16 de fev de 2011

Improviso


Eu mesma sou a culpada
dos malefícios alheios.
A quem não podia nada
eu é que fui dar os meios
para me ver maltratada.


Vai correndo, fonte pura,
não mires quem te bebeu.
Não queiras ver a criatura
que se nutriu do que é teu.
Salva-te da desventura!


Cecília Meireles
In: Retrato Natural

14 de fev de 2011

Timidez


Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

— mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

— palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

— que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...

— e um dia me acabarei.


Cecília Meireles
De 'Viagem'

13 de fev de 2011

Os dois lados do realejo


Pelo lado de cima,
o realejo é como um altar barroco,
de colunas douradas, flores grandiosas,
conchas crespas, abraço de volutas e fitas.


Pelo lado de cima,
o realejo é um pátio mágico,
onde cantam os pássaros e jorram os repuxos,
com requebros de dança
e festas de amor.


E das altas janelas voam para o realejo
pequenas moedas cintilantes,
libélulas douradas,
borboletas de prata,
pedacinhos de sol
gravitando na musica.


Do lado de baixo, a rodar a manivela,
há um homem sem emprego,
que alegra a rua.
mas tem os olhos graves.


Uns olhos que viram rios de sangue
em redor daquelas casas.
Rios de guerra,
onde boiou sua gente fuzilada e sem culpa.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Viagem (1939)

10 de fev de 2011

Desventura


Tu és como o rosto das rosas:
diferente em cada pétala.


Onde estava o teu perfume? Ninguém soube.
Teu lábio sorriu para todos os ventos
e o mundo inteiro ficou feliz.


Eu, só eu, encontrei a gota de orvalho que te alimentava,
como um segredo que cai do sonho.


Depois, abri as mãos, - e perdeu-se.


Agora, creio que vou morrer.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Viagem (1939)

23 de jan de 2011

Canção do Amor-Perfeito

(Picture by Willem Haenraets)


O tempo seca a beleza,
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.


O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lagrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.


O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.


Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque,
mão na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.



Cecília Meireles
In: Retrato Natural

4 de nov de 2010

Eu sou essa pessoa a quem o vento chama...''


Eu sou essa pessoa, a quem o vento chama,
a que não se recusa a esse final convite,
em máquinas de adeus, sem tentação de volta.

Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza.
Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:
iá de horizonte libertada, mas sozinha.

Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,
dizei-me:não quereis ou não sabeis ser sonho?
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.

Pelos mundos do vento, em meus cílios guardadas
vão as medidas que separam os abraços.
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:

"Agora és livre, se ainda recordas."

Cecília Meireles
in 'Solombra'

'Caminho pelo acaso dos meus muros'


Caminho pelo acaso dos meus muros,
buscando a explicação de meus segredos.
E apenas vejo mãos de brando aceno,

olhos com jaspes frágeis de distância,
lábios em que a palavra se interrompe;
medusas da alta noite e espumas breves.

Uma parábola invisível sabe
o rumo sossegado e vitorioso
em que minha alma, tão desconhecida,

vai ficando sem mim, livre em delícia,
como um vento que os ares não fabricam.
Solidão, solidão e amor completo.

Êxtase longo de ilusão nenhuma.


Cecília Meireles
in 'Solombra'

'Para pensar em ti todas as horas fogem'


Para pensar em ti todas as horas fogem;
o tempo humano expira em lágrimas e cegueira.
Tudo são praias onde o mar afoga o amor.

Quero a insônia, a vigília, uma clarividência
deste instante que habito - ai, meu domínio triste!,
ilha onde eu mesma nada sei fazer por mim.

Vejo a flor, vejo no ar a mensagem das nuvens,
- e na minha memória és imortalidade -
vejo as datas, escuto o próprio coração,

E depois o silêncio. E teus olhos abertos
nos meus fechados. E esta ausência em minha boca:
pois bem sei que falar é o mesmo que morrer.

Da vida à Vida, suspensas fugas.


Cecilia Meireles
in 'Solombra'

15 de out de 2010

Dai-me algumas palavras...


Dai-me algumas palavras,
- porém, somente algumas! –
que às vezes apetece,
pelos jardins da areia,
colher flores de espuma.


Deixai, deixai, secreto,
o silencio que dorme
ás portas da minha alma,
guardando os labirintos
e as esfinges enormes.


(O silencio caído
com seus firmes oceanos
- onde não há mais nada
dos litorais do mundo
nem do périplo humano!



Cecília Meireles
In: Canções (1956)

Ó peso do coração!


Ó peso do coração!
Na grande noite da vida,
teus pesares que serão?


A sorte amadurecida
resplandece em minha mão:
lúcida, clara, polida.


Nem saudade nem paixão
nem morte nem despedida
seu brilho escurecerão.


Na grande noite da vida
brilha a sorte. O coração,
porém, é a dor desmedida.


Maior que a sorte e que a vida...



Cecília Meireles
In: Canções (1956)

Virgem, no teu coração...


Virgem, no teu coração,
sete espadas encontrei.
Sete vezes sete são
as minhas, segundo a Lei.


(Sangue que corres, por quem
minhas veias deixarás?
Morre-se só. E a ninguém
com o morrer se deixa em paz!)


Num cego mundo sem fim,
é bem que se morra só.
Virgem, lembra-te de mim,
deste meu misero pó,


que foi coração também,
todo recortado de ais,
e já nem espaço tem
para outras espadas mais!


