21 de set de 2013
''COMENTÁRIO DO ESTUDANTE DE DESENHO''
ENTRE O EIXO e as pontas do compasso,
Meu Deus, que distância penosa,
Que giro difícil,
Que pesado manejo!
É certo que a circunferência está pronta,
Por toda a eternidade
Aqui no imóvel parafuso do alto,
Sonhada, prevista na perfeição total da auréola?
Meu Deus, meu Deus, é certo que só no caminho do traço
É que se vai assim de ponto em ponto,
De dor em dor,
Com medos de começo e fim,
Rodando cautelosamente?
Cecília Meireles
In Retrato Natural
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''PRANTO NO MAR''
EU SEMPRE TE DISSE que era grande o oceano
Para a nossa pequena barca.
Cantavas, quando eu te dava o desengano
De partir por água tão larga.
Não, tu não devias ter ido.
Mas foi tempo perdido.
Eu sempre te disse que os olhos de um morto
Ficavam nas águas suspensos,
Procurando os vivos, os mastros, o porto,
Na oscilação de águas e ventos.
Não, tu não devias ter ido.
Mas era amor perdido.
Teço velas negras para abarca nova,
Redes de prata para as ondas.
Ensinai-me, peixes, sua funda cova
Nestas escuridões tão longas!
Não, tu não devias ter ido.
E isto é pranto perdido.
Cecília Meireles
In Retrato Natural
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20 de set de 2013
PRIMAVERA
A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu
nome,nem acredite no calendário, nem possua jardim
para recebê-la.
A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os
habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda
circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua
vida para a primavera que chega.
Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da
terra,nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos
sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de
nascer,no espírito das flores.
Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos
cor-de-rosa,como os palácios de Jeipur. Vozes novas de
passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua
nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se
pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que
não se entende.
Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno,
quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente,
e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.
Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as
árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os
humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores,
com vestidos bordados de flores,com os braços carregados de
flores, e vem dançar neste mundo cálido,de incessante luz.
Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não
se esquece,e a terra maternalmente se enfeita para as
festas da sua perpetuação.
Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia,
talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no
momento que quiserem,independentes deste ritmo, desta
ordem, deste movimento do céu.E os pássaros serão outros,
com outros cantos e outros hábitos,— e os ouvidos que por
acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que,
outrora se entendeu e amou.
Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos
atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão
beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam
nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda
conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo
tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai
tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra.
Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo
enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam
com suas roupas de chita multicor.
Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser
lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente,
ao que vem, na rotação da eternidade.
Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.
Cecília Meireles
Texto extraído do livro "Cecília Meireles Obra em Prosa - Volume 1",
Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.
nome,nem acredite no calendário, nem possua jardim
para recebê-la.
A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os
habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda
circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua
vida para a primavera que chega.
Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da
terra,nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos
sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de
nascer,no espírito das flores.
Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos
cor-de-rosa,como os palácios de Jeipur. Vozes novas de
passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua
nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se
pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que
não se entende.
Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno,
quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente,
e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.
Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as
árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os
humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores,
com vestidos bordados de flores,com os braços carregados de
flores, e vem dançar neste mundo cálido,de incessante luz.
Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não
se esquece,e a terra maternalmente se enfeita para as
festas da sua perpetuação.
Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia,
talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no
momento que quiserem,independentes deste ritmo, desta
ordem, deste movimento do céu.E os pássaros serão outros,
com outros cantos e outros hábitos,— e os ouvidos que por
acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que,
outrora se entendeu e amou.
Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos
atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão
beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam
nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda
conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo
tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai
tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra.
Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo
enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam
com suas roupas de chita multicor.
Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser
lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente,
ao que vem, na rotação da eternidade.
Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.
Cecília Meireles
Texto extraído do livro "Cecília Meireles Obra em Prosa - Volume 1",
Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.
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Obra em Prosa - Volume 1 -
19 de set de 2013
MULHER ADORMECIDA
Moro no ventre da noite:
sou a jamais nascida.
E a cada instante aguardo vida.
As estrelas, mais o negrume
são minhas faixas tutelares,
e as areias e o sal dos mares.
Ser tão completa e estar tão longe!
Sem nome e sem família cresço,
e sem rosto me reconheço.
Profunda é a noite onde moro.
Dá no que tanto se procura.
Mas intransitável, e escura.
Estarei um tempo divino
como árvore em quieta semente,
dobrada na noite, e dormente.
Até que de algum lado venha
a anunciação do meu segredo
desentranhar-me deste enredo,
Arrancar-me á vagueza imensa,
consolar-me deste abandono,
mudar-me a posição do sono.
Ah, causador dos meus olhos,
que paisagem cria ou pensa
para mim, a noite densa?
Cecília Meireles
In Mar absoluto e Outros Poemas
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Mar Absoluto e Outros Poemas
18 de set de 2013
EPIGRAMA DO ESPELHO INFIEL
A João de Castro Osório
Entre o desenho do meu rosto
e o seu reflexo,
meu sonho agoniza, perplexo.
Ah! pobres linhas do meu rosto,
desmanchadas do lado oposto,
e sem nexo!
E a lágrima do seu desgosto
sumida no espelho convexo!
CECíLIA MEIRELES
In Vaga Música, 1942
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Vaga Música
17 de set de 2013
OS HOMENS RÚSTICOS REZAVAM
Os homens rústicos rezavam:
em seus lábios quase de pedra
passavam palavras aladas
como delicadas libélulas.
E por delicadas libélulas
seus olhos eram poços de alma
que uma água ia enchendo, secreta,
profunda, de infindáveis lagrimas.
