8 de jan de 2013
Poema enviado pela amiga Leila Derzi
Não sei distinguir no céu as várias constelações:
não sei os nomes de todos os peixes e flores,
nem dos rios nem das montanhas:
caminho por entre secretas coisas,
a cada lugar em que meus olhos pousam,
minha boca dirige uma pergunta.
Não sei o nome de todos os habitantes do mundo,
nem verei jamais todos os seus rostos,
embora sejam meus contemporâneos.
Não, não sei, na verdade, como são em corpo e alma
todos os meus amigos e parentes.
Não entendo todas as coisas que dizem,
não compreendo bem do que vivem, como vivem,
como pensam que estão vivendo.
Não me conheço completamente,
só nos espelhos me encontro,
tenho muita pena de mim.
Não penso todos os dias exatamente
do mesmo modo.
As mesmas coisas me parecem a cada instante diversas.
Amo e desamo, sofro e deixo de sofrer,
ao mesmo tempo, nas mesmas circunstâncias.
Aprendo e desaprendo,
esqueço e lembro,
meu Deus, que águas são estas onde vivo,
que ondulam em mim, dentro e fora de mim?
Se dizem meu nome, atendo por hábito.
Que nome é o meu?
Ignoro tudo.
Quando alguém diz que sabe alguma coisa,
fico perplexa:
ou estará enganado, ou é um farsante
- ou somente eu ignoro e me ignoro desta maneira?
E os homens combatem pelo que julgam saber.
E eu, que estudo tanto,
inclino a cabeça sem ilusões,
e a minha ignorância enche-me de lágrimas as mãos.
Meireles, Cecília, 1901-1964
Cecília de bolso/Cecília Meireles; [organizador Fabrício Carpinejar].
-Porto Alegre, RS: L&PM,2010.
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Cecília de bolso
12 de nov de 2012
"Ritmo de Nápoles"
Atravesso
este momento,
transfigurada
de outrora.
por muros
brancos de estatuas.
Em sonho vou
respondendo
ao que dizem
noutra língua.
E a lua
nasce entre os álamos.
Que haja
amor ou desespero,
tudo é como
a frágil tinta
desta tarde
nestas águas.
Sei que
cantam, sei que passam,
que os
barcos tem remos verdes
e aquele é o
golfo de Nápoles.
Sei que em
minha alma há silencio,
que envolvo
em silencio o mundo
e há
primavera nas arvores.
Cecília
Meireles
In: Poemas
Italianos
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Poemas Italianos
“PRELÚDIO DA MONÇÃO”
Vai chover muito.
No jardim que se esboroa de secura,
cada folha suplica uma gota d´água.
Os passarinhos já fecham os olhos,
antes que o sol lhes seque
o pingo líquido dos olhos.
As cigarras crepitam,
queimadas sobre os troncos ardentes.
Sai o halo do fogo de dentro das pedras.
Não há nada a fazer, senão descair
como as lânguidas palmas.
Esperar que seja possível a vida.
Vai chover muito:
tudo está olhando para as nuvens que engrossam,
que tropeçam no seu peso,
se acomodam para choverem tranquilamente.
Ah! como vai chover…
A ordem virá de um vento brando
que ainda se adestra longe.
Seu corcel pulará de súbito no alto do monte
e seu chicote luzirá no céu, turvo de azul.
Talvez o mar já sinta o comando remoto
e esteja concentrando seus cristais verdes,
estendendo sua pequena espuma fatigada,
cavando sua cavernas roxas,
oleosas campânulas súbitas,
nesse campo de estranhas metamorfoses.
Tremendo levemente estas pequenas folhas sensíveis,
e a sombra do céu virá toldar estas serenas estátuas.
As areias se moverão, timidamente, em seus lugares
e os galhos secos tristemente cairão, para sempre mortos.
Como vai chover!
Oh! Os tambores da chuva torrencial já se ouvem dentro do chão celeste…
Lá vem o corcel de retorcidas crinas,
e o látego do invisível ginete
ziguezagueia e esconde-se.