Virgem, no teu coração,
sete espadas enconteri.
Pelas tuas, chorarão.
Pelas minhas, não chorei.



Cecília Meireles
In: Canções (1956)

23 de set de 2010

Para os livros, cujo perfume

Para os livros, cujo perfume
de campo e verniz fascinava
meus olhos e meu pensamento,
não tenho tempo.


Para a flor, o linho, a ramagem,
a cor, que me arrastavam como
por um bosque múrmuro e denso,
não tenho tempo.


Nem para o mar, nem para as nuvens,
nem para a estrela que adorava
não tenho, não tenho, não tenho
não tenho tempo.


Canta o pássaro inútil ritmo,
os homens passam como sombras,
e o mundo é um largo e doido vento.
Não tenho tempo.


Longe, sozinha, arrebatada,
entro no circulo secreto
e a mim mesma não me pertenço.
Não tenho tempo.


Oh, tantas coisas, tantas coisas
que a alma servira com delicia...
(São nebulosas de silencio...)
Não tenho tempo.


Lagrimas detidas – meus olhos.
Sofro, porem já não batalho
entre saudade e esquecimento.
Não tenho tempo.


Aonde me levam? Que destino
governa a delirante vida?
Nem hei de morrer como penso.
Não tenho tempo.


Tão longe esforço, e tão penoso
- e agora fechado o horizonte.
Ó vida, inefável momento,
- não tenho tempo...



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

Desenho


Fui morena e magrinha como qualquer polinésia,
e comia mamão, e mirava a flor da goiaba.
E as lágrimas me espiavam, entre os tijolos e as trepadeiras,
e as teias de aranha nas minhas árvores se entrelaçavam

Isso era um lugar de sol e nuvens brancas,
onde as rolas, à tarde, soluçavam mui saudosas...
O eco, burlão, de pedra, ia saltando,
entre vastas mangueiras que choviam ruivas horas.

Os pavões caminhavam tão naturais por meu caminho,
e os pombos tão felizes se alimentavam pelas escadas,
que era desnecessário crescer, pensar, escrever poemas,
pois a vida completa e bela e terna ali já estava.

Com a chuva caía das grossas nuvens, perfumosa!
E o papagaio como ficava sonolento!
O relógio era festa de ouro; e os gatos enigmáticos
fechavam os olhos, quando queriam caçar o tempo.

Vinham morcegos, à noite, picar os sapotis maduros,
e os grandes cães ladravam como nas noites do Império.
Mariposas, jasmins, tinhorões, vaga-lumes
moravam nos jardins sussurrantes e eternos.

E minha avó cantava e cosia. Cantava
canções de mar e de arvoredo, em língua antiga.
E eu sempre acreditei que havia música em seus dedos
e palavras de amor em minha roupa escritas.

Minha vida começa num vergel colorido,
por onde as noites eram só de luar e estrelas.
Levai-me aonde quiserdes! - aprendi com as primaveras
a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.


Cecília Meireles
In Mar Absoluto

17 de set de 2010

Personagem

(Paint by Caty Milner)

São os espelhos que me revelam:
Sem eles eu talvez não soubesse de mim.


Personagem incerto:
alguma dimensão, para demarcar-me.


Densidade suficiente para as quedas.
Às vezes, uma perplexa luz.


De nome não se fala, por desnecessário.
De origem não se sabe o que dizer.


Esta unidade insuficiente,
que não consegue ser sozinha.


Sim, conseguiria, se tudo não fossem agressões,
de dentro e de fora.


Que obediência, que disciplina é preciso aceitar?
Que genealogias se impõem?
Flutua-se num rio caudaloso e baço:
toas as gerações já passaram – e que souberam de proveitoso?
De onde provinham? Como se encadearam seus rostos?
Viveram suas obrigações. Que deixaram?
Tudo se perde na origem anônima,
Nessa negra fonte cega.


Que posso eu ter com essas vidas passadas,
se elas nada afinal têm com a minha?
Que somos todos um sangue?
Ah! cada um vive o seu sangue separadamente!



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

27 de ago de 2010

Papeis

(Paint by Doreen Straarup)
I

Tão aflita, perguntava-me: “Por que vim? Por que vim?” Era a noite, em
redor. O grande cobertor da noite envolvia-me, opaco, abafava o mundo,
as lagrimas, as lembranças – e o mistério do dia seguinte. E os olhos
abertos não viam nada, na fina cegueira da treva: a parede mais próxima
estava tão longe quanto o horizonte, o universo, Deus. Inclinava a cabeça
nos pulsos onde a idéia da vida batia, batia. Batia desde muito tempo, com
o mesmo compasso, regular seguro, obediente. Batera assim no meio do
céu e no meio do mar, nas ruas todas da terra entre coisas banais e coisas
que pareciam tão graves. Batera assim diante de cóleras, vaidades, mortes,
incompreensões. Batera. Batera assim nos campos da infância, na eterna
madrugada. E houve infância?

II

A infância era uma vastidão de silencio, por mais que cantassem os
pássaros, e que as tempestades rugissem entre os trovões e o vento.
Por mais que as ruas se enchessem de vozerio, que as conversas
familiares circulassem pelas mesas, pelas salas, pelos jardins. A infância
era aquela voz presa atrás de muros. Aquela pergunta a subir no tempo.
Que só o tempo responderá.


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
Seja bem-vindo. Hoje é