15 de mar de 2012
"PROFUNDIDADE DA INSÔNIA"
Na insônia feliz é que se conhece o aroma certo
das fronhas, das madeiras, do ar, das sombras, e se escuta
o casual grito das aves, acordando
como em parques de outros países, noutros séculos.
Tilintam em subsolos imaginários
campainhas de insetos, em cortejos de gnomos,
Oh ! as nossas tranças, como estão cheias de bosques abraçados,
com arroios atravessando muros, cidades, meses...
Insônia feliz, na silenciosa solidão humana.
insônia acesa sobre o tempo.
E o braço dos santos,se levanta, grave e sem mãos,
nos arruinados oratórios,
com as bênçãos perdidas no ar de cera e flores mortas.
Ah , na insônia feliz é que as ausências se aproximam,
nos corredores da memória, hesitantes em cada porta.
Abrem-se, enfim, secretas janelas sobre os campos,
as pedras, os cemitérios, o livre mar, as nuvens tênues...
E de longe se avistam hastes com rosas, pavios com luzes :
— tudo ascensão de saudade e extrema lágrima.
Na insônia feliz, mortos e vivos saem de casa,
de braço dado, com seus ramos de perdão.
Acenam, sorriem, cordiais e recíprocos,
transparentes e imaculados, com suas auréolas de sol pálido.
Em trapézio de seda balança-se o peso dos infortúnios,
e as feras mansamente brincam, em jardim de cristal.
Na insônia feliz, sente-se o orvalho, a pétala, a asa :
a altura do céu, com seus andares superpostos
a vigilância do universo, sustentando seus abismos,
a outra insônia — a da morte — a de tudo que vive, além do humano;
a espantosa vigilância magnética e eterna , —de alto a baixo.
Na insônia feliz, nossas horas são episódio subterrâneo
de humildes enterrados, vagamente rastejando,
com mãos de cinza que tateiam o mar, o momento, as almas,
enquanto — mas de onde? — sobe em redor um ininteligível música.
Cecília Meireles
In: ‘Dispersos -
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Dispersos
“PRELÚDIO DA MONÇÃO”
Vai chover muito.
No jardim que se esboroa de secura,
cada folha suplica uma gota d´água.
Os passarinhos já fecham os olhos,
antes que o sol lhes seque
o pingo líquido dos olhos.
As cigarras crepitam,
queimadas sobre os troncos ardentes.
Sai o halo do fogo de dentro das pedras.
Não há nada a fazer, senão descair
como as languidas palmas.
Esperar que seja possível a vida.
Vai chover muito:
tudo está olhando para as nuvens que engrossam,
que tropeçam no seu peso,
se acomodam para choverem tranquilamente.
Ah! como vai chover…
A ordem virá de um vento brando
que ainda se adestra longe.
Seu corcel pulará de súbito no alto do monte
e seu chicote luzirá no céu, turvo de azul.
Talvez o mar já sinta o comando remoto
e esteja concentrando seus cristais verdes,
estendendo sua pequena espuma fatigada,
cavando sua cavernas roxas,
oleosas campanulas súbitas,
nesse campo de estranhas metamorfoses.
Tremendo levemente estas pequenas folhas sensíveis,
e a sombra do céu virá toldar estas serenas estátuas.
As areias se moverão, timidamente, em seus lugares
e os galhos secos tristemente cairão, para sempre mortos.
Como vai chover!
Oh! Os tambores da chuva torrencial já se ouvem dentro do chão celeste…
Lá vem o corcel de retorcidas crinas,
e o látego do invisível ginete
ziguezagueia e esconde-se.
Vai chover toda a noite:
— no sono abafado da floresta profunda;
— nas calvas pedras, sulcadas por antigas tormentas;
—no grande mar parado e nublado pelo aguaceiro
— nos brancos cemitérios de anjos inúteis, de míseras lâmpadas;
— nas ruas vazias, com seus charcos onde se afogam as sombras humanas;
— nos jardins extenuados, com os pássaros escondidos até a voz.