Vai chover toda a noite:
— no sono abafado da floresta profunda;
— nas calvas pedras, sulcadas por antigas tormentas;
— no grande mar parado e nublado pelo aguaceiro
— nos brancos cemitérios de anjos inúteis, de míseras lâmpadas;
— nas ruas vazias, com seus charcos onde se afogam as sombras humanas;
— nos jardins extenuados, com os pássaros escondidos até a voz.
Vai cair uma chuva intensa,
pelos vestidos dos santos,
pelos cabelos dos colegiais,
pelos vidros dos palácios,
pelas escadas dos asilos,
pelos pátios dos manicômios,
dos hospitais e dos necrotérios...
Vai cair uma chuva tão grande sobre todas as coisas,
que tudo ficará abolido;
mas ficará purificado?
Mesmo a palavra de amor,
o suspiro de agonia,
o protesto, o riso, o lamento
serão levados nessa chuva poderosa.
Ninguém poderá levantar a mão
e agarrar e prender como a trança de uma mulher,
a crina de um animal ou a ramagem de uma árvore,
essa livre chuva sem dono humano
que cai sozinha e governa.
Só quando o temporal cessar,
e os ralos das tristes cidades sossegarem,
se poderá subir o que sobrevive,
se alguma coisa recomeçará.
Cecília Meireles
antes que o sol lhes seque
o pingo líquido dos olhos.
As cigarras crepitam,
queimadas sobre os troncos ardentes.
Sai o halo do fogo de dentro das pedras.
Não há nada a fazer, senão descair
como as lânguidas palmas.
Esperar que seja possível a vida.
Vai chover muito:
tudo está olhando para as nuvens que engrossam,
que tropeçam no seu peso,
se acomodam para choverem tranquilamente.
Ah! como vai chover…
A ordem virá de um vento brando
que ainda se adestra longe.
Seu corcel pulará de súbito no alto do monte
e seu chicote luzirá no céu, turvo de azul.
Talvez o mar já sinta o comando remoto
e esteja concentrando seus cristais verdes,
estendendo sua pequena espuma fatigada,
cavando sua cavernas roxas,
oleosas campânulas súbitas,
nesse campo de estranhas metamorfoses.
Tremendo levemente estas pequenas folhas sensíveis,
e a sombra do céu virá toldar estas serenas estátuas.
As areias se moverão, timidamente, em seus lugares
e os galhos secos tristemente cairão, para sempre mortos.
Como vai chover!
Oh! Os tambores da chuva torrencial já se ouvem dentro do chão celeste…
Lá vem o corcel de retorcidas crinas,
e o látego do invisível ginete
ziguezagueia e esconde-se.
Vai chover toda a noite:
— no sono abafado da floresta profunda;
— nas calvas pedras, sulcadas por antigas tormentas;
— no grande mar parado e nublado pelo aguaceiro
— nos brancos cemitérios de anjos inúteis, de míseras lâmpadas;
— nas ruas vazias, com seus charcos onde se afogam as sombras humanas;
— nos jardins extenuados, com os pássaros escondidos até a voz.
Vai cair uma chuva intensa,
pelos vestidos dos santos,
pelos cabelos dos colegiais,
pelos vidros dos palácios,
pelas escadas dos asilos,
pelos pátios dos manicômios,
dos hospitais e dos necrotérios...
Vai cair uma chuva tão grande sobre todas as coisas,
que tudo ficará abolido;
mas ficará purificado?
Mesmo a palavra de amor,
o suspiro de agonia,
o protesto, o riso, o lamento
serão levados nessa chuva poderosa.
Ninguém poderá levantar a mão
e agarrar e prender como a trança de uma mulher,
a crina de um animal ou a ramagem de uma árvore,
essa livre chuva sem dono humano
que cai sozinha e governa.
Só quando o temporal cessar,
e os ralos das tristes cidades sossegarem,
se poderá subir o que sobrevive,
se alguma coisa recomeçará.
Cecília Meireles
de ‘Dispersos’
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Dispersos
''Aedo''
Nós cinco sabemos de tudo
e estamos sorrindo sem medos,
em cinco rostos absolutos,
na prata de um único espelho.
