9 de ago de 2011

Pranto no mar

Eu sempre te disse que era grande o oceano
para a nossa pequena barca.
Cantavas, quando eu te dava o desengano
de partir por água tão larga.


Não, tu não devias ter ido.
Mas foi tempo perdido.


Eu sempre te disse que os olhos de um morto
ficavam nas águas suspensos,
procurando os vivos, os mastros, o porto,
na oscilação de águas e ventos.


Não, tu não devias ter ido.
Mas era amor perdido.
Teço velas negras para a barca nova,
redes de prata para as ondas.
Ensinai-me, peixes, sua funda cova
nestas escuridões tão longas!


Não, tu não devias ter ido.
E isto é pranto perdido.



Cecília Meireles
In: Retrato Natural

Cantata vesperal

Cerrai-vos, olhos, que é tarde, e longe,
e acabou-se a festa do mundo:
começam as saudades hoje.


Longos adeuses pelas varandas
perdem-se; e vão fugindo em mármore
cascatas céleres de escadas.


Pelos portões não passam mais sombras,
nem há mais vozes que se entendam
nas distancias que o céu desdobra.


As ruas levam a mares densos.
E pelos mares fogem barcas
sem esperanças de endereços.



Cecília Meireles
In: Retrato Natural


14 de jul de 2011

Dos campos do Relativo

Dos campos do Relativo
escapei.
se perguntam como vivo,
que direi?

De um salto firme e tremendo,
- tão de além! –
chega-se onde estou vivendo
sem ninguém.

Gostava de estar contigo:
mas fugi.
Hoje, o que sonho, consigo,
já sem ti.

Verei, como quem sempre ama,
que te vais.
Não se volta, não se chama
nunca mais.

Os campos do Relativo
serão teus.
Se perguntam como vivo?
- De adeus.


Cecília Meireles
In: Canções (1956)

4 de jul de 2011

Um

O rumor do mundo vai perdendo a força,
e os rostos e as falas são falsos e avulsos.
O tempo versátil foge por esquinas
de vidro, de seda, de abraços difusos.


A lua que chega traz outros convites:
inclina em meus olhos o celeste mapa,
desmorona os punhos crispados do dia,
desenha caminhos, transparente e abstrata.


Arvores da noite... Pensamento amante...
- Transporta-me a sombra, na altura profunda,
aos campos felizes onde se desprende
o diurno limite de cada criatura.


É a noite sem elos... Inocência eterna,
isenta de mortes e natividades,
pura e solitária, deslembrada, alheia,
mudamente aberta para extremas viagens.


Eu mesma não vejo quem sou, na alta noite,
nem creio que SEJA: perduro em memória,
à mercê dos ventos, das brumas nascidas
nos dormentes lagos que ao luar se evaporam.


Recebo teu nome também repartido,
quebrado nos diques, levado nas flores...
Quem sabe teu nome – tão longe, tão tarde,
tão fora do tempo, do reino dos homens...?



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Doze Noturnos da Holanda & O Aeronauta (1952)

13 de jun de 2011

Amor, ventura,...


Amor, ventura,
não tenho.
Mas dor obscura
e tempo.


Deus encoberto
não vejo,
mas perto e certo
o entendo.


Viver, não vivo:
contemplo
meu sonho ativo
e isento.


Que mundo existe,
suspenso,
depois de um triste
degredo?


Não quero o acaso!
E penso:
lavra o meu prazo
que vento?



Cecília Meireles
In: Canções

Única sobrevivente...


Única sobrevivente
de uma casa desabada
- só eu me achava acordada.


E recordo a minha gente,
na noite sem madrugada.
Só eu me achava acordada.


Minha morte é diferente:
eles não souberam nada.
Só eu me achava acordada.


Mas quem sabe o que se sente,
entre ir na casa afundada
e ter ficado – acordada!?



Cecília Meireles
In: Canções

2 de jun de 2011

Imagem


Uma pobre velhinha franzida e amarelada
sentou-se num banco, em Paris.
A tarde cinzenta andava atrás dela
como um triste gato de feltro e flanela,
igualmente exausta e infeliz.
Entretanto, aquela cidade, aquela
é a maior do mundo, segundo se diz.
E não só maior – mas alegre e bela:
é a cidade chamada Paris.


Por que há uma velhinha tão triste e amarela
sentada num banco em forma de X?
Nunca vi ninguém mais triste do que ela,
em tarde nenhuma de nenhum país.


Nas mãos, uma chave – de que bairro, viela,
porta, corredor, mansarda, canela? –
com um desenho de flor-de-lis.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Viagem (1939)

20 de mai de 2011

Canção


Se não chover nem ventar,
se a lua e o sol forem limpos
e houver festa pelo mar
- ir-te-ei visitar.


Se o chão se cobrir de flor,
e o endereço estiver claro,
e o mundo livre de dor
- ir-te-ei ver, amor.


Se o tempo não tiver fim,
se a terra e o céu se encontrarem
à porta do teu jardim
- espera por mim.


Cantarei minha canção
com violas de eternamente
que são de alma e em alma estão.
- De outro modo, não.

Maio, 1960



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

Elegia


Destes obscuros canteiros da alma,
destes bosques do coração,
desta melancolia da morte
sobem as vozes, com ramos de lágrimas.


