12 de nov de 2012

''Aedo''



Nós cinco sabemos de tudo
e estamos sorrindo sem medos,
em cinco rostos absolutos,
na prata de um único espelho.

Rosa imortal e eterna murta
nem pousam no nosso cabelo.

Concentramos na lama o perfume
de que os outros fabricam beijos.

No silêncio dos nossos vultos,
não toca o pressuroso vento,
para que não se incline o lume
dos vigilantes céus acesos.

Somos cinco estranhas colunas
visitadas só pelo tempo,
feitas de dunas e de espumas,
- fábulas do humano momento.

Por desamor às criaturas e
outros desamores terrenos,
desabaremos todas juntas:
- Deus fechando os seus cinco dedos.

Cecília Meireles
de: "Canções",

25 de out de 2012

''Ceres abandonada''









As arvores, secas,
descuidadas plantas.
E a deusa esquecida,
sem mais esperanças,
entre pedras fuscas
e galinhas brancas.

Ruivo pó do tempo
na remota fronte.
Veio de outras eras,
trazida de longe:     
- na sombra a deixaram.
Partiram para onde?

O elmo é de Minerva:
- mas, com o Sol no peito,
chamam-na de Ceres.
E seu lábio meigo
sorri sobre o nome,
falso ou verdadeiro.

Cheia de silencio,
contempla e medita.
E há campos e festas
e feixes de espiga
na pequena cova
de sua pupila.

Seus velhos poderes
ninguém mais recorda.
O modesto plinto
mão nenhuma adorna.
Para os homens vivos,
é uma deusa morta.

Mas o grão dourado
e a olorosa terra
e o boi que desliza
e o sol que se eleva
e o céu sobre humano
não se esquecem dela.

Fazem-se e refazem-se
os volúveis dias. 
No mármore, imóvel,
sempre a deusa é viva,
muito além dos homens
e de suas cinzas.

Cecília Meireles
In: Poemas Italianos

 (Painting Ceres,by Jean Antoine Watteau)



15 de set de 2012

"Mar em redor"

Meus ouvidos estão como as conchas sonoras:
musica perdida no meu pensamento,
na espuma da vida, na areia das horas...


Esqueceste a sombra do vento
Por isso, ficaste e partiste,
e há finos deltas de felicidade
abrindo os braços num oceano triste.


Soltei meus anéis nos aléns da saudade.
Entre algas e peixes vou flutuando a noite inteira.
Almas de todos os afogados
chamam para diversos lados
esta singular companheira.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Vaga Música (1942)


"Ritmo"




O ritmo em que gemo
doçuras e mágoas
é um dourado remo
por douradas águas.


Tudo, quando passo,
olha-me e suspira.
- Será meu compasso
que tanto os admira?

Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Vaga Música (1942)

13 de ago de 2012

"SE EU FOSSE APENAS. . ."


Se eu fosse apenas uma rosa,
com que prazer me desfolhava,
já que a vida é tão dolorosa
e não te sei dizer mais nada!


Se eu fosse apenas água ou vento,
com que prazer me desfaria,
como em teu próprio pensamento
vais desfazendo a minha vida!


Perdoa-me causar-te a mágoa
desta humana, amarga demora!
-de ser menos breve do que a água,
mais durável que o vento e a rosa. . .



Cecilia Meireles
In: Retrato Natural

'EMIGRANTES'


Esperemos o embarque, irmão.


Chegamos sem esperança,
só com relíquias de séculos
na palma da mão.


Pela terra endurecida,
não há campo que aproveite.
Mesmo os rios vão morrendo
pela solidão.


Não sofras por teres vindo.
Alguém nos mandou de longe
para ver como ficava
um rosto humano banhado
de desilusão.


Olhemos esses desertos
onde é impossível deixar-se
mesmo o coração.


Ah, guardemos nossos olhos
duráveis como as estrelas
e seguramente secos
como as pedras do chão:


Iremos a outros lugares,
onde talvez haja tempo,
misericórdia, viventes,
amor, ocasião.


Esperemos, esperemos.
Relógios além das nuvens
moem as horas e as lágrimas
para a salvação.



Cecilia Meireles
In: Retrato Natural

31 de jul de 2012

'Tarde de chuva'

A nuvem negra
é uma outra noite precoce
que chega do Oeste.


As mães chamam pelos filhos
exatamente como se aquela sombra
fosse um exército inimigo.


Os pássaros fogem
por todos os lados
e os jasmins deixam cair
suas brancas estrelas
ao vento que frisa
a água verde do tanque.
As margaridas inclinam-se
tontas, tontas.


Cai uma chuva alegre,
que não apaga o trinar dos pássaros.
O tijolo bebe cada gota,
instantaneamente.


Esta é uma chuva
das que trazem colar de arco-íris.
Esta é uma chuva
dançarina de cristal.
Mas, de repente, o trovão fala, severamente.
E tudo presta atenção.