Rosa imortal e eterna murta
nem pousam no nosso cabelo.
Concentramos na lama o perfume
de que os outros fabricam beijos.
No silêncio dos nossos vultos,
não toca o pressuroso vento,
para que não se incline o lume
dos vigilantes céus acesos.
Somos cinco estranhas colunas
visitadas só pelo tempo,
feitas de dunas e de espumas,
- fábulas do humano momento.
Por desamor às criaturas e
outros desamores terrenos,
desabaremos todas juntas:
- Deus fechando os seus cinco dedos.
de que os outros fabricam beijos.
No silêncio dos nossos vultos,
não toca o pressuroso vento,
para que não se incline o lume
dos vigilantes céus acesos.
Somos cinco estranhas colunas
visitadas só pelo tempo,
feitas de dunas e de espumas,
- fábulas do humano momento.
Por desamor às criaturas e
outros desamores terrenos,
desabaremos todas juntas:
- Deus fechando os seus cinco dedos.
Cecília Meireles
de: "Canções",
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Canções
25 de out de 2012
''Ceres abandonada''
As arvores,
secas,
descuidadas
plantas.
E a deusa
esquecida,
sem mais
esperanças,
entre pedras
fuscas
e galinhas
brancas.
Ruivo pó do
tempo
na remota
fronte.
Veio de
outras eras,
trazida de
longe:
- na sombra
a deixaram.
Partiram
para onde?
O elmo é de
Minerva:
- mas, com o
Sol no peito,
chamam-na de
Ceres.
E seu lábio
meigo
sorri sobre
o nome,
falso ou
verdadeiro.
Cheia de
silencio,
contempla e
medita.
E há campos
e festas
e feixes de
espiga
na pequena
cova
de sua
pupila.
Seus velhos
poderes
ninguém mais
recorda.
O modesto
plinto
mão nenhuma
adorna.
Para os
homens vivos,
é uma deusa
morta.
Mas o grão
dourado
e a olorosa
terra
e o boi que
desliza
e o sol que
se eleva
e o céu
sobre humano
não se
esquecem dela.
Fazem-se e
refazem-se
os volúveis
dias.
No mármore,
imóvel,
sempre a
deusa é viva,
muito além
dos homens
e de suas
cinzas.
Cecília
Meireles
In: Poemas
Italianos
(Painting Ceres,by Jean Antoine Watteau)
|
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Poemas Italianos
15 de set de 2012
"Mar em redor"
Meus ouvidos estão como as conchas sonoras:
musica perdida no meu pensamento,
na espuma da vida, na areia das horas...
Esqueceste a sombra do vento
Por isso, ficaste e partiste,
e há finos deltas de felicidade
abrindo os braços num oceano triste.
Soltei meus anéis nos aléns da saudade.
Entre algas e peixes vou flutuando a noite inteira.
Almas de todos os afogados
chamam para diversos lados
esta singular companheira.
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Vaga Música (1942)
musica perdida no meu pensamento,
na espuma da vida, na areia das horas...
Esqueceste a sombra do vento
Por isso, ficaste e partiste,
e há finos deltas de felicidade
abrindo os braços num oceano triste.
Soltei meus anéis nos aléns da saudade.
Entre algas e peixes vou flutuando a noite inteira.
Almas de todos os afogados
chamam para diversos lados
esta singular companheira.
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Vaga Música (1942)
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Vaga Música
"Ritmo"
O ritmo em que gemo
doçuras e mágoas
é um dourado remo
por douradas águas.
Tudo, quando passo,
olha-me e suspira.
- Será meu compasso
que tanto os admira?
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Vaga Música (1942)
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Vaga Música
13 de ago de 2012
"SE EU FOSSE APENAS. . ."
Se eu fosse apenas uma rosa,
com que prazer me desfolhava,
já que a vida é tão dolorosa
e não te sei dizer mais nada!
Se eu fosse apenas água ou vento,
com que prazer me desfaria,
como em teu próprio pensamento
vais desfazendo a minha vida!
