19 de fev de 2013

''APRESENTAÇÃO''

 
AQUI ESTÁ MINHA VIDA – esta areia tão clara
Com desenhos de andar dedicados ao vento.

Aqui está minha voz – esta concha vazia,
Sombra de som curtindo o seu próprio lamento.

Aqui está minha dor – este coral quebrado,
Sobrevivendo ao seu patético momento.

Aqui está minha herança – este mar solitário,
Que de um lado era amor e, de outro, esquecimento.

Cecília Meireles
In Retrato Natural

''DESENHO''



 
Árvore da noite
Com ramos azuis
Até o horizonte.

Estendi meus braços,
E apenas achei
Nevoeiros esparsos.

O resto era sonhos
No profundo fim
Da vida e da noite.

A memória em pranto
Os ramos azuis
Fica procurando

E de olhos fechados
Vejo longe, sós,
Meus alados braços.

Ó noite, azul, árvore ...
Suspiro a subir
Muro de saudade!

Cecília Meireles
In Retrato Natural

''APELO''




Abri na noite as grandes águas
Criadas no tempo de chorar.
Levantei os mortos do sonho
Que trouxestes para viajar.
Fechai os olhos, despedi-vos,
Atirai os mortos ao mar!

Por amor às vossas estrelas,
Chamai ventos de solidão.
Em voz alta, dizei responsos,
Descarregai o coração!
Aos mortos que descem nas águas,
Mandai amor, pedi perdão!

Fazei-vos marinheiros límpidos,
Isentos do bem e do mal.
Dizei que, à procura dos deuses,
Com um rumo sobrenatural,
Necessitais da despedida
De toda lembrança mortal.

Ide, com o esbelto movimento,
A graça da libertação,
À proa das naves solenes
Que os deuses vos transportarão.

Mas não fiteis a densa vaga
Que se arquear em redor de vós!
- O rosto dos mortos flutua
para sempre. E é um longo cometa
a aérea franja da sua voz.

Cecília Meireles
In Retrato Natural

18 de jan de 2013

''Retrato de Mulher Triste''



Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.

Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.

Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.

Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.


Cecília Meireles
de 'Poesias Completas'

(Painting by Conrad Kiesel)

8 de jan de 2013

Hoje desaprendo o que tinha aprendido até ontem...

Hoje desaprendo o que tinha aprendido até hoje
e que amanhã recomeçarei a aprender.
Todos os dias desfaleço e desfaço-me em cinza efêmera:
todos os dias reconstruo minhas edificações, em sonho eternas.
Esta frágil escola que somos, levanto-a com paciência
dos alicerces às torres, sabendo que é trabalho sem termo.

E do alto avisto os que folgam e assaltam, donos de riso e pedras.
Cada um de nós tem sua verdade, pela qual deve morrer.

De um lugar que não se alcança, e que é, no entanto, claro,
minha verdade, sem troca, sem equivalência nem desengano
permanece constante, obrigatória, livre:
enquanto aprendo, desaprendo e torno a reaprender.


Cecília Meireles

Poesia Completa pag 1442
Editora Nova Fronteira.

Poema enviado pela amiga Leila Derzi


Não sei distinguir no céu as várias constelações:
não sei os nomes de todos os peixes e flores,
nem dos rios nem das montanhas:
caminho por entre secretas coisas,
a cada lugar em que meus olhos pousam,
minha boca dirige uma pergunta.

Não sei o nome de todos os habitantes do mundo,
nem verei jamais todos os seus rostos,
embora sejam meus contemporâneos.

Não, não sei, na verdade, como são em corpo e alma
todos os meus amigos e parentes.
Não entendo todas as coisas que dizem,
não compreendo bem do que vivem, como vivem,
como pensam que estão vivendo.

Não me conheço completamente,
só nos espelhos me encontro,
tenho muita pena de mim.

Não penso todos os dias exatamente
do mesmo modo.
As mesmas coisas me parecem a cada instante diversas.
Amo e desamo, sofro e deixo de sofrer,
ao mesmo tempo, nas mesmas circunstâncias.

Aprendo e desaprendo,
esqueço e lembro,
meu Deus, que águas são estas onde vivo,
que ondulam em mim, dentro e fora de mim?