Assim partis,
sem terras, ares, mares:
só pela invisibilidade,
sem saberdes sequer que estais partindo.


Não nos podemos mais saudar nem despedir,
ó amigos,
nem repartir o pão da nossa mesa
e a luz dos nossos sonhos.


Sois agora como estátuas
em solidões silenciosas,
entre solenes paredes de saudade,
em sítios suspensos do pensamento.


Mais longe que aquela nuvem.
Mais longe que qualquer céu.
Podemos pensar mais longe.
E quereríamos que um dia voltásseis,


para sermos outra vez amigos.
(Ramos de lágrimas, as vozes.)



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

11 de mai de 2011

Papeis


I

Tão aflita, perguntava-me: “Por que vim? Por que vim?” Era a note, em
redor. O grande cobertor da noite envolvia-me, opaco, abafava o mundo,
as lagrimas, as lembranças – e o mistério do dia seguinte. E os olhos
abertos não viam nada, na fina cegueira da treva: a parede mais próxima
estava tão longe quanto o horizonte, o universo, Deus. Inclinava a cabeça
nos pulsos onde a idéia da vida batia, batia. Batia desde muito tempo, com
o mesmo compasso, regular seguro, obediente. Batera assim no meio do
céu e no meio do mar, nas ruas todas da terra entre coisas banais e coisas
que pareciam tão graves. Batera assim diante de cóleras, vaidades, mortes,
incompreensões. Batera. Batera assim nos campos da infância, na eterna
madrugada. E houve infância?



II

A infância era uma vastidão de silencio, por mais que cantassem os
pássaros, e que as tempestades rugissem entre os trovões e o vento.
Por mais que as ruas se enchessem de vozerio, que as conversas
familiares circulassem pelas mesas, pelas salas, pelos jardins. A infância
era aquela voz presa atrás de muros. Aquela pergunta a subir no tempo.
Que só o tempo responderá.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

2 de mai de 2011

O rosto que me encontro...


O rosto que me encontro
e que a nuvem contempla
vai-se mudando noutro
só pelo que relembra.


De caminhos andados,
se levanta e suspira,
contando sonhos gastos
e palavras perdidas.


Tudo o que parecia,
tudo quanto não era,
tirou-lhe o gosto à vida
e a ternura da terra.


Guardei para o silencio
os tempos de renuncia:
quando meus sonhos penso,
vejo que sempre é nunca.


E é tão bela a tristeza,
que nem o amor alado
deixará dentro dela
mais que um desenho vago.


(Areia que aparece
dentro de águas que fogem,
sinto que te disperses
pela memória, longe...)



Cecília Meireles
In: Canções (1956)

6 de abr de 2011

Canção do Amor-Perfeito


Eu vi o raio de sol
beijar o outono.
Eu vi na mão dos adeuses
o anel de ouro.
Não quero dizer o dia.
Não posso dizer o dono.


Eu vi bandeiras abertas
sobre o mar largo
e ouvi cantar as sereias.
Longe, num barco,
deixei meus olhos alegres,
trouxe meu sorriso amargo.


Bem no regaço da lua,
já não padeço.


Ai, seja como quiseres,
Amor-Perfeito,
gostaria que ficasses,
mas, se fores, não te esqueço.



Cecília Meireles
In: Retrato Natural

Desenho


Arvore da noite
com ramos azuis
até o horizonte.


Estendi meus braços,
e apenas achei
nevoeiros esparsos.


O resto era sonho
no profundo fim
da vida e da noite.


A memória em pranto
os ramos azuis
fica procurando.


E de olhos fechados
vejo longe, sós,
meus alados braços.


Ó noite, azul, arvore...
Suspiro a subir
muro de saudade!



Cecília Meireles
In: Retrato Natural

30 de mar de 2011

As valsas


Como se desfazem as valsas
por longos pianos aéreos
que a noite envolve em suas chuvas!
Que ternura nas nossas pálpebras,
pelo exílio suave dos gestos
e dos perfis de antigas musicas!


Os marfins opacos recordam,
com uma graça desiludida,
a aura da morta formosura.
Gente de sonho, sem memória,
entrelaçada, conduzida
por salões de esperanças e duvida.


E eram tão leves, nessas valsas!
E levavam lagrimas entre
seus colares e suas luvas!
E falavam de suas magoas,
valsando, e delicadamente,
com a voz presa e as pestanas úmidas!


Ah, tão longe, tão longe, as salas...
Levados os lustres as vidas,
o amor triste, a humildade loucura...
Ficaram apenas as valsas,
girando cegas e sozinhas,
sem os habitantes da musica!



Cecília Meireles
In: Retrato Natural

25 de mar de 2011

Cantiga Outonal


Outono. As árvores pensando ...
Tristezas mórbidas no mar ...
O vento passa, brando ... brando ...
E sinto medo, susto, quando
Escuto o vento assim passar ...

Outono. Eu tenho a alma coberta
De folhas mortas, em que o luar
Chora, alta noite, na deserta
Quietude triste da hora incerta
Que cai do tempo, devagar ...

Outono. E quando o vento agita,
Agita os galhos negros, no ar,
Minha alma sofre e põe-se aflita,
Na inconsolável, na infinita
Pena de ter de se esfolhar ...


Cecília Meireles
de 'Nunca Mais e Poema dos Poemas'
Seja bem-vindo. Hoje é