Vai cair uma chuva intensa,
pelos vestidos dos santos,
pelos cabelos dos colegiais,
pelos vidros dos palácios,
pelas escadas dos asilos,
pelos pátios dos manicômios,
dos hospitais e dos necrotérios...
Vai cair uma chuva tão grande sobre todas as coisas,
que tudo ficará abolido;
mas ficará purificado?
Mesmo a palavra de amor,
o suspiro de agonia,
o protesto, o riso, o lamento
serão levados nessa chuva poderosa.
Ninguém poderá levantar a mão
e agarrar e prender como a trança de uma mulher,
a crina de um animal ou a ramagem de uma árvore,
essa livre chuva sem dono humano
que cai sozinha e governa.
Só quando o temporal cessar,
e os ralos das tristes cidades sossegarem,
se poderá subir o que sobrevive,
se alguma coisa recomeçará.
Cecília Meireles
In: ‘Dispersos’
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Dispersos
23 de fev de 2012
''Luar póstumo''
Numa noite de lua escreverei palavras,
simples palavras tão certas
que hão de voar para longe, com asas súbitas,
e pousar nessas torres das mudas vidas inquietas.
O luar que esteve nos meus olhos, uma noite,
nascerá de novo no mundo.
Outra vez brilhará, livre de nuvens e telhados,
livre de pálpebras, e num país sem muros.
Por esse luar formado em minhas mãos, e eterno,
é doce caminhar, viver o que se vive.
Porque a noite é tão grande... Ah, quem faz tanta noite?
E estar próximo é tão impossível!
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
simples palavras tão certas
que hão de voar para longe, com asas súbitas,
e pousar nessas torres das mudas vidas inquietas.
O luar que esteve nos meus olhos, uma noite,
nascerá de novo no mundo.
Outra vez brilhará, livre de nuvens e telhados,
livre de pálpebras, e num país sem muros.
Por esse luar formado em minhas mãos, e eterno,
é doce caminhar, viver o que se vive.
Porque a noite é tão grande... Ah, quem faz tanta noite?
E estar próximo é tão impossível!
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
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Desenho quase oriental
Uma borboleta que voa
sobre uma flor que é o seu retrato,
numa arvore,
parece que chama por ela,
parece que adeja o convite
de amarem-se.
Parece que a flor lhe responde,
que é presa, sem asas, que vive
e morre
no ramo. Parece que é triste
não ir pela brisa de amores
bem longe.
Parece que as duas se entendem,
parece que as duas deploram.
Parece.
Mas sempre há uma brisa mais forte
que leva, com asas quebradas,
as pétalas...
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
sobre uma flor que é o seu retrato,
numa arvore,
parece que chama por ela,
parece que adeja o convite
de amarem-se.
Parece que a flor lhe responde,
que é presa, sem asas, que vive
e morre
no ramo. Parece que é triste
não ir pela brisa de amores
bem longe.
Parece que as duas se entendem,
parece que as duas deploram.
Parece.
Mas sempre há uma brisa mais forte
que leva, com asas quebradas,
as pétalas...
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
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Dispersos
22 de fev de 2012
EXCURSÃO
EXCURSÃOEstou vendo aquele caminho
cheiroso da madrugada:
pelos muros, escorriam
flores moles da orvalhada;
na cor do céu, muito fina,
via-se a noite
acabada.
Estou sentindo aqueles passos
rente dos meus e do muro.
As palavras que escutava
eram pássaros no escuro...
Pássaros de voz tão clara,
voz de desenho tão puro!
Estou pensando na folhagem
que a chuva deixou polida:
nas pedras, ainda marcadas
de uma sombra umedecida.
Estou pensando o que pensava
nesse tempo a minha vida.
Estou diante daquela porta
que não sei mais se ainda existe...
