8 de nov de 2011

PAPÉIS – V –


Mas por que sempre lembrar essas coisas longínquas?
A verdade, porém é que há uns dias inesquecíveis,
uns fatos inesquecíveis, dentro de nós.
Tudo o mais, que vivemos, gira em redor deles.
Toda uma vida se reduz, afinal, a umas poucas emoções,
por muitos anos que vivamos,
apesar de viagens, experiências, realizações, sonhos, saber...
Vivemos tudo – o humano e o universal –
nuns pequenos instantes, obscuros e essenciais.

Todos os dias assim, de chuvinha fina,
penso em velhas cenas de infância:
a tarde em que comia um pedaço de maçã
e conheci o arco íris;
o livro em que estudava francês,
com uma gravura de crianças felizes, que riam para o ar:
La pluie;
a minha solidão com tesouras, cola e cartolina:
“Brinquedos para os dias de chuva...”

Tudo isso vem `a minha memória, como visitantes inesperados.
Interrompo o que estou fazendo, tenho um pena imensa de mim.
Depois, penso em velhos poemas chineses, curtos e leves.

Sou como quem mira uma antiga coleção de cartões-postais.



Setembro, 1955


Cecília Meireles.
Antologia Poética . p. 168/9

24 de set de 2011

A NOITE

A noite é essa escuridão tão envolvente
que parece um exercício de morte:
assim vai desaparecendo tudo,
assim desaparecemos dos outros
e de nós.

Apenas respiramos.
Podem cortar esse último fio
— e o tear que somos se imobiliza.

A noite esconde a terra, o céu a casa,
os vossos rostos.

Estou novamente dentro de uma entranha?
Humana? Cósmica? Em que entranha me aninho,
onde se enrola o novelo da minha memória,
em que cofre, na escuridão?

Nossas asas estão docemente fechadas
e nossos olhos moram no pensamento.

Cada um tem a sua noite.
Cada coisa.
E tudo está na sua noite,
enquanto é noite.

O dia é um bailarino com sinos e espelhos

Interrompemos a treva onde aprendíamos lembranças;
e somos de repente uns falsos acordados.

1960

Cecília Meireles.
In: ‘O Estudante Empírico’ p. 9/10

23 de set de 2011

...

Ciência, amor, sabedoria,
- tudo jaz muito longe, sempre...
(Imensamente fora do nosso alcance!)
...
Desmancha-se o átomo,
domina-se a lágrima,
vence-se o abismo:
- cai-se, porém, logo de bruços e de olhos fechados,
e é-se um pequeno segredo
sobre um grande segredo.

Tristes ainda seremos por muito tempo,
embora de uma nobre tristeza,
nós, os que o sol e a lua
todos os dias encontram,
no espelho do silêncio refletidos,
neste longo exercício de alma.

1955

Cecília Meireles
In "Poesia Completa",
Ed. Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1993, pag 1083

'Elegia a uma pequena borboleta'

Como chegavas do casulo,
— inacabada seda viva —
tuas antenas — fios soltos
da trama de que eras tecida,
e teus olhos, dois grãos da noite
de onde o teu mistério surgia,

como caíste sobre o mundo
inábil, na manhã tão clara,
sem mãe, sem guia, sem conselho,
e rolavas por uma escada
como papel, penugem, poeira,
com mais sonho e silêncio que asas,

minha mão tosca te agarrou
com uma dura, inocente culpa,
e é cinza de lua teu corpo,
meus dedos, sua sepultura.
Já desfeita e ainda palpitante,
expiras sem noção nenhuma.

Ó bordado do véu do dia,
transparente anêmona aérea!
não leves meu rosto contigo:
leva o pranto que te celebra,
no olho precário em que te acabas,
meu remorso ajoelhado leva!

Choro a tua forma violada,
miraculosa, alva, divina,
criatura de pólen, de aragem,
diáfana pétala da vida!
Choro ter pesado em teu corpo
que no estame não pesaria.

Choro esta humana insuficiência:
— a confusão dos nossos olhos
— o selvagem peso do gesto,
— cegueira — ignorância — remotos
instintos súbitos — violências
que o sonho e a graça prostram mortos

Pudesse a etéreos paraísos
ascender teu leve fantasma,
e meu coração penitente
ser a rosa desabrochada
para servir-te mel e aroma,
por toda a eternidade escrava!

