28 de set de 2013

IMAGEM



Uma pobre velhinha franzida e amarelada
sentou-se num banco, em Paris.
A tarde cinzenta andava atrás dela
como um triste gato de feltro e flanela,
igualmente exausta e infeliz.
Entretanto, aquela cidade, aquela
é a maior do mundo, segundo se diz.
E não só maior – mas alegre e bela:
é a cidade chamada Paris.

Por que há uma velhinha tão triste e amarela
sentada num banco em forma de X?
Nunca vi ninguém mais triste do que ela,
em tarde nenhuma de nenhum país.

Nas mãos, uma chave – de que bairro, viela,
porta, corredor, mansarda, canela? –
com um desenho de flor-de-lis.



Paris 1953




Cecília Meireles
de ''Poemas de Viagens''




De ''Poesia Completa'' Volume II Organização de 
Antônio Carlos Secchin - pág1378
Editora Nova Fronteira - 2001

23 de set de 2013

''A lua canta ao rio''


Sou única no firmamento
e múltipla dentro do abismo.
Do fundo rio me contempla
a minha imagem refletida.

Sou a verdade no firmamento,
sou o imaginário no abismo,
Do fundo do rio me contempla
a minha imagem, no seu enganoso destino.


Lá no alto estou rodeada de silencio;
no abismo sussurro e canto.
No firmamento sou um deus,
no rio sou uma oração.

Lea Goldberg
in Poesia de Israel
[Tradução: Cecília Meireles]

''O MURO DAS LAMENTAÇÕES''


Na alta colina há um velho muro de pé,
todo cheio de fendas, de onde sai a erva grossa.
Mas sua força está íntegra,
no coração forte das pedras.

Diante desse velho muro há velhinhos curvados:
inclinam-se, rezam, choram;
contam seus lutos e redizes às pedras
seu sofrimento ainda recente e vinte vezes secular.

E da extrema altura, sobre o muro arruinado
nascem raios de sol dourados de piedade;
e o Deus que desce aonde descem essas luzes
consola ao mesmo tempo os velhinhos e as pedras.

Iacov Cohen (1881 – 1961)
in Poesia de Israel
Tradução: Cecília Meireles]

[Foto de Desirée Cigaran Schuck D'Avila & Rafael D'Avila]

''SEPARAÇÃO''


Um dia, estando entre nós dois o Atlântico,
senti a tua mão na minha;
Agora, tendo a tua mão na minha,
sinto entre nós dois o Atlântico.

Israel Zangwill (1864 – 1929)
in Poesia de Israel
Tradução: Cecília Meireles

''ROSA SECA"


Caiu de um livro no meu regaço
uma dessas velhas
relíquias de um sonho de juventude:
uma rosa seca.

E eu perguntei ao livro de onde vinha
aquela flor.
O livro calou-se: não chegou ao meu ouvido
nem palavra nem som.

Então meus olhos descobriram uma página
onde havia uma nódoa.
Há muito tempo, muito tempo alguém tinha chorado.
Oh, quando e onde?

Beijei a rosa murcha, a rosa seca
e a lágrima também.
Há muito tempo alguém tinha amado:
Oh, quem? e a quem?

Salomon Blaumgarten (1870 – 1927)
in Poesia de Israel
Tradução: Cecília Meireles]

XXVI



O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste breve,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...

Cecília Meireles
In ‘Cânticos’

22 de set de 2013

EXCERTO DE "Desenho"



"Aprendi com as primaveras a 
deixar-me cortar e a 
voltar sempre inteira."
 
- Cecília Meireles,
 in "Mar absoluto".
 



DESENHO


 
Fui morena e magrinha como qualquer polinésia,
e comia mamão, e mirava a flor da goiaba. 
E as lágrimas me espiavam, entre os tijolos e as trepadeiras,
e as teias de aranha nas minhas árvores se entrelaçavam

Isso era um lugar de sol e nuvens brancas,
onde as rolas, à tarde, soluçavam mui saudosas...
O eco, burlão, de pedra, ia saltando,
entre vastas mangueiras que choviam ruivas horas.

Os pavões caminhavam tão naturais por meu caminho, 
e os pombos tão felizes se alimentavam pelas escadas,
que era desnecessário crescer, pensar, escrever poemas,
pois a vida completa e bela e terna ali já estava. 

Com a chuva caía das grossas nuvens, perfumosa! 
E o papagaio como ficava sonolento! 
O relógio era festa de ouro; e os gatos enigmáticos 
fechavam os olhos, quando queriam caçar o tempo. 

Vinham morcegos, à noite, picar os sapotis maduros,
e os grandes cães ladravam como nas noites do Império. 
Mariposas, jasmins, tinhorões, vaga-lumes
moravam nos jardins sussurrantes e eternos. 

E minha avó cantava e cosia. Cantava
canções de mar e de arvoredo, em língua antiga. 
E eu sempre acreditei que havia música em seus dedos 
e palavras de amor em minha roupa escritas. 