A nuvem negra
chega do Oeste
e é como a noite,
em plena tarde,
no meu jardim.


E o vento desce
nas margaridas,
e se arredonda
entre as mangueiras
e se desfolha
na leve sebe
e é verde e branco.
9.1.1957



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

Paisagem e silencio


O hirto cipreste com pássaros escondidos na rama crespa.
A rendada folhagem das sucessivas acácias.
Folhas coloridas, agaves, roseiras descendo entrelaçadas
A encosta pedregosa.


Para onde foram as borboletas que aqui dançaram?


Os telhados muito velhos, ainda com clarabóias.
Escuros vãos de janelas, tão longe que não se avista ninguém.


Coníferas, palmeiras. Tudo imóvel,
a não ser uma fumaça que sobe azuladamente, entre as arvores.


O flanco da montanha, com seus verdes turvos,
com sua pedra riscada por sulcos de água.


Nuvens tempestuosas, grossas nuvens aquosas
crescendo insensivelmente, cinzentas, pardas, lívidas.
São conchas monumentais, balaustradas, zimbórios frágeis.
Montanhas aéreas de opalas foscas.


De repente, duas pequenas asas fugitivas:
- o pombo branco.
Atrás delas, igual a elas, assim clara, alta e rápida,
uma voz de criança a correr.


Depois, entre o olhar e a tarde,
prossegue o silencio.

Abril, 1954



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

28 de jun de 2012

''Pela flor amarela viajaremos''


Pela flor amarela viajaremos:
afastaremos as nuvens espessas
e as florestas de espinhos.


Pela flor amarela, vamos e voltamos,
por escadas escuras, corredores estreitos,
falando a desconhecidos.


Onde está, dizei-nos, a flor amarela?
Era minha? era vossa? era do seu próprio instante,
era sua, cativa por algum caçador floral?


Pela flor amarela atravessaremos a pedra,
o vidro, o metal, as palavras.
Atravessaremos o coração, como quem se mata.


Atravessaremos um novo mar desconhecido,
correremos Áfricas e Ásias, pólo e tropico,
e jogaremos nossa vida entre as estrelas.


A flor amarela está guardada em si mesma,
seu perfume, sob mil pétalas tranqüilas,
seu pólen resguardado contra o vão descobrimento.


1962



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

30 de mai de 2012

'Para os livros, cujo perfume'





Para os livros, cujo perfume
de campo e verniz fascinava
meus olhos e meu pensamento,
não tenho tempo.


Para a flor, o linho, a ramagem,
a cor, que me arrastavam como
por um bosque múrmuro e denso,
não tenho tempo.


Nem para o mar, nem para as nuvens,
nem para a estrela que adorava
não tenho, não tenho, não tenho
não tenho tempo.


Canta o pássaro inútil ritmo,
os homens passam como sombras,
e o mundo é um largo e doido vento.
Não tenho tempo.


Longe, sozinha, arrebatada,
entro no circulo secreto
e a mim mesma não me pertenço.
Não tenho tempo.


Oh, tantas coisas, tantas coisas
que a alma servira com delicia...
(São nebulosas de silencio...)
Não tenho tempo.


Lagrimas detidas – meus olhos.
Sofro, porem já não batalho
entre saudade e esquecimento.
Não tenho tempo.


Aonde me levam? Que destino
governa a delirante vida?
Nem hei de morrer como penso.
Não tenho tempo.


Tão longe esforço, e tão penoso
- e agora fechado o horizonte.
Ó vida, inefável momento,
- não tenho tempo...



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

'Manhã de chuva na infância'


Ao longo do muro, as campânulas escorrem,
gelatinosas,
ainda coroadas,
ainda cheirosas,
e já mortas.


Eu sou a menina que vai para a escola
com o seu casaquinho vermelho,
e os seus livros forrados de papel azul.


A chuva continua a bater nas flores,
a avivar as cores dos muros,
a gorgolejar nas calhas,
a correr para os negros bueiros.


Eu sou a menina que vai para a escola
feliz, com os cabelos molhados
e o rosto frio.


A chuva é uma alegria, com suas agulhas de vidro
voando por todos os lados.
A chuva cheira a jasmim e a flor “boa-noite!”


Eu sou a menina que de repente fica triste,
porque ao longo do muro as campânulas escorrem,
gelatinosas,


cor de coral, cor de marfim,
perfumadas ainda,
e já mortas.

1957



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

'Discurso aos infiéis'


Por que chorar de saudade,
se me resta o longo mar sonoro e vário,
a flor perfeita, a estrela certa,
e a canção que o pássaro vai bordando no vento?


Por que chorar de saudade,
se me resta um jardim de palavras,
e os bosques do eco
e estes caminhos da memória me pertencem?