Estou longe e fora das horas,
sem saber em que consiste
nem o que vai nem o que volta...
sem estar alegre nem triste,
sem desejar mais palavras
nem mais sonhos, nem mais vultos,
olhando dentro das almas,
os longos rumos ocultos,
os largos itinerários
de fantasmas insepultos...
— itinerários antigos,
que nem Deus nunca mais leva.
Silêncio grande e sozinho,
todo amassado com treva,
onde os nossos giram
quando o ar da morte se eleva.
Cecília Meireles
Viagem, 1938
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Viagem
16 de jan de 2012
Meus amigos de vento e nuvem
Meus amigos de vento e nuvem,
meus amigos sem rosto algum,
abrem caminhos, mudam casas,
estendem paredes sem fim.
Meus fluidos amigos, num mundo
que existe apenas para mim.
Que longas escadas tão belas,
que luzes sem chama, que amável
cena para uma vida eterna
em cor de amizade e jardim.
Meus amigos estão construindo
um mundo aéreo para mim.
Mãos tão frágeis levantam muros,
corpos voantes transportam ruas,
todos num silencio conjunto
e gestos de anjo e volantim.
Ah, meus invisíveis amigos
que entre os céus trabalhais por mim!
Fevereiro, 1961
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)
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Poesia Completa
Trinta anos no vale de exílios da sombra
Trinta anos no vale de exílios da sombra,
tua voz se eleva cintilante, responde-me
com seus cristais clarificados, - e sem nenhum rumor.
Fica repleta a noite e meus ouvidos te reconhecem:
os ouvidos que nem estão no meu corpo
nem na memória, mas só no ausente universo do sono.
Eu te digo: “Espera-me! Desculpa-me!
Vou chegar muito tarde!” E não sei se falo
com palavras ou símbolos, nas dimensões submersas do horizonte.
E eu te digo: “Atira-me a chave!” E deploro-me –
e de muito longe vejo a chave que me atiras,
e que receberei como álibi do sobrenatural.
Assim, eu sou agora, ainda que a mesma, também outra,
em mundo paralelo, com a chave da porta invisível,
e o som da tua voz é uma arvore clara que não se ouve,
numa atmosfera absurda –
como se nos fossemos encontrar, um dia, e continuássemos.
Abril, 4, 1963
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)
tua voz se eleva cintilante, responde-me
com seus cristais clarificados, - e sem nenhum rumor.
Fica repleta a noite e meus ouvidos te reconhecem:
os ouvidos que nem estão no meu corpo
nem na memória, mas só no ausente universo do sono.
Eu te digo: “Espera-me! Desculpa-me!
Vou chegar muito tarde!” E não sei se falo
com palavras ou símbolos, nas dimensões submersas do horizonte.
E eu te digo: “Atira-me a chave!” E deploro-me –
e de muito longe vejo a chave que me atiras,
e que receberei como álibi do sobrenatural.
Assim, eu sou agora, ainda que a mesma, também outra,
em mundo paralelo, com a chave da porta invisível,
e o som da tua voz é uma arvore clara que não se ouve,
numa atmosfera absurda –
como se nos fossemos encontrar, um dia, e continuássemos.
Abril, 4, 1963
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)
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8 de dez de 2011
Da solidão
Estarei só. Não por separada, não por evadida.
Pela natureza de ser só.
No entanto, a multidão tem sua musica,
seu ritmo, seu calor,
e deve ser uma felicidade, às vezes,
ser na multidão o que o peixe é no oceano.
Ah! mas quem sabe das solidões que haverá nessas águas enormes!
Estarei só. Recordarei essas cidades, esses tempos.
Recordarei esses rostos. Pode ser que recorde
alguma palavra.
Nada perturbou o meu estar só. Por vezes, com o rosto nas mãos,
pode ser que sentisse como os desertos amontoavam suas areias
entre meu pensamento e o horizonte.