Perdoa-me causar-te a mágoa
desta humana, amarga demora!
-de ser menos breve do que a água,
mais durável que o vento e a rosa. . .
Cecilia Meireles
In: Retrato Natural
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Retrato Natural
'EMIGRANTES'
Esperemos o embarque, irmão.
Chegamos sem esperança,
só com relíquias de séculos
na palma da mão.
Pela terra endurecida,
não há campo que aproveite.
Mesmo os rios vão morrendo
pela solidão.
Não sofras por teres vindo.
Alguém nos mandou de longe
para ver como ficava
um rosto humano banhado
de desilusão.
Olhemos esses desertos
onde é impossível deixar-se
mesmo o coração.
Ah, guardemos nossos olhos
duráveis como as estrelas
e seguramente secos
como as pedras do chão:
Iremos a outros lugares,
onde talvez haja tempo,
misericórdia, viventes,
amor, ocasião.
Esperemos, esperemos.
Relógios além das nuvens
moem as horas e as lágrimas
para a salvação.
Cecilia Meireles
In: Retrato Natural
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Retrato Natural
31 de jul de 2012
'Tarde de chuva'
A nuvem negra
é uma outra noite precoce
que chega do Oeste.
As mães chamam pelos filhos
exatamente como se aquela sombra
fosse um exército inimigo.
Os pássaros fogem
por todos os lados
e os jasmins deixam cair
suas brancas estrelas
ao vento que frisa
a água verde do tanque.
As margaridas inclinam-se
tontas, tontas.
Cai uma chuva alegre,
que não apaga o trinar dos pássaros.
O tijolo bebe cada gota,
instantaneamente.
Esta é uma chuva
das que trazem colar de arco-íris.
Esta é uma chuva
dançarina de cristal.
Mas, de repente, o trovão fala, severamente.
E tudo presta atenção.
A nuvem negra
chega do Oeste
e é como a noite,
em plena tarde,
no meu jardim.
E o vento desce
nas margaridas,
e se arredonda
entre as mangueiras
e se desfolha
na leve sebe
e é verde e branco.
9.1.1957
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
é uma outra noite precoce
que chega do Oeste.
As mães chamam pelos filhos
exatamente como se aquela sombra
fosse um exército inimigo.
Os pássaros fogem
por todos os lados
e os jasmins deixam cair
suas brancas estrelas
ao vento que frisa
a água verde do tanque.
As margaridas inclinam-se
tontas, tontas.
Cai uma chuva alegre,
que não apaga o trinar dos pássaros.
O tijolo bebe cada gota,
instantaneamente.
Esta é uma chuva
das que trazem colar de arco-íris.
Esta é uma chuva
dançarina de cristal.
Mas, de repente, o trovão fala, severamente.
E tudo presta atenção.
A nuvem negra
chega do Oeste
e é como a noite,
em plena tarde,
no meu jardim.
E o vento desce
nas margaridas,
e se arredonda
entre as mangueiras
e se desfolha
na leve sebe
e é verde e branco.
9.1.1957
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
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Dispersos
Paisagem e silencio
O hirto cipreste com pássaros escondidos na rama crespa.
A rendada folhagem das sucessivas acácias.
Folhas coloridas, agaves, roseiras descendo entrelaçadas
A encosta pedregosa.
Para onde foram as borboletas que aqui dançaram?
Os telhados muito velhos, ainda com clarabóias.
Escuros vãos de janelas, tão longe que não se avista ninguém.
Coníferas, palmeiras. Tudo imóvel,
a não ser uma fumaça que sobe azuladamente, entre as arvores.
O flanco da montanha, com seus verdes turvos,
com sua pedra riscada por sulcos de água.
Nuvens tempestuosas, grossas nuvens aquosas
crescendo insensivelmente, cinzentas, pardas, lívidas.
São conchas monumentais, balaustradas, zimbórios frágeis.
Montanhas aéreas de opalas foscas.
De repente, duas pequenas asas fugitivas:
- o pombo branco.
Atrás delas, igual a elas, assim clara, alta e rápida,
uma voz de criança a correr.