Se dizem meu nome, atendo por hábito.
Que nome é o meu?
Ignoro tudo.

Quando alguém diz que sabe alguma coisa,
fico perplexa:
ou estará enganado, ou é um farsante
- ou somente eu ignoro e me ignoro desta maneira?

E os homens combatem pelo que julgam saber.
E eu, que estudo tanto,
inclino a cabeça sem ilusões,
e a minha ignorância enche-me de lágrimas as mãos.



Meireles, Cecília, 1901-1964
Cecília de bolso/Cecília Meireles; [organizador Fabrício Carpinejar].
-Porto Alegre, RS: L&PM,2010.

12 de nov de 2012

"Ritmo de Nápoles"



 

Atravesso este momento,
transfigurada de outrora.
por muros brancos de estatuas.

Em sonho vou respondendo
ao que dizem noutra língua.
E a lua nasce entre os álamos.

Que haja amor ou desespero,
tudo é como a frágil tinta
desta tarde nestas águas.

Sei que cantam, sei que passam,
que os barcos tem remos verdes
e aquele é o golfo de Nápoles.

Sei que em minha alma há silencio,
que envolvo em silencio o mundo
e há primavera nas arvores.
  

Cecília Meireles
In: Poemas Italianos

“PRELÚDIO DA MONÇÃO”




Vai chover muito.
No jardim que se esboroa de secura,
cada folha suplica uma gota d´água.

Os passarinhos já fecham os olhos,
antes que o sol lhes seque
o pingo líquido dos olhos.

As cigarras crepitam,
queimadas sobre os troncos ardentes.
Sai o halo do fogo de dentro das pedras.
Não há nada a fazer, senão descair
como as lânguidas palmas.
Esperar que seja possível a vida.

Vai chover muito:
tudo está olhando para as nuvens que engrossam,
que tropeçam no seu peso,
se acomodam para choverem tranquilamente.
Ah! como vai chover…

A ordem virá de um vento brando
que ainda se adestra longe.
Seu corcel pulará de súbito no alto do monte
e seu chicote luzirá no céu, turvo de azul.

Talvez o mar já sinta o comando remoto
e esteja concentrando seus cristais verdes,
estendendo sua pequena espuma fatigada,
cavando sua cavernas roxas,
oleosas campânulas súbitas,
nesse campo de estranhas metamorfoses.

Tremendo levemente estas pequenas folhas sensíveis,
e a sombra do céu virá toldar estas serenas estátuas.
As areias se moverão, timidamente, em seus lugares
e os galhos secos tristemente cairão, para sempre mortos.

Como vai chover!
Oh! Os tambores da chuva torrencial já se ouvem dentro do chão celeste…
Lá vem o corcel de retorcidas crinas,
e o látego do invisível ginete
ziguezagueia e esconde-se.

Vai chover toda a noite:
— no sono abafado da floresta profunda;
— nas calvas pedras, sulcadas por antigas tormentas;
— no grande mar parado e nublado pelo aguaceiro
— nos brancos cemitérios de anjos inúteis, de míseras lâmpadas;
— nas ruas vazias, com seus charcos onde se afogam as sombras humanas;
— nos jardins extenuados, com os pássaros escondidos até a voz.

Vai cair uma chuva intensa,
pelos vestidos dos santos,
pelos cabelos dos colegiais,
pelos vidros dos palácios,
pelas escadas dos asilos,
pelos pátios dos manicômios,
dos hospitais e dos necrotérios...

Vai cair uma chuva tão grande sobre todas as coisas,
que tudo ficará abolido;
mas ficará purificado?

Mesmo a palavra de amor,
o suspiro de agonia,
o protesto, o riso, o lamento
serão levados nessa chuva poderosa.

Ninguém poderá levantar a mão
e agarrar e prender como a trança de uma mulher,
a crina de um animal ou a ramagem de uma árvore,
essa livre chuva sem dono humano
que cai sozinha e governa.

Só quando o temporal cessar,
e os ralos das tristes cidades sossegarem,
se poderá subir o que sobrevive,
se alguma coisa recomeçará.