Mas o deserto tem sua musica,
seu ritmo, seu calor.
Era uma solidão que outrora se levava nos dedos,
como a chave do silencio. Uma solidão de infância
sobre a qual se podia brincar,
como sobre um tapete.
Uma solidão que se podia ouvir, como quem olha para as arvores,
onde há vento.
Uma solidão que se podia ver, provar, sentir,
pensar, sofrer, amar,
uma solidão como um corpo, fechado sobre a noção que temos de nós:
como a noção que temos de nós.
E andava, e sorria, cumprimentava e fazia discursos,
dava autógrafos, abria a janela, conhecia gavetas,
chaves, endereços, comprava, lia,
recordava, sonhava,
às vezes pensava – Solidão – e logo seguia,
tinha até dinheiro comigo, tinha palavras, também,
que escolhia, dava, usava, recusava...
Solidão – dizia: fechava a tarde de mil portas,
andava por essas fortalezas da noite,
essas escadas, essas plataformas, essas pedras...
e deitava-me sobre o mar, sobre as florestas,
deitava-me assim – aldeias? cidades?
O sono é um límpido deserto – deitava-me nos ares,
onde quer que estivesse deitada.
Deitava-me nessas asas. Ia para outras solidões.
Se me chamares, responderei, mas serei solidão.
Serei solidão, se me esqueceres ou lembrares.
Qualquer coisa que sintas por mim, eu te retribuirei:
como o eco.
Mas és tu que vens e voltas:
a tua solidão e a minha solidão.
1958
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
Pela natureza de ser só.
No entanto, a multidão tem sua musica,
seu ritmo, seu calor,
e deve ser uma felicidade, às vezes,
ser na multidão o que o peixe é no oceano.
Ah! mas quem sabe das solidões que haverá nessas águas enormes!
Estarei só. Recordarei essas cidades, esses tempos.
Recordarei esses rostos. Pode ser que recorde
alguma palavra.
Nada perturbou o meu estar só. Por vezes, com o rosto nas mãos,
pode ser que sentisse como os desertos amontoavam suas areias
entre meu pensamento e o horizonte.
Mas o deserto tem sua musica,
seu ritmo, seu calor.
Era uma solidão que outrora se levava nos dedos,
como a chave do silencio. Uma solidão de infância
sobre a qual se podia brincar,
como sobre um tapete.
Uma solidão que se podia ouvir, como quem olha para as arvores,
onde há vento.
Uma solidão que se podia ver, provar, sentir,
pensar, sofrer, amar,
uma solidão como um corpo, fechado sobre a noção que temos de nós:
como a noção que temos de nós.
E andava, e sorria, cumprimentava e fazia discursos,
dava autógrafos, abria a janela, conhecia gavetas,
chaves, endereços, comprava, lia,
recordava, sonhava,
às vezes pensava – Solidão – e logo seguia,
tinha até dinheiro comigo, tinha palavras, também,
que escolhia, dava, usava, recusava...
Solidão – dizia: fechava a tarde de mil portas,
andava por essas fortalezas da noite,
essas escadas, essas plataformas, essas pedras...
e deitava-me sobre o mar, sobre as florestas,
deitava-me assim – aldeias? cidades?
O sono é um límpido deserto – deitava-me nos ares,
onde quer que estivesse deitada.
Deitava-me nessas asas. Ia para outras solidões.
Se me chamares, responderei, mas serei solidão.
Serei solidão, se me esqueceres ou lembrares.
Qualquer coisa que sintas por mim, eu te retribuirei:
como o eco.
Mas és tu que vens e voltas:
a tua solidão e a minha solidão.
1958
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
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Dispersos
Festa
Jardins de raciocínio:
teoremas de flor em flor.
Assim as pedras e a areia.
Agora, os cultivadores contentes meditam.
E as tulipas de todas as cores
tecem longos tapetes sossegados.