Depois, entre o olhar e a tarde,
prossegue o silencio.
Abril, 1954
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
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Dispersos
28 de jun de 2012
''Pela flor amarela viajaremos''
Pela flor amarela viajaremos:
afastaremos as nuvens espessas
e as florestas de espinhos.
Pela flor amarela, vamos e voltamos,
por escadas escuras, corredores estreitos,
falando a desconhecidos.
Onde está, dizei-nos, a flor amarela?
Era minha? era vossa? era do seu próprio instante,
era sua, cativa por algum caçador floral?
Pela flor amarela atravessaremos a pedra,
o vidro, o metal, as palavras.
Atravessaremos o coração, como quem se mata.
Atravessaremos um novo mar desconhecido,
correremos Áfricas e Ásias, pólo e tropico,
e jogaremos nossa vida entre as estrelas.
A flor amarela está guardada em si mesma,
seu perfume, sob mil pétalas tranqüilas,
seu pólen resguardado contra o vão descobrimento.
1962
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)
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Poesia Completa
30 de mai de 2012
'Para os livros, cujo perfume'
Para os livros, cujo perfume
de campo e verniz fascinava
meus olhos e meu pensamento,
não tenho tempo.
Para a flor, o linho, a ramagem,
a cor, que me arrastavam como
por um bosque múrmuro e denso,
não tenho tempo.
Nem para o mar, nem para as nuvens,
nem para a estrela que adorava
não tenho, não tenho, não tenho
não tenho tempo.
Canta o pássaro inútil ritmo,
os homens passam como sombras,
e o mundo é um largo e doido vento.
Não tenho tempo.
Longe, sozinha, arrebatada,
entro no circulo secreto
e a mim mesma não me pertenço.
Não tenho tempo.
Oh, tantas coisas, tantas coisas
que a alma servira com delicia...
(São nebulosas de silencio...)
Não tenho tempo.
Lagrimas detidas – meus olhos.
Sofro, porem já não batalho
entre saudade e esquecimento.
Não tenho tempo.
Aonde me levam? Que destino
governa a delirante vida?
Nem hei de morrer como penso.
Não tenho tempo.
Tão longe esforço, e tão penoso
- e agora fechado o horizonte.
Ó vida, inefável momento,
- não tenho tempo...
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
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Dispersos
'Manhã de chuva na infância'
Ao longo do muro, as campânulas escorrem,
gelatinosas,
ainda coroadas,
ainda cheirosas,
e já mortas.
Eu sou a menina que vai para a escola
com o seu casaquinho vermelho,
e os seus livros forrados de papel azul.
A chuva continua a bater nas flores,
a avivar as cores dos muros,
a gorgolejar nas calhas,
a correr para os negros bueiros.
Eu sou a menina que vai para a escola
feliz, com os cabelos molhados
e o rosto frio.
A chuva é uma alegria, com suas agulhas de vidro
voando por todos os lados.
A chuva cheira a jasmim e a flor “boa-noite!”
Eu sou a menina que de repente fica triste,
porque ao longo do muro as campânulas escorrem,
gelatinosas,
cor de coral, cor de marfim,
perfumadas ainda,
e já mortas.
1957
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
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'Discurso aos infiéis'
Por que chorar de saudade,
se me resta o longo mar sonoro e vário,
a flor perfeita, a estrela certa,
e a canção que o pássaro vai bordando no vento?
Por que chorar de saudade,
se me resta um jardim de palavras,
e os bosques do eco
e estes caminhos da memória me pertencem?
Por que chorar pelo que me levais,
se é maior o que fica:
se a sombra em que vos recordo é mais bela que o vosso vulto,
se em vós morreis e em mim ressuscitais?
É melhor não ficar jamais com quem nos ama.
O amor é um compromisso de grandeza,
o amor é uma vigília incansável
e aparentemente vã.
Passai, parti, deixai-me, vós que, no entanto,
parecestes um momento mais adoráveis
que o mar, que a flor, que a estrela,
que a canção que um frágil pássaro vai bordando no vento...
Éreis o vento, apenas.
1957
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
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