Cecília Meireles 
de ‘Dispersos’

''Aedo''



Nós cinco sabemos de tudo
e estamos sorrindo sem medos,
em cinco rostos absolutos,
na prata de um único espelho.

Rosa imortal e eterna murta
nem pousam no nosso cabelo.

Concentramos na lama o perfume
de que os outros fabricam beijos.

No silêncio dos nossos vultos,
não toca o pressuroso vento,
para que não se incline o lume
dos vigilantes céus acesos.

Somos cinco estranhas colunas
visitadas só pelo tempo,
feitas de dunas e de espumas,
- fábulas do humano momento.

Por desamor às criaturas e
outros desamores terrenos,
desabaremos todas juntas:
- Deus fechando os seus cinco dedos.

Cecília Meireles
de: "Canções",

25 de out de 2012

''Ceres abandonada''









As arvores, secas,
descuidadas plantas.
E a deusa esquecida,
sem mais esperanças,
entre pedras fuscas
e galinhas brancas.

Ruivo pó do tempo
na remota fronte.
Veio de outras eras,
trazida de longe:     
- na sombra a deixaram.
Partiram para onde?

O elmo é de Minerva:
- mas, com o Sol no peito,
chamam-na de Ceres.
E seu lábio meigo
sorri sobre o nome,
falso ou verdadeiro.

Cheia de silencio,
contempla e medita.
E há campos e festas
e feixes de espiga
na pequena cova
de sua pupila.

Seus velhos poderes
ninguém mais recorda.
O modesto plinto
mão nenhuma adorna.
Para os homens vivos,
é uma deusa morta.

Mas o grão dourado
e a olorosa terra
e o boi que desliza
e o sol que se eleva
e o céu sobre humano
não se esquecem dela.

Fazem-se e refazem-se
os volúveis dias. 
No mármore, imóvel,
sempre a deusa é viva,
muito além dos homens
e de suas cinzas.

Cecília Meireles
In: Poemas Italianos

 (Painting Ceres,by Jean Antoine Watteau)



15 de set de 2012

"Mar em redor"

Meus ouvidos estão como as conchas sonoras:
musica perdida no meu pensamento,
na espuma da vida, na areia das horas...


Esqueceste a sombra do vento
Por isso, ficaste e partiste,
e há finos deltas de felicidade
abrindo os braços num oceano triste.


Soltei meus anéis nos aléns da saudade.
Entre algas e peixes vou flutuando a noite inteira.
Almas de todos os afogados
chamam para diversos lados
esta singular companheira.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Vaga Música (1942)


"Ritmo"




O ritmo em que gemo
doçuras e mágoas
é um dourado remo
por douradas águas.


Tudo, quando passo,
olha-me e suspira.
- Será meu compasso
que tanto os admira?

Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Vaga Música (1942)

13 de ago de 2012

"SE EU FOSSE APENAS. . ."


Se eu fosse apenas uma rosa,
com que prazer me desfolhava,
já que a vida é tão dolorosa
e não te sei dizer mais nada!


Se eu fosse apenas água ou vento,
com que prazer me desfaria,
como em teu próprio pensamento
vais desfazendo a minha vida!


Perdoa-me causar-te a mágoa
desta humana, amarga demora!
-de ser menos breve do que a água,
mais durável que o vento e a rosa. . .



Cecilia Meireles
In: Retrato Natural

'EMIGRANTES'


Esperemos o embarque, irmão.


Chegamos sem esperança,
só com relíquias de séculos
na palma da mão.


Pela terra endurecida,
não há campo que aproveite.
Mesmo os rios vão morrendo
pela solidão.


Não sofras por teres vindo.
Alguém nos mandou de longe
para ver como ficava
um rosto humano banhado
de desilusão.


Olhemos esses desertos
onde é impossível deixar-se
mesmo o coração.


Ah, guardemos nossos olhos
duráveis como as estrelas
e seguramente secos
como as pedras do chão:


Iremos a outros lugares,
onde talvez haja tempo,
misericórdia, viventes,
amor, ocasião.


Esperemos, esperemos.
Relógios além das nuvens
moem as horas e as lágrimas
para a salvação.



Cecilia Meireles
In: Retrato Natural

Seja bem-vindo. Hoje é