Carrilhões d’água, repuxos de musica,
e um raio de sol desenhando hipotenusas
de canteiro em canteiro.
E pessoas de todas as idades
enternecendo-se entre as flores:
- Gente da Rainha Juliana, da Rainha Guilhermina,
do Príncipe Mauricio de Nassau.
Em que malas portentosas se guardam secularmente
chapéus de plumas e altas golas de lã?
E pessoas de todas as idades vêm de suas cidades,
de seus campos, de canais e moinhos
para sorrirem sobre as flores.
Extasiadas respiram o mês de maio.
Explicam todos os matizes,
pregas de pétalas, peso do pólen,
com sua experiência de artesanato subterrâneo.
Jardins de raciocínio:
- axiomas de raiz em raiz.
Tão simples, tão cordial, a festa no jardim:
Sapatos como pedras passam como borboletas.
Os cultivadores sorriem.
O ano inteiro se trabalhou por esse sorriso.
Por esse tapete de flores.
E o raio de sol re colhe o seus desenhos,
sobe para o céu, perde-se na bruma
como frágil escada de ouro.
E os anjos da alegria, de asas abertas,
acompanham Descartes.
1953
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Viagem (1939)
teoremas de flor em flor.
Assim as pedras e a areia.
Agora, os cultivadores contentes meditam.
E as tulipas de todas as cores
tecem longos tapetes sossegados.
Carrilhões d’água, repuxos de musica,
e um raio de sol desenhando hipotenusas
de canteiro em canteiro.
E pessoas de todas as idades
enternecendo-se entre as flores:
- Gente da Rainha Juliana, da Rainha Guilhermina,
do Príncipe Mauricio de Nassau.
Em que malas portentosas se guardam secularmente
chapéus de plumas e altas golas de lã?
E pessoas de todas as idades vêm de suas cidades,
de seus campos, de canais e moinhos
para sorrirem sobre as flores.
Extasiadas respiram o mês de maio.
Explicam todos os matizes,
pregas de pétalas, peso do pólen,
com sua experiência de artesanato subterrâneo.
Jardins de raciocínio:
- axiomas de raiz em raiz.
Tão simples, tão cordial, a festa no jardim:
Sapatos como pedras passam como borboletas.
Os cultivadores sorriem.
O ano inteiro se trabalhou por esse sorriso.
Por esse tapete de flores.
E o raio de sol re colhe o seus desenhos,
sobe para o céu, perde-se na bruma
como frágil escada de ouro.
E os anjos da alegria, de asas abertas,
acompanham Descartes.
1953
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Viagem (1939)
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Viagem
9 de nov de 2011
Quando meu rosto contemplo
Quando meu rosto contemplo,
o espelho se despedaça
por ver como passa o tempo
e o meu desgosto não passa.
Amargo campo da vida,
quem te semeou com dureza,
que os que não se matam de ira
morrem de pureza tristeza?
Cecília Meireles
In: Canções (1956)
(Cecília de Meireles, nas. 07/11/1901 , morte 09/11/1964 )
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Canções
8 de nov de 2011
PAPÉIS – V –
Mas por que sempre lembrar essas coisas longínquas?
A verdade, porém é que há uns dias inesquecíveis,
uns fatos inesquecíveis, dentro de nós.
Tudo o mais, que vivemos, gira em redor deles.
Toda uma vida se reduz, afinal, a umas poucas emoções,
por muitos anos que vivamos,
apesar de viagens, experiências, realizações, sonhos, saber...
Vivemos tudo – o humano e o universal –
nuns pequenos instantes, obscuros e essenciais.
Todos os dias assim, de chuvinha fina,
penso em velhas cenas de infância:
a tarde em que comia um pedaço de maçã
e conheci o arco íris;
o livro em que estudava francês,
com uma gravura de crianças felizes, que riam para o ar:
La pluie;
a minha solidão com tesouras, cola e cartolina:
“Brinquedos para os dias de chuva...”
