4 de out de 2013

Renúncia



Rama das minhas árvores altas,
deixa ir a flor! que o tempo, ao desprendê-la,
roda-a no molde de noites e de albas
onde gira e suspira cada estrela.

Deixa ir a flor! deixa-a ser asa, espaço,
ritmo, desenho, música absoluta,
dando e recuperando o corpo esparso
que, indo e vindo, se observa, e ordena, e escuta.

Falo-te, por saber o que é perder-se.
Conheço o coração da primavera.
e o dom secreto do seu sangue verde,
que num breve perfume existe e espera.

Verti para infinitos desamparos
tudo que tive no meu pensamento.
Era a flor dos instantes amargos.
Por onde anda? No abismo. Dada ao vento...


Cecília Meireles
In Viagem, 1.938






3 de out de 2013

A MULHER E A TARDE




O denso lago e a terra de ouro:
até hoje penso nessa luz vermelha
envolvendo a tarde de um lado e de outro.
.
E nas verdes ramas, com chuvas guardadas,
e em nuvens beijando os azuis e os roxos.
.
Perguntava a sombra: “Quem há pelo teu rosto?”
“Que há pelos teus olhos?” – a água perguntava.
.
E eu pisando a estrada, e eu pisando a estrada,
vendo o lago denso, vendo a terra de ouro,
com pingos de chuva numa luz vermelha…
.
E eu não respondendo nada.
.
Sonho muito, falo pouco.
Tudo são riscos de louco
e estrelas da madrugada…
.
Cecília Meireles
In "Vaga Música", 1942 

2 de out de 2013

VINHO



A taça foi brilhante e rara,
mas o vinho de que bebi
com os meus olhos postos em ti,
era de total amargura.

Desde essa hora antiga e preclara,
insensivelmente desci
e em meu pensamento senti
o desgosto de ser criatura.

Eu sou de essência etérea e clara:
no entanto, desde que te vi,
como que desapareci...
Rondo triste à minha procura.

A taça foi brilhante e rara;
mas, com certeza enlouqueci.
E desse vinho que bebi
se originou minha loucura.


Cecília Meireles
Viagem, 1938

1 de out de 2013

DESPEDIDA




Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:
quero solidão.


Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? – me perguntarão.
-Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.


Que procuras? – Tudo. Que desejas? – Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.


A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação. . .
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?


Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra. . .)


Quero solidão.



Cecília Meireles
In: Vaga Música

28 de set de 2013

IMAGEM



Uma pobre velhinha franzida e amarelada
sentou-se num banco, em Paris.
A tarde cinzenta andava atrás dela
como um triste gato de feltro e flanela,
igualmente exausta e infeliz.
Entretanto, aquela cidade, aquela
é a maior do mundo, segundo se diz.
E não só maior – mas alegre e bela:
é a cidade chamada Paris.

Por que há uma velhinha tão triste e amarela
sentada num banco em forma de X?
Nunca vi ninguém mais triste do que ela,
em tarde nenhuma de nenhum país.

Nas mãos, uma chave – de que bairro, viela,
porta, corredor, mansarda, canela? –
com um desenho de flor-de-lis.



Paris 1953




Cecília Meireles
de ''Poemas de Viagens''




De ''Poesia Completa'' Volume II Organização de 
Antônio Carlos Secchin - pág1378
Editora Nova Fronteira - 2001

23 de set de 2013

''A lua canta ao rio''


Sou única no firmamento
e múltipla dentro do abismo.
Do fundo rio me contempla
a minha imagem refletida.

Sou a verdade no firmamento,
sou o imaginário no abismo,
Do fundo do rio me contempla
a minha imagem, no seu enganoso destino.


Lá no alto estou rodeada de silencio;
no abismo sussurro e canto.
No firmamento sou um deus,
no rio sou uma oração.

Lea Goldberg
in Poesia de Israel
[Tradução: Cecília Meireles]

''O MURO DAS LAMENTAÇÕES''


Na alta colina há um velho muro de pé,
todo cheio de fendas, de onde sai a erva grossa.
Mas sua força está íntegra,
no coração forte das pedras.

Diante desse velho muro há velhinhos curvados:
inclinam-se, rezam, choram;
contam seus lutos e redizes às pedras
seu sofrimento ainda recente e vinte vezes secular.

E da extrema altura, sobre o muro arruinado
nascem raios de sol dourados de piedade;
e o Deus que desce aonde descem essas luzes
consola ao mesmo tempo os velhinhos e as pedras.

Iacov Cohen (1881 – 1961)
in Poesia de Israel
Tradução: Cecília Meireles]

[Foto de Desirée Cigaran Schuck D'Avila & Rafael D'Avila]

''SEPARAÇÃO''


Um dia, estando entre nós dois o Atlântico,
senti a tua mão na minha;
Agora, tendo a tua mão na minha,
sinto entre nós dois o Atlântico.