Por que chorar pelo que me levais,
se é maior o que fica:
se a sombra em que vos recordo é mais bela que o vosso vulto,
se em vós morreis e em mim ressuscitais?


É melhor não ficar jamais com quem nos ama.
O amor é um compromisso de grandeza,
o amor é uma vigília incansável
e aparentemente vã.


Passai, parti, deixai-me, vós que, no entanto,
parecestes um momento mais adoráveis
que o mar, que a flor, que a estrela,
que a canção que um frágil pássaro vai bordando no vento...


Éreis o vento, apenas.

1957



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

''Paisagem e silencio''


O hirto cipreste com pássaros escondidos na rama crespa.
A rendada folhagem das sucessivas acácias.
Folhas coloridas, agaves, roseiras descendo entrelaçadas
A encosta pedregosa.


Para onde foram as borboletas que aqui dançaram?


Os telhados muito velhos, ainda com clarabóias.
Escuros vãos de janelas, tão longe que não se avista ninguém.


Coníferas, palmeiras. Tudo imóvel,
a não ser uma fumaça que sobe azuladamente, entre as arvores.


O flanco da montanha, com seus verdes turvos,
com sua pedra riscada por sulcos de água.


Nuvens tempestuosas, grossas nuvens aquosas
crescendo insensivelmente, cinzentas, pardas, lívidas.
São conchas monumentais, balaustradas, zimbórios frágeis.
Montanhas aéreas de opalas foscas.


De repente, duas pequenas asas fugitivas:
- o pombo branco.
Atrás delas, igual a elas, assim clara, alta e rápida,
uma voz de criança a correr.


Depois, entre o olhar e a tarde,
prossegue o silencio.

Abril, 1954



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

1 de mai de 2012

"Dois"



Abraçava-me à noite nítida,
à alta, à vasta noite estrangeira,
e aos seus ouvidos sucessivos murmurava:
“Não quero mais dormir, nunca mais, noite, esparsas
nuvens de estrelas sobre as planícies detidas,
sobre sinuosos canais, balouçantes e frios,
sobre os parques inermes, onde a bruma e as folhas ruivas
sentem chegar o outono e, reunidas, esperam
sua lei, sua sorte, como as pobres figuras humanas.”


E aos seus ouvidos sucessivos murmurava:
“Não quero mais dormir, nunca mais, quero sempre
mais tempo para os meus olhos, - vida, areia, amor profundo... –
conchas de pensamentos sonhando-se desertamente.”


E a noite dizia-me: “Vem comigo, pois, ao vento das dunas,
vem ver que lembranças esvoaçam na fronte quieta do sono,
e as pálpebras lisas, e a pálida face, e o lábio parado
e as livres mãos dos vagos corpos adormecidos!
Vem ver o silencio que tece e destece ordens sobre-humanas,
e os nomes efêmeros de tudo que desce à franja do horizonte!
Oh! Os nomes... – na espuma, na areia, no limite incerto dos mundos,
plácidos, frágeis, entregues à sua data breve,
irresponsáveis e meigos, boiando, boiando na sombra das almas,
suspiro da primavera na aresta súbita dos meses...”


E a linguagem da noite era velhíssima e exata.
E eu ia com ela pelas dunas, pelos horizontes,
entre moinhos e barcos, entre mil infinitos noturnos leitos.


Meus olhos andavam mais longe do que nunca,
voavam, nem fechados nem abertos,
independentes de mim,
sem peso algum, na escuridão,
e liam, liam, liam o que jamais esteve escrito,
na rasa solidão do tempo, e sem qualquer esperança
- qualquer.


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Doze Noturnos da Holanda & O Aeronauta (1952)

"Um"



O rumor do mundo vai perdendo a força,
e os rostos e as falas são falsos e avulsos.
O tempo versátil foge por esquinas
de vidro, de seda, de abraços difusos.


A lua que chega traz outros convites:
inclina em meus olhos o celeste mapa,
desmorona os punhos crispados do dia,
desenha caminhos, transparente e abstrata.


Arvores da noite... Pensamento amante...
- Transporta-me a sombra, na altura profunda,
aos campos felizes onde se desprende
o diurno limite de cada criatura.


É a noite sem elos... Inocência eterna,
isenta de mortes e natividades,
pura e solitária, deslembrada, alheia,
mudamente aberta para extremas viagens.


Eu mesma não vejo quem sou, na alta noite,
nem creio que SEJA: perduro em memória,
à mercê dos ventos, das brumas nascidas
nos dormentes lagos que ao luar se evaporam.


Recebo teu nome também repartido,
quebrado nos diques, levado nas flores...
Quem sabe teu nome – tão longe, tão tarde,
tão fora do tempo, do reino dos homens...?


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Doze Noturnos da Holanda & O Aeronauta (1952)
Seja bem-vindo. Hoje é