Tudo isso vem `a minha memória, como visitantes inesperados.
Interrompo o que estou fazendo, tenho um pena imensa de mim.
Depois, penso em velhos poemas chineses, curtos e leves.
Sou como quem mira uma antiga coleção de cartões-postais.
Setembro, 1955
Cecília Meireles.
Antologia Poética . p. 168/9
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Poesia Completa
24 de set de 2011
A NOITE
A noite é essa escuridão tão envolvente
que parece um exercício de morte:
assim vai desaparecendo tudo,
assim desaparecemos dos outros
e de nós.
Apenas respiramos.
Podem cortar esse último fio
— e o tear que somos se imobiliza.
A noite esconde a terra, o céu a casa,
os vossos rostos.
Estou novamente dentro de uma entranha?
Humana? Cósmica? Em que entranha me aninho,
onde se enrola o novelo da minha memória,
em que cofre, na escuridão?
Nossas asas estão docemente fechadas
e nossos olhos moram no pensamento.
Cada um tem a sua noite.
Cada coisa.
E tudo está na sua noite,
enquanto é noite.
O dia é um bailarino com sinos e espelhos
Interrompemos a treva onde aprendíamos lembranças;
e somos de repente uns falsos acordados.
1960
Cecília Meireles.
In: ‘O Estudante Empírico’ p. 9/10
que parece um exercício de morte:
assim vai desaparecendo tudo,
assim desaparecemos dos outros
e de nós.
Apenas respiramos.
Podem cortar esse último fio
— e o tear que somos se imobiliza.
A noite esconde a terra, o céu a casa,
os vossos rostos.
Estou novamente dentro de uma entranha?
Humana? Cósmica? Em que entranha me aninho,
onde se enrola o novelo da minha memória,
em que cofre, na escuridão?
Nossas asas estão docemente fechadas
e nossos olhos moram no pensamento.
Cada um tem a sua noite.
Cada coisa.
E tudo está na sua noite,
enquanto é noite.
O dia é um bailarino com sinos e espelhos
Interrompemos a treva onde aprendíamos lembranças;
e somos de repente uns falsos acordados.
1960
Cecília Meireles.
In: ‘O Estudante Empírico’ p. 9/10
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23 de set de 2011
...
Ciência, amor, sabedoria,
- tudo jaz muito longe, sempre...
(Imensamente fora do nosso alcance!)
...
Desmancha-se o átomo,
domina-se a lágrima,
vence-se o abismo:
- cai-se, porém, logo de bruços e de olhos fechados,
e é-se um pequeno segredo
sobre um grande segredo.
Tristes ainda seremos por muito tempo,
embora de uma nobre tristeza,
nós, os que o sol e a lua
todos os dias encontram,
no espelho do silêncio refletidos,
neste longo exercício de alma.
1955
Cecília Meireles
In "Poesia Completa",
Ed. Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1993, pag 1083
- tudo jaz muito longe, sempre...
(Imensamente fora do nosso alcance!)
...
Desmancha-se o átomo,
domina-se a lágrima,
vence-se o abismo:
- cai-se, porém, logo de bruços e de olhos fechados,
e é-se um pequeno segredo
sobre um grande segredo.
Tristes ainda seremos por muito tempo,
embora de uma nobre tristeza,
nós, os que o sol e a lua
todos os dias encontram,
no espelho do silêncio refletidos,
neste longo exercício de alma.
1955
Cecília Meireles
In "Poesia Completa",
Ed. Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1993, pag 1083
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'Elegia a uma pequena borboleta'
Como chegavas do casulo,
— inacabada seda viva —
tuas antenas — fios soltos
da trama de que eras tecida,
e teus olhos, dois grãos da noite
de onde o teu mistério surgia,
como caíste sobre o mundo
inábil, na manhã tão clara,
sem mãe, sem guia, sem conselho,
e rolavas por uma escada
como papel, penugem, poeira,
com mais sonho e silêncio que asas,
minha mão tosca te agarrou
com uma dura, inocente culpa,
e é cinza de lua teu corpo,
meus dedos, sua sepultura.