Minha vida começa num vergel colorido, 
por onde as noites eram só de luar e estrelas. 
Levai-me aonde quiserdes! - APRENDI COM AS PRIMAVERAS
A DEIXAR-ME CORTAR E VOLTAR SEMPRE INTEIRA.


Cecília Meireles
In Mar Absoluto 

21 de set de 2013

''COMENTÁRIO DO ESTUDANTE DE DESENHO''


ENTRE O EIXO e as pontas do compasso,
Meu Deus, que distância penosa,
Que giro difícil,
Que pesado manejo!

É certo que a circunferência está pronta,
Por toda a eternidade
Aqui no imóvel parafuso do alto,
Sonhada, prevista na perfeição total da auréola?

Meu Deus, meu Deus, é certo que só no caminho do traço
É que se vai assim de ponto em ponto,
De dor em dor,
Com medos de começo e fim,
Rodando cautelosamente?

Cecília Meireles
In Retrato Natural

''PRANTO NO MAR''


EU SEMPRE TE DISSE  que era grande o oceano
Para a nossa pequena barca.
Cantavas, quando eu te dava o desengano
De partir por água tão larga.

Não, tu não devias ter ido.
Mas foi tempo perdido.

Eu sempre te disse que os olhos de um morto
Ficavam nas águas suspensos,
Procurando os vivos, os mastros, o porto,
Na oscilação de águas e ventos.

Não, tu não devias ter ido.
Mas era amor perdido.

Teço velas negras para abarca nova,
Redes de prata para as ondas.
Ensinai-me, peixes, sua funda cova
Nestas escuridões tão longas!

Não, tu não devias ter ido.
E isto é pranto perdido.

Cecília Meireles
In Retrato Natural

CANTIGA



Nós somos como o perfume
da flor que não tinha vindo:
esperança do silêncio,
quando o mundo está dormindo.

Pareceu que houve o perfume...
E a flor, sem vir, se acabou.
Oh! abelha imaginativa!
o que o desejo inventou...


Cecília Meireles
Viagem, 1938

20 de set de 2013

PRIMAVERA



A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu
 nome,nem acredite no calendário, nem possua jardim 
para recebê-la.
A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os 
habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda 
circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua
 vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da 
terra,nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos
 sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de
 nascer,no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos
cor-de-rosa,como os palácios de Jeipur. Vozes novas de 
passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua
nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se
pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que
não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno,
quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente,
e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as
árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os
humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores,
com vestidos bordados de flores,com os braços carregados de
flores, e vem dançar neste mundo cálido,de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não
se esquece,e a terra maternalmente se enfeita para as
festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia,
talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no
momento que quiserem,independentes deste ritmo, desta 
ordem, deste movimento do céu.E os pássaros serão outros,
com outros cantos e outros hábitos,— e os ouvidos que por
acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que,
outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos
atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão
beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam
nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda 
conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo
tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai
tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. 
Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo 
enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam
com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser 
lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente,
ao que vem, na rotação da eternidade. 
Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.



Cecília Meireles
Texto extraído do livro "Cecília Meireles Obra em Prosa - Volume 1",
 Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.

19 de set de 2013

MULHER ADORMECIDA



Moro no ventre da noite:
sou a jamais nascida.
E a cada instante aguardo vida.

As estrelas, mais o negrume
são minhas faixas tutelares,
e as areias e o sal dos mares.

Ser tão completa e estar tão longe!
Sem nome e sem família cresço,
e sem rosto me reconheço.

Profunda é a noite onde moro.
Dá no que tanto se procura.

Mas intransitável, e escura.

Estarei um tempo divino
como árvore em quieta semente,
dobrada na noite, e dormente.

Até que de algum lado venha
a anunciação do meu segredo
desentranhar-me deste enredo,

Arrancar-me á vagueza imensa,
consolar-me deste abandono,
mudar-me a posição do sono.

Ah, causador dos meus olhos,
que paisagem cria ou pensa
para mim, a noite densa?


Cecília Meireles
In Mar absoluto e Outros Poemas

18 de set de 2013

EPIGRAMA DO ESPELHO INFIEL


A João de Castro Osório 


Entre o desenho do meu rosto 
e o seu reflexo, 
meu sonho agoniza, perplexo. 

Ah! pobres linhas do meu rosto, 
desmanchadas do lado oposto, 
e sem nexo! 

E a lágrima do seu desgosto 
sumida no espelho convexo! 



CECíLIA MEIRELES 
In Vaga Música, 1942 



17 de set de 2013

OS HOMENS RÚSTICOS REZAVAM


 
Os homens rústicos rezavam:
em seus lábios quase de pedra
passavam palavras aladas
como delicadas libélulas.
 
 
E por delicadas libélulas
seus olhos eram poços de alma
que uma água ia enchendo, secreta,
profunda, de infindáveis lagrimas.
 
 
Setembro, 1962
 
 
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
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