Setembro, 1962
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
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Poesia Completa
16 de set de 2013
ANTIECLESIASTE
Chuva
nas nuvens,
flores nas arvores,
lagrimas em nós.
Estação de chuva,
estação de flores.
O tempo inteiro para as lagrimas.
Por isso estamos tão extenuados:
todos os tempos foram de chorar.
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
flores nas arvores,
lagrimas em nós.
Estação de chuva,
estação de flores.
O tempo inteiro para as lagrimas.
Por isso estamos tão extenuados:
todos os tempos foram de chorar.
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
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15 de set de 2013
RENÚNCIA
Rama
das minhas árvores altas,
deixa ir a flor! que o tempo, ao desprendê-la,
roda-a no molde de noites e de albas
onde gira e suspira cada estrela.
Deixa ir a flor! deixa-a ser asa, espaço,
ritmo, desenho, música absoluta,
dando e recuperando o corpo esparso
que, indo e vindo, se observa, e ordena, e escuta.
Falo-te, por saber o que é perder-se.
Conheço o coração da primavera.
e o dom secreto do seu sangue verde,
que num breve perfume existe e espera.
Verti para infinitos desamparos
tudo que tive no meu pensamento.
Era a flor dos instantes amargos.
Por onde anda? No abismo. Dada ao vento...
Cecília Meireles
In Viagem, 1.938
deixa ir a flor! que o tempo, ao desprendê-la,
roda-a no molde de noites e de albas
onde gira e suspira cada estrela.
Deixa ir a flor! deixa-a ser asa, espaço,
ritmo, desenho, música absoluta,
dando e recuperando o corpo esparso
que, indo e vindo, se observa, e ordena, e escuta.
Falo-te, por saber o que é perder-se.
Conheço o coração da primavera.
e o dom secreto do seu sangue verde,
que num breve perfume existe e espera.
Verti para infinitos desamparos
tudo que tive no meu pensamento.
Era a flor dos instantes amargos.
Por onde anda? No abismo. Dada ao vento...
Cecília Meireles
In Viagem, 1.938
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Viagem
14 de set de 2013
EPITÁFIO DE NAVEGADORA
Se te perguntarem quem era
essa que às areias e gelos
quis ensinar a primavera;
e que perdeu seus olhos pelos
mares sem deuses desta vida,
sabendo que, de assim perdê-los,
ficaria também perdida;
e que em algas e espumas presa
deixou sua alma agradecida;
essa que sofreu de beleza
e nunca desejou mais nada;
que nunca teve uma surpresa
em sua face iluminada,
dize: "Eu não pude conhecê-la,
sua história está mal contada,
mas seu nome, de barca e estrela,
foi: "SERENA DESESPERADA".
Cecília Meireles
in Vaga Música
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Vaga Música
SOBRE A FLORESTA VERDE
Sobre a floresta verde,
as casas brancas.
Ao longo das ruas barrentas,
os muros brancos.
Ah! como voam brancos
os pombos entre o céu e a terra!
Na terra, os jardins de jasmins brancos,
no céu, as nuvens que sobem,
tão brancas!
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos
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Dispersos
11 de set de 2013
AMÉM
Hoje acabou-se-me a palavra,
e nenhuma lágrima vem.
Ai, se a vida se me acabara
também!
A profusão do mundo, imensa,
tem tudo, tudo – e nada tem.
Onde repousar a cabeça?
No além?
Fala-se com os homens, com os santos,
consigo, com Deus. . . E ninguém
entende o que se está contando
e a quem. . .
Mas terra e sol, luas e estrelas
giram de tal maneira bem
que a alma desanima de queixas.
Amém.
Cecília Meireles
In: Vaga Música
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Vaga Música
10 de set de 2013
ACONTECIMENTO
AQUI estou, junto à tempestade,
chorando como uma criança
que viu que não eram verdade
o seu sonho e a sua esperança.
A chuva bate-me no rosto
e em meus cabelos sopra o vento.
Vão-se desfazendo em desgôsto
as formas do meu pensamento.
Chorarei toda a noite, enquanto
perpassa o tumulto nos ares,
para não me veres em pranto,
nem saberes, nem perguntares:
«Que foi feito do teu sorriso,
que era tão claro e tão perfeito?»
E o meu pobre olhar indeciso
não te repetir: «Que foi feito...?»
Cecília Meireles
in 'Viagem'
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Viagem
ANATOMIA
É triste ver-se o homem por dentro:
tudo arrumado, cerrado, dobrado
como objetos num armário.
A alma, não.
É triste ver-se o mapa das veias,
e esse pequeno mar que faz trabalhar seus rios
como por obscuras aldeias
indo e vindo, a carregar vida, estranhos escravos.
Mas a alma?
É triste ver-se a elétrica floresta
dos nervos: para estrelas de olhos e lagrimas,
para a inquieta brisa da voz,
para esses ninhos contorcidos do pensamento.
E a alma?
É triste ver-se que de repente se imobiliza
esse sistema de enigmas,
de inexplicado exercício,
antes de termos encontrado a alma.
Pela alma choramos.
Procuramos a alma.
Queríamos alma.
Agosto, 1959
Cecília Meireles
In: O Estudante Empírico (1959-1964)
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O Estudante Empírico
9 de set de 2013
EQUILIBRISTA
Alto, pálido vidente,
caminhante do vazio,
cujo solo suficiente
é um frágil, aéreo fio!
Sem transigência nenhuma,
experimentas teu passo,
com levitações de pluma
e rigores de compasso.
No mundo, jogam à sorte,
detrás de formosos muros,
à espera da tua morte
e dos despojos futuros.
E tu, cintilante louco,
vais, entre a nuvem e o solo,
só com teu ritmo - tão pouco!
Estrela no alto do pólo.
Cecília Meireles
in Antologia Poética
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