Já desfeita e ainda palpitante,
expiras sem noção nenhuma.
Ó bordado do véu do dia,
transparente anêmona aérea!
não leves meu rosto contigo:
leva o pranto que te celebra,
no olho precário em que te acabas,
meu remorso ajoelhado leva!
Choro a tua forma violada,
miraculosa, alva, divina,
criatura de pólen, de aragem,
diáfana pétala da vida!
Choro ter pesado em teu corpo
que no estame não pesaria.
Choro esta humana insuficiência:
— a confusão dos nossos olhos
— o selvagem peso do gesto,
— cegueira — ignorância — remotos
instintos súbitos — violências
que o sonho e a graça prostram mortos
Pudesse a etéreos paraísos
ascender teu leve fantasma,
e meu coração penitente
ser a rosa desabrochada
para servir-te mel e aroma,
por toda a eternidade escrava!
E as lágrimas que por ti choro
fossem o orvalho desses campos,
— os espelhos que refletissem
— vôo e silêncio — os teus encantos,
com a ternura humilde e o remorso
dos meus desacertos humanos!
De: MEIRELES, Cecília. “Retrato natural”. In: Obra poética. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.
— inacabada seda viva —
tuas antenas — fios soltos
da trama de que eras tecida,
e teus olhos, dois grãos da noite
de onde o teu mistério surgia,
como caíste sobre o mundo
inábil, na manhã tão clara,
sem mãe, sem guia, sem conselho,
e rolavas por uma escada
como papel, penugem, poeira,
com mais sonho e silêncio que asas,
minha mão tosca te agarrou
com uma dura, inocente culpa,
e é cinza de lua teu corpo,
meus dedos, sua sepultura.
Já desfeita e ainda palpitante,
expiras sem noção nenhuma.
Ó bordado do véu do dia,
transparente anêmona aérea!
não leves meu rosto contigo:
leva o pranto que te celebra,
no olho precário em que te acabas,
meu remorso ajoelhado leva!
Choro a tua forma violada,
miraculosa, alva, divina,
criatura de pólen, de aragem,
diáfana pétala da vida!
Choro ter pesado em teu corpo
que no estame não pesaria.
Choro esta humana insuficiência:
— a confusão dos nossos olhos
— o selvagem peso do gesto,
— cegueira — ignorância — remotos
instintos súbitos — violências
que o sonho e a graça prostram mortos
Pudesse a etéreos paraísos
ascender teu leve fantasma,
e meu coração penitente
ser a rosa desabrochada
para servir-te mel e aroma,
por toda a eternidade escrava!
E as lágrimas que por ti choro
fossem o orvalho desses campos,
— os espelhos que refletissem
— vôo e silêncio — os teus encantos,
com a ternura humilde e o remorso
dos meus desacertos humanos!
De: MEIRELES, Cecília. “Retrato natural”. In: Obra poética. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.
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Retrato Natural
23 de ago de 2011
XXI
O teu começo vem de muito longe.
O teu fim termina no teu começo.
Contempla-te em redor.
Compara.
Tudo é o mesmo.
Tudo é sem mudança.
Só as cores e as linhas mudaram.
Que importa as cores, para o Senhor da Luz?
Dentro das cores a luz é a mesma.
Que importa as linhas, para o Senhor do Ritmo?
Dentro das linhas o ritmo é igual.
Os outros vêem com os olhos ensombrados.
Que o mundo perturbou,
Com as novas formas.
Com as novas tintas.
Tu verás com os teus olhos.
Em sabedoria.
E verás muito além.
Cecília Meireles
de 'Cânticos'
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Cânticos
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