E as lágrimas que por ti choro
fossem o orvalho desses campos,
— os espelhos que refletissem
— vôo e silêncio — os teus encantos,
com a ternura humilde e o remorso
dos meus desacertos humanos!

De: MEIRELES, Cecília. “Retrato natural”. In: Obra poética. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.

23 de ago de 2011

XXI


O teu começo vem de muito longe.
O teu fim termina no teu começo.
Contempla-te em redor.
Compara.
Tudo é o mesmo.
Tudo é sem mudança.
Só as cores e as linhas mudaram.
Que importa as cores, para o Senhor da Luz?
Dentro das cores a luz é a mesma.
Que importa as linhas, para o Senhor do Ritmo?
Dentro das linhas o ritmo é igual.
Os outros vêem com os olhos ensombrados.
Que o mundo perturbou,
Com as novas formas.
Com as novas tintas.
Tu verás com os teus olhos.
Em sabedoria.
E verás muito além.


Cecília Meireles
de 'Cânticos'

9 de ago de 2011

Adivinhação do personagem

Algum tamanho e peso.
Densidade para as quedas.
No entanto, alguma luz.


As peças anatômicas em seus lugares certos.
Nada porem digno de extrema admiração:
Nem Apolo nem Adônis.
Personagem, porém, personagem.


Olha, vê, não vê, não sabe, não se sabe o que vê e não vê.
Fala, pensa, não pensa, não sabe, nem se sabe, se pensa e não pensa.
Olha, fala.


Move-se.
Ele mesmo não sabe, para onde.
Move-se contraditório
com os pés na terra, mas a cabeça
e num mundo invisível de mil pólos.


Personagem: sente-se, não se sente, não se sabe nem sabe como e por quê.


Pode estar em tantos lugares,
pode ser tantas vidas.
Homem, animal, planta, pedra,
tudo que inventar e quiser.
Poderá ser deus?
Sonha-se.


Personagem de cidades e eras arbitrarias,
com os seus idiomas confusos
em labirintos de idéias, de heranças, de ímpetos.


Ama, desama,
desmonta seus mecanismos, de repente, devagar.
Por quê? Sabe, não sabe, decide, arrepende-se.


Tem lagrimas inesperadas, alegrias –
quando ficar triste? quando vai ser feliz?


Personagem que lembra e esquece querendo e sem querer.


Tem quatro pés, dois pés, três pés.
Depois continua a marchar sem necessidade de pés,
e voa sem ter asas.


Com densidade para as quedas
e presságios de luz.
todos os dias são de êxodo
para um lugar que a Esfinge se esqueceu de dizer.


Permite, dolorido personagem.

1961



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

Canção



Era um rosto
na noite larga
de altas insônias
iluminada.


Serás um dia
vago retrato
de quem se diga:
“o antepassado”.


Eras um poema
cujas palavras
cresciam dentre
mistério e lagrimas.


Serás silencio,
tempo sem rastro,
de esquecimentos
atravessado.


Disso é que sofre
a amargurada
flor da memória
que ao vento fala.



Cecília Meireles
In: Retrato Natural

Pranto no mar

Eu sempre te disse que era grande o oceano
para a nossa pequena barca.
Cantavas, quando eu te dava o desengano
de partir por água tão larga.


Não, tu não devias ter ido.
Mas foi tempo perdido.


Eu sempre te disse que os olhos de um morto
ficavam nas águas suspensos,
procurando os vivos, os mastros, o porto,
na oscilação de águas e ventos.


Não, tu não devias ter ido.
Mas era amor perdido.
Teço velas negras para a barca nova,
redes de prata para as ondas.
Ensinai-me, peixes, sua funda cova
nestas escuridões tão longas!


Não, tu não devias ter ido.
E isto é pranto perdido.



Cecília Meireles
In: Retrato Natural

Cantata vesperal

Cerrai-vos, olhos, que é tarde, e longe,
e acabou-se a festa do mundo:
começam as saudades hoje.


Longos adeuses pelas varandas
perdem-se; e vão fugindo em mármore
cascatas céleres de escadas.