Israel Zangwill (1864 – 1929)
in Poesia de Israel
Tradução: Cecília Meireles

''ROSA SECA"


Caiu de um livro no meu regaço
uma dessas velhas
relíquias de um sonho de juventude:
uma rosa seca.

E eu perguntei ao livro de onde vinha
aquela flor.
O livro calou-se: não chegou ao meu ouvido
nem palavra nem som.

Então meus olhos descobriram uma página
onde havia uma nódoa.
Há muito tempo, muito tempo alguém tinha chorado.
Oh, quando e onde?

Beijei a rosa murcha, a rosa seca
e a lágrima também.
Há muito tempo alguém tinha amado:
Oh, quem? e a quem?

Salomon Blaumgarten (1870 – 1927)
in Poesia de Israel
Tradução: Cecília Meireles]

XXVI



O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste breve,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...

Cecília Meireles
In ‘Cânticos’

22 de set de 2013

EXCERTO DE "Desenho"



"Aprendi com as primaveras a 
deixar-me cortar e a 
voltar sempre inteira."
 
- Cecília Meireles,
 in "Mar absoluto".
 



DESENHO


 
Fui morena e magrinha como qualquer polinésia,
e comia mamão, e mirava a flor da goiaba. 
E as lágrimas me espiavam, entre os tijolos e as trepadeiras,
e as teias de aranha nas minhas árvores se entrelaçavam

Isso era um lugar de sol e nuvens brancas,
onde as rolas, à tarde, soluçavam mui saudosas...
O eco, burlão, de pedra, ia saltando,
entre vastas mangueiras que choviam ruivas horas.

Os pavões caminhavam tão naturais por meu caminho, 
e os pombos tão felizes se alimentavam pelas escadas,
que era desnecessário crescer, pensar, escrever poemas,
pois a vida completa e bela e terna ali já estava. 

Com a chuva caía das grossas nuvens, perfumosa! 
E o papagaio como ficava sonolento! 
O relógio era festa de ouro; e os gatos enigmáticos 
fechavam os olhos, quando queriam caçar o tempo. 

Vinham morcegos, à noite, picar os sapotis maduros,
e os grandes cães ladravam como nas noites do Império. 
Mariposas, jasmins, tinhorões, vaga-lumes
moravam nos jardins sussurrantes e eternos. 

E minha avó cantava e cosia. Cantava
canções de mar e de arvoredo, em língua antiga. 
E eu sempre acreditei que havia música em seus dedos 
e palavras de amor em minha roupa escritas. 

Minha vida começa num vergel colorido, 
por onde as noites eram só de luar e estrelas. 
Levai-me aonde quiserdes! - APRENDI COM AS PRIMAVERAS
A DEIXAR-ME CORTAR E VOLTAR SEMPRE INTEIRA.


Cecília Meireles
In Mar Absoluto 

21 de set de 2013

''COMENTÁRIO DO ESTUDANTE DE DESENHO''


ENTRE O EIXO e as pontas do compasso,
Meu Deus, que distância penosa,
Que giro difícil,
Que pesado manejo!

É certo que a circunferência está pronta,
Por toda a eternidade
Aqui no imóvel parafuso do alto,
Sonhada, prevista na perfeição total da auréola?

Meu Deus, meu Deus, é certo que só no caminho do traço
É que se vai assim de ponto em ponto,
De dor em dor,
Com medos de começo e fim,
Rodando cautelosamente?

Cecília Meireles
In Retrato Natural

''PRANTO NO MAR''


EU SEMPRE TE DISSE  que era grande o oceano
Para a nossa pequena barca.
Cantavas, quando eu te dava o desengano
De partir por água tão larga.

Não, tu não devias ter ido.
Mas foi tempo perdido.

Eu sempre te disse que os olhos de um morto
Ficavam nas águas suspensos,
Procurando os vivos, os mastros, o porto,
Na oscilação de águas e ventos.

Não, tu não devias ter ido.
Mas era amor perdido.

Teço velas negras para abarca nova,
Redes de prata para as ondas.
Ensinai-me, peixes, sua funda cova
Nestas escuridões tão longas!

Não, tu não devias ter ido.
E isto é pranto perdido.

Cecília Meireles
In Retrato Natural

CANTIGA



Nós somos como o perfume
da flor que não tinha vindo:
esperança do silêncio,
quando o mundo está dormindo.

Pareceu que houve o perfume...
E a flor, sem vir, se acabou.
Oh! abelha imaginativa!
o que o desejo inventou...


Cecília Meireles
Viagem, 1938
Seja bem-vindo. Hoje é