contorno da minha síntese.
Acumulam ausência em minha vida...


Oh! um pouco de neve matando, docemente, folha a folha...


Mas a seiva lá dentro continua, sufocada,
nutrindo de sonho a morte.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Viagem (1939)

23 de abr de 2010

Sonho com plantas e gestos amáveis


Em sonho vireis delicadamente
e sem motivo algum
direis palavras amáveis
que vos surpreenderiam
se vos fossem contadas.


Em sonho mandareis colocar no meu terraço
plantas cheias de flores
que todos admirariam,
pois jamais foram vistas
da China à Patagônia
e existem apenas neste sonho.


Jamais saberei o que sonháveis
enquanto eu sonhava com as vossas gentilezas.
Jamais sabereis que tais gentilezas foram sonhadas.


Sem motivo algum,
ficam floridos noutro mundo os meus terraços.
E somente eu poderei pensar nisso.
Somente eu vi tudo isso.


E é como um achado arqueológico,
momentâneo e perene
entre o ar e o pó.


1959



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

21 de abr de 2010

Fala-me agora, que estou cansado

(GUILLAUME SEIGNAC - França-1870 - 1924)


Fala-me agora, que estou cansado,
agora, que já voltaste, e conheces o mundo,
de cada lado.


Fala-me como alguém que já sabe da vida
e da sua seiva mais tenebrosa
e que transporta sua alma partida.


Fala-me como se a morte amanhã chegasse
e pusesse a fria coroa da lua
sobre a tua face.


Fala-me e dize que me ouviste um dia,
e que estavas só, perdido, acabado,
e tiveste alegria.


Fala-me, enfim, como nunca no mundo
ninguém já falou a um irmão, a um amigo
- abre o teu coração até o fundo.


Para que eu morra com o contentamento
de que o meu amor não foi um dom perdido,
lágrima no mar, suspiro no vento.


Que se pode ainda amar como em sonhos antigos,
sem mãos e sem voz, sem olhos, sem passos,
além de glórias e perigos.


Fala-me como alguém que me viu tão de frente
que eu não posso saber se é o meu próprio retrato
num espelho clarividente.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

9 de abr de 2010

Epigramas


I

À bela dama despojada
não lhe restava mais nada,
depois de batalhas ávidas.


Continuava, porém, tão bela,
que inveja dizia: “Àquela
ainda lhe restam as perolas...”


A bela dama despojada
não podia dizer nada.
(Não lhe restavam nem lagrimas.)


II


Não há rosto nenhum! E mesmo o meu, que importa?
E as mãos! – as mãos foram um desenho sem sentido.
Um dia sonhamos que existimos.
Vivemos desse sonho.
E dentro dele fomos tão desgraçados...


Quando recordaremos esse sonho sonhado?
Onde recordaremos esse sonho acabado?


Quem seremos, depois dessa antiga aventura,
e em que abismos de lembrança
despiremos, afinal, esta couraça tênue de vida,
esta opressão e esta fragilidade,
este martírio vago e perseverante da memória?


III


Sobre uma flor dormiríamos
e o vento nos dividiria com suas numerosas laminas.


Sobre uma flor. Sem rastros.
Sem espelho. Sem nome.
Ah! mas em que translúcido tempo?


IV


Não descerias em mim, porque a minha torrente
desmancharia o teu frágil momento
no rápido transito.


Fica só refletida, e as ondas que passarem
todas irão levando a ausência do teu rosto,
que será presença sem fim.


Não queiras ter a morte inglória dos encontros.
Mas a eterna, a profunda vida, no reflexo
que por onde passar te levará.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

7 de abr de 2010

Epigrama n° 1


Pousa sobre esses espetáculos infatigáveis
uma sonora ou silenciosa canção:
flor do espírito, desinteressada e efêmera.


Por ela, os homens te conhecerão:
por ela, os tempos versáteis saberão
que o mundo ficou mais belo, ainda que inutilmente,
quando por ele andou teu coração.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Viagem (1939)

22 de mar de 2010

Itinerário



Primeiro, foram os verdes
e águas e pedras da tarde,
e meus sonhos de perder-te
e meus sonhos de encontrar-te...


Mas depois houve caminhos
pelas florestas lunares,
e, mortos em meus ouvidos,
mares brancos de palavras.


Achei lugares serenos
e aromas de fonte extinta.
Raízes fora do tempo,
com flores vivas ainda.


E eram flores encarnadas,
por cima das folhas verdes.
(Entre os espinhos de prata,
só meus sonhos de perder-te...)



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Vaga Música (1942)

Cantiguinha



Brota esta lagrima e cai.
Vêm de mim, mas não é minha.
Percebe-se que caminha,
sem que se saiba aonde vai.


Parece angustia espremida
de meu negro coração
- pelos meus olhos fugida
e quebrada em minha mão.


Mas é rio, mais profundo,
sem nascimento e sem fim,
que, atravessando este mundo,
passou por dentro de mim.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Vaga Música (1942)

21 de mar de 2010

Viagem



No perfume dos meus dedos,
há um gosto de sofrimento,
como o sangue dos segredos
no gume do pensamento.

Por onde é que vou?

Fechei as portas sozinha.
Custaram tanto a rodar!
Se chamasse, ninguém vinha.
Para que se há de chamar?

Que caminho estranho!

Eras coisa tão sem forma,
tão sem tempo, tão sem nada...
- arco-íris do meu dilúvio!-
que nem podias ser vista
nem quase mesmo pensada.

Ninguém mais caminha?

A noite bebeu-te as cores
para pintar as estrelas.
Desde então, que é dos meus olhos?
Voaram de mim para as nuvens,
com redes para prendê-las.

Quem te alcançará?

Dentro da noite mais densa,
navegarei sem rumores,
seguindo por onde fores
como um sonho que se pensa.

Por onde é que vou?



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Vaga Música (1942)

16 de mar de 2010

Trinta anos no vale de exílios da sombra



Trinta anos no vale de exílios da sombra,
tua voz se eleva cintilante, responde-me
com seus cristais clarificados, - e sem nenhum rumor.


Fica repleta a noite e meus ouvidos te reconhecem:
os ouvidos que nem estão no meu corpo
nem na memória, mas só no ausente universo do sono.


Eu te digo: “Espera-me! Desculpa-me!
Vou chegar muito tarde!” E não sei se falo
com palavras ou símbolos, nas dimensões submersas do horizonte.


E eu te digo: “Atira-me a chave!” E deploro-me –
e de muito longe vejo a chave que me atiras,
e que receberei como álibi do sobrenatural.


Assim, eu sou agora, ainda que a mesma, também outra,
em mundo paralelo, com a chave da porta invisível,
e o som da tua voz é uma arvore clara que não se ouve,
numa atmosfera absurda –
como se nos fossemos encontrar, um dia, e continuássemos.


Abril, 4, 1963



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)
Seja bem-vindo. Hoje é