Pelos portões não passam mais sombras,
nem há mais vozes que se entendam
nas distancias que o céu desdobra.


As ruas levam a mares densos.
E pelos mares fogem barcas
sem esperanças de endereços.



Cecília Meireles
In: Retrato Natural


14 de jul de 2011

Dos campos do Relativo

Dos campos do Relativo
escapei.
se perguntam como vivo,
que direi?

De um salto firme e tremendo,
- tão de além! –
chega-se onde estou vivendo
sem ninguém.

Gostava de estar contigo:
mas fugi.
Hoje, o que sonho, consigo,
já sem ti.

Verei, como quem sempre ama,
que te vais.
Não se volta, não se chama
nunca mais.

Os campos do Relativo
serão teus.
Se perguntam como vivo?
- De adeus.


Cecília Meireles
In: Canções (1956)

4 de jul de 2011

Um

O rumor do mundo vai perdendo a força,
e os rostos e as falas são falsos e avulsos.
O tempo versátil foge por esquinas
de vidro, de seda, de abraços difusos.


A lua que chega traz outros convites:
inclina em meus olhos o celeste mapa,
desmorona os punhos crispados do dia,
desenha caminhos, transparente e abstrata.


Arvores da noite... Pensamento amante...
- Transporta-me a sombra, na altura profunda,
aos campos felizes onde se desprende
o diurno limite de cada criatura.


É a noite sem elos... Inocência eterna,
isenta de mortes e natividades,
pura e solitária, deslembrada, alheia,
mudamente aberta para extremas viagens.


Eu mesma não vejo quem sou, na alta noite,
nem creio que SEJA: perduro em memória,
à mercê dos ventos, das brumas nascidas
nos dormentes lagos que ao luar se evaporam.


Recebo teu nome também repartido,
quebrado nos diques, levado nas flores...
Quem sabe teu nome – tão longe, tão tarde,
tão fora do tempo, do reino dos homens...?



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Doze Noturnos da Holanda & O Aeronauta (1952)

13 de jun de 2011

Amor, ventura,...


Amor, ventura,
não tenho.
Mas dor obscura
e tempo.


Deus encoberto
não vejo,
mas perto e certo
o entendo.


Viver, não vivo:
contemplo
meu sonho ativo
e isento.


Que mundo existe,
suspenso,
depois de um triste
degredo?


Não quero o acaso!
E penso:
lavra o meu prazo
que vento?



Cecília Meireles
In: Canções

Única sobrevivente...


Única sobrevivente
de uma casa desabada
- só eu me achava acordada.


E recordo a minha gente,
na noite sem madrugada.
Só eu me achava acordada.


Minha morte é diferente:
eles não souberam nada.
Só eu me achava acordada.


Mas quem sabe o que se sente,
entre ir na casa afundada
e ter ficado – acordada!?



Cecília Meireles
In: Canções

2 de jun de 2011

Imagem


Uma pobre velhinha franzida e amarelada
sentou-se num banco, em Paris.
A tarde cinzenta andava atrás dela
como um triste gato de feltro e flanela,
igualmente exausta e infeliz.
Entretanto, aquela cidade, aquela
é a maior do mundo, segundo se diz.
E não só maior – mas alegre e bela:
é a cidade chamada Paris.


Por que há uma velhinha tão triste e amarela
sentada num banco em forma de X?
Nunca vi ninguém mais triste do que ela,
em tarde nenhuma de nenhum país.


Nas mãos, uma chave – de que bairro, viela,
porta, corredor, mansarda, canela? –
com um desenho de flor-de-lis.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Viagem (1939)

20 de mai de 2011

Canção


Se não chover nem ventar,
se a lua e o sol forem limpos
e houver festa pelo mar
- ir-te-ei visitar.


Se o chão se cobrir de flor,
e o endereço estiver claro,
e o mundo livre de dor
- ir-te-ei ver, amor.


Se o tempo não tiver fim,
se a terra e o céu se encontrarem
à porta do teu jardim
- espera por mim.


Cantarei minha canção
com violas de eternamente
que são de alma e em alma estão.
- De outro modo, não.

Maio, 1960



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
Seja bem-vindo. Hoje é