15 de set de 2013

RENÚNCIA



Rama das minhas árvores altas,
deixa ir a flor! que o tempo, ao desprendê-la,
roda-a no molde de noites e de albas
onde gira e suspira cada estrela.

Deixa ir a flor! deixa-a ser asa, espaço,
ritmo, desenho, música absoluta,
dando e recuperando o corpo esparso
que, indo e vindo, se observa, e ordena, e escuta.

Falo-te, por saber o que é perder-se.
Conheço o coração da primavera.
e o dom secreto do seu sangue verde,
que num breve perfume existe e espera.

Verti para infinitos desamparos
tudo que tive no meu pensamento.
Era a flor dos instantes amargos.
Por onde anda? No abismo. Dada ao vento...

Cecília Meireles
In Viagem, 1.938

14 de set de 2013

EPITÁFIO DE NAVEGADORA




Se te perguntarem quem era
essa que às areias e gelos
quis ensinar a primavera;

e que perdeu seus olhos pelos
mares sem deuses desta vida,
sabendo que, de assim perdê-los,

ficaria também perdida;
e que em algas e espumas presa
deixou sua alma agradecida;

essa que sofreu de beleza
e nunca desejou mais nada;
que nunca teve uma surpresa

em sua face iluminada,
dize: "Eu não pude conhecê-la,
sua história está mal contada,

mas seu nome, de barca e estrela,
foi: "SERENA DESESPERADA".


Cecília Meireles
in Vaga Música

SOBRE A FLORESTA VERDE



Sobre a floresta verde,
as casas brancas.
Ao longo das ruas barrentas,
os muros brancos.
Ah! como voam brancos
os pombos entre o céu e a terra!
Na terra, os jardins de jasmins brancos,
no céu, as nuvens que sobem,
tão brancas!

Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos 

11 de set de 2013

AMÉM



Hoje acabou-se-me a palavra,
e nenhuma lágrima vem.
Ai, se a vida se me acabara
também!


A profusão do mundo, imensa,
tem tudo, tudo – e nada tem.
Onde repousar a cabeça?
No além?


Fala-se com os homens, com os santos,
consigo, com Deus. . . E ninguém 
entende o que se está contando
e a quem. . .


Mas terra e sol, luas e estrelas
giram de tal maneira bem
que a alma desanima de queixas.
Amém. 



Cecília Meireles
In: Vaga Música

10 de set de 2013

ACONTECIMENTO


  
AQUI estou, junto à tempestade,
chorando como uma criança
que viu que não eram verdade
o seu sonho e a sua esperança.
 
A chuva bate-me no rosto
e em meus cabelos sopra o vento.
Vão-se desfazendo em desgôsto
as formas do meu pensamento.
 
Chorarei toda a noite, enquanto
perpassa o tumulto nos ares,
para não me veres em pranto,
nem saberes, nem perguntares:
 
«Que foi feito do teu sorriso,
que era tão claro e tão perfeito?»
E o meu pobre olhar indeciso
não te repetir: «Que foi feito...?»
 
Cecília Meireles
in 'Viagem'

ANATOMIA



 
É triste ver-se o homem por dentro:
tudo arrumado, cerrado, dobrado
como objetos num armário.
 
A alma, não.
 
É triste ver-se o mapa das veias,
e esse pequeno mar que faz trabalhar seus rios
como por obscuras aldeias
indo e vindo, a carregar vida, estranhos escravos.
 
Mas a alma?
 
É triste ver-se a elétrica floresta
dos nervos: para estrelas de olhos e lagrimas,
para a inquieta brisa da voz,
para esses ninhos contorcidos do pensamento.
 
E a alma?
 
É triste ver-se que de repente se imobiliza
esse sistema de enigmas,
de inexplicado exercício,
antes de termos encontrado a alma.
 
Pela alma choramos.
Procuramos a alma.
Queríamos alma.
 
Agosto, 1959
 
 
Cecília Meireles
In: O Estudante Empírico (1959-1964)


9 de set de 2013

EQUILIBRISTA



Alto, pálido vidente,
caminhante do vazio,
cujo solo suficiente
é um frágil, aéreo fio!
 
Sem transigência nenhuma,
experimentas teu passo,
com levitações de pluma
e rigores de compasso.
 
No mundo, jogam à sorte,
detrás de formosos muros,
à espera da tua morte
e dos despojos futuros.
 
E tu, cintilante louco,
vais, entre a nuvem e o solo,
só com teu ritmo - tão pouco!
Estrela no alto do pólo.
 
 
Cecília Meireles
in Antologia Poética









8 de set de 2013

POEMA DA ESPERANÇA



Lá, onde Tu moras,
Deve ser um país tão luminoso
Que, de olhos extintos,
Se possa ver...
Deve ser um país sem dias e sem noites...
Sem ontens e sem amanhãs...
País maravilhoso da Beleza perfeita,
Que só habitam
Almas extraordinárias 
De seres e de coisas...
Lá, onde Tu moras,
Não há mais nada do que se sabe,
Nem do que se é...
Lá, onde Tu moras,
Dize que um dia me acolheras 
Como um Bem-Amado à sua Bem-Amada...
Dize que chegarei, um dia,
Ao teu Reino...
- Porque eu estou mortalmente enferma
Da tristeza e da penumbra
Daqui...
Eleito, ó Eleito,
Dize que me deixaras ficar
Lá, onde Tu moras,
Nesse país tão luminoso
Que, de olhos extintos,
Se pode ver... 


Cecília Meireles
In: Poema dos Poemas

6 de set de 2013

EPIGRAMA Nº 08



Encostei-me a ti, sabendo bem que eras somente onda. 
Sabendo bem que eras nuvem, depus a minha vida em ti. 

Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil, 
fiquei sem poder chorar, quando caí. 


CECíLIA MEIRELES 
In Viagem, 1939



3 de set de 2013

FESTA




Jardins de raciocínio:
teoremas de flor em flor.
Assim as pedras e a areia.

Agora, os cultivadores contentes meditam.
E as tulipas de todas as cores
tecem longos tapetes sossegados.

Carrilhões d’água, repuxos de musica,
e um raio de sol desenhando hipotenusas
de canteiro em canteiro.

E pessoas de todas as idades
enternecendo-se entre as flores:
- Gente da Rainha Juliana, da Rainha Guilhermina,
do Príncipe Mauricio de Nassau.

Em que malas portentosas se guardam secularmente
chapéus de plumas e altas golas de lã?


E pessoas de todas as idades vêm de suas cidades,
de seus campos, de canais e moinhos
para sorrirem sobre as flores.
Extasiadas respiram o mês de maio.
Explicam todos os matizes,
pregas de pétalas, peso do pólen,
com sua experiência de artesanato subterrâneo.

Jardins de raciocínio:
- axiomas de raiz em raiz.

Tão simples, tão cordial, a festa no jardim:
Sapatos como pedras passam como borboletas.
Os cultivadores sorriem.

O ano inteiro se trabalhou por esse sorriso.
Por esse tapete de flores.


E o raio de sol re colhe o seus desenhos,
sobe para o céu, perde-se na bruma
como frágil escada de ouro.

E os anjos da alegria, de asas abertas,
acompanham Descartes. 

1953


Cecília Meireles
In: Poesia Completa

2 de set de 2013

FRAGMENTO



Hoje eu queria estar entre as nuvens,
na velocidade das nuvens,
na sua fragilidade,
na sua docilidade de ser e deixar de ser.
Livremente
.
Cecília Meireles
In "Compensação" 

1 de set de 2013

O VENTO



O cipreste inclina-se em fina reverência
e as margaridas estremecem, sobressaltadas.

A grande amendoeira consente que balancem
suas largas folhas transparentes ao sol.

Misturam-se uns aos outros, rápidos e frágeis,
os longos fios da relva, lustrosos, lisos cílios verdes.

Frondes rendadas de acácias palpitam inquietantemente
com o mesmo tremor das samambaias
debruçadas nos vasos.

Fremem os bambus sem sossego,
num insistente ritmo breve.

O vento é o mesmo:
mas sua resposta é diferente, em cada folha.

Somente a árvore seca fica imóvel,
entre borboletas e pássaros.

Como a escada e as colunas de pedra,
ela pertence agora a outro reino.
Se movimento secou também, num desenho inerte.
Jaz perfeita, em sua escultura de cinza densa.

O vento que percorre o jardim
pode subir e descer por seus galhos inúmeros:

ela não responderá mais nada,
hirta e surda, naquele verde mundo sussurrante.


Cecília Meireles
In Mar Absoluto e Outros Poemas

16 de jun de 2013

''Marcha''


As ordens da madrugada
romperam por sobre os montes:
nosso caminho se alarga
sem campos verdes nem fontes.
Apenas o sol redondo
e alguma esmola de vento
quebram as formas do sono
com a ideia do movimento.

Vamos a passo e de longe;
entre nós dois anda o mundo,
com alguns mortos pelo fundo.
As aves trazem mentiras
de países sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dúvida aumento.

Também não pretendo nada
senão ir andando à toa,
como um número que se arma
e em seguida se esboroa,
- e cair no mesmo poço
de inércia e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras, águas, pensamento.

Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda, amarga
como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga, é tudo
que tenho, entre o sol e o vento:
meu vestido, minha música,
meu sonho e meu alimento.

Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudade;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos ristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá contentameno.

Como tudo sempre acaba,
oxalá seja bem cedo!
A esperança que falava
tem lábios brancos de medo.
O horizonte corta a vida
isento de tudo, isento...
Não há lágrima nem grito:
apenas consentimento.

Cecília Meireles
de Viagem
pag 298 - Editora Nova Fronteira.

Poema que inspirou a musica "Canteiros" de Raimundo Fagner Cândido Lopes mais conhecido apenas como Fagner.

''Motivo''


Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

Cecilia Meireles
de Viagem
pag 227 Editora Nova Fronteira
Seleção de Antonio Carlos Secchin

19 de fev de 2013

''PALAVRAS''



 
ESPADA entre flores,
Rochedo nas águas,
Assim firmes, duras,
Entre as coisas fluídas,
Fiquem as palavras,
As vossas palavras.

Pois se por acaso
Dentro dos sepulcros
Acordassem as almas
E em sonhos confusos
Suspirassem rumos
De história passadas
E houvesse um tumulto
De ânsias e de lágrimas,

- lembrassem as lágrimas
caídas no mundo
nas noites amargas
cercadas dos muros
das vossas palavras.
Todas as palavras

Nos espelhos puros
Que a memória guarda,
Fique o rosto surdo,
A música brava
Do humano discurso.
De qualquer discurso.

Só de morte exata
Sonharão os justos,
Saudosos de nada,
Isentos de tudo,
Pascendo auras claras,
Livres e absolutos,
Nos campos de prata
Dos túmulos fundos.

No meio das águas,
Das pedras, das nuvens,
Verão as palavras:
Estrelas de chumbo,
Rochedos de chumbo.
A cegueira da alma.
O peso do mundo.

Adeus, velhas falas
E antigos assuntos!

Cecília Meireles
In Retrato Natural
Seja bem-vindo. Hoje é