16 de out de 2013

APONTAMENTO


 
Ó noite, ó noite, ó noite!
Luar e primavera
e os telhados cobrindo
sonhos que a vida gera!
 
 
Subo por essas horas
solitária e sincera, 
e encontro, exausta e pura, 
minha alma que me espera. 
 
 
Cecília Meireles
In: Poesia Completa

14 de out de 2013

''APRESENTAÇÃO''




Aqui está minha vida
– esta areia tão clara
Com desenhos de andar dedicados ao vento.

Aqui está minha voz – esta concha vazia,
Sombra de som curtindo o seu próprio lamento.

Aqui está minha dor – este coral quebrado,
Sobrevivendo ao seu patético momento.

Aqui está minha herança – este mar solitário,
Que de um lado era amor e, de outro, esquecimento.

Cecília Meireles
In Retrato Natural

[Tela by  Christian Schloe]

''DESENHO''



 
Árvore da noite
Com ramos azuis
Até o horizonte.

Estendi meus braços,
E apenas achei
Nevoeiros esparsos.

O resto era sonhos
No profundo fim
Da vida e da noite.

A memória em pranto
Os ramos azuis
Fica procurando

E de olhos fechados
Vejo longe, sós,
Meus alados braços.

Ó noite, azul, árvore ...
Suspiro a subir
Muro de saudade!

Cecília Meireles
In Retrato Natural

[Tela by  Christian Schloe]

''AR LIVRE''

A menina translúcida passa.
Vê-se a luz do sol dentro dos seus dedos.
Brilha em sua narina o coral do dia.

Leva o arco-íris em cada fio de cabelo.
Em sua pele, madrepérolas hesitantes
Pintam leves alvoradas de neblina.

Evaporam-se lhe os vestidos, na paisagem.
É apenas o vento que vai levando seu corpo pelas alamedas.
A cada passo, uma flor, a cada movimento, um pássaro.

E quando pára na ponte, as águas todas vão correndo,
Em verdes lágrimas para dentro dos seus olhos.

Cecília Meireles
In 'Retrato Natural'


[Tela by Christian Schloe]

12 de out de 2013

A BAILARINA




Esta menina 
tão pequenina 
quer ser bailarina. 

Não conhece nem dó nem ré 
mas sabe ficar na ponta do pé. 

Não conhece nem mi nem fá 
mas inclina o corpo para cá e para lá. 

Não conhece nem lá nem si, 
mas fecha os ohos e sorri. 

Roda, roda, roda com os bracinhos no ar 
e não fica tonta nem sai do lugar. 

Põe no cabelo uma estrela e um véu 
e diz que caiu do céu. 

Esta menina 
tão pequenina 
quer ser bailarina. 

Mas depois esquece todas as danças, 
e também quer dormir como as outras crianças. 


Cecília Meireles,
in Flor de Poemas

CRIANÇA




Cabecinha boa de menino triste, 
de menino triste que sofre sozinho, 
que sozinho sofre, — e resiste, 

Cabecinha boa de menino ausente, 
que de sofrer tanto se fez pensativo, 
e não sabe mais o que sente... 

Cabecinha boa de menino mudo 
que não teve nada, que não pediu nada, 
pelo medo de perder tudo. 

Cabecinha boa de menino santo 
que do alto se inclina sobre a água do mundo 
para mirar seu desencanto. 

Para ver passar numa onda lenta e fria 
a estrela perdida da felicidade 
que soube que não possuiria. 

Cecília Meireles,
 in 'Viagem'

''APELO''

Abri na noite as grandes águas
Criadas no tempo de chorar.
Levantei os mortos do sonho
Que trouxestes para viajar.
Fechai os olhos, despedi-vos,
Atirai os mortos ao mar!

Por amor às vossas estrelas,
Chamai ventos de solidão.
Em voz alta, dizei responsos,
Descarregai o coração!
Aos mortos que descem nas águas,
Mandai amor, pedi perdão!

Fazei-vos marinheiros límpidos,
Isentos do bem e do mal.
Dizei que, à procura dos deuses,
Com um rumo sobrenatural,
Necessitais da despedida
De toda lembrança mortal.

Ide, com o esbelto movimento,
A graça da libertação,
À proa das naves solenes
Que os deuses vos transportarão.

Mas não fiteis a densa vaga
Que se arquear em redor de vós!
- O rosto dos mortos flutua
para sempre. E é um longo cometa
a aérea franja da sua voz.

Cecília Meireles
In Retrato Natural

11 de out de 2013

''CANÇÃO NO MEIO DO CAMPO''

 
Lá vai, sem qualquer palavra
Seguindo o pranto,
Pequeno arado que lavra
Tão grande campo.

Torvos pássaros dos ares
Gritam sombra
Aos caminhos singulares
Que o sonho apronta.

Ó terra tão delicada
Que estás sofrendo,
Não é nada, não é nada:
Setas de vento.

No dia da primavera,
Longe anda o corvo.
E a flor mostrará como era
Seu grito morto.

Cecília Meireles
In Retrato Natural

[Tela by  Juan Carlos Boveri]

10 de out de 2013

VOO



Alheias e nossas as palavras voam.
Bando de borboletas multicores, as palavras voam
Bando azul de andorinhas, bando de gaivotas brancas,
as palavras voam.
Viam as palavras como águias imensas.
Como escuros morcegos como negros abutres, as palavras voam.

Oh! alto e baixo em círculos e retas acima de nós, em redor de nós as
palavras voam.
E às vezes pousam.


Cecília Meireles ,
in Melhores Poemas

5 de out de 2013

Herança



Eu vim de infinitos caminhos,
e os meus sonhos choveram lúcido pranto
pelo chão.

Quando é que frutifica, nos caminhos infinitos,
essa vida, que era tão viva, tão fecunda,
porque vinha de um coração?

E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos,
do pranto que caiu dos meus olhos passados,
que experiência, ou consolo, ou prêmio alcançarão?


Cecília Meireles,
in Viagem






4 de out de 2013

Renúncia



Rama das minhas árvores altas,
deixa ir a flor! que o tempo, ao desprendê-la,
roda-a no molde de noites e de albas
onde gira e suspira cada estrela.

Deixa ir a flor! deixa-a ser asa, espaço,
ritmo, desenho, música absoluta,
dando e recuperando o corpo esparso
que, indo e vindo, se observa, e ordena, e escuta.

Falo-te, por saber o que é perder-se.
Conheço o coração da primavera.
e o dom secreto do seu sangue verde,
que num breve perfume existe e espera.

Verti para infinitos desamparos
tudo que tive no meu pensamento.
Era a flor dos instantes amargos.
Por onde anda? No abismo. Dada ao vento...


Cecília Meireles
In Viagem, 1.938






3 de out de 2013

A MULHER E A TARDE




O denso lago e a terra de ouro:
até hoje penso nessa luz vermelha
envolvendo a tarde de um lado e de outro.
.
E nas verdes ramas, com chuvas guardadas,
e em nuvens beijando os azuis e os roxos.
.
Perguntava a sombra: “Quem há pelo teu rosto?”
“Que há pelos teus olhos?” – a água perguntava.
.
E eu pisando a estrada, e eu pisando a estrada,
vendo o lago denso, vendo a terra de ouro,
com pingos de chuva numa luz vermelha…
.
E eu não respondendo nada.
.
Sonho muito, falo pouco.
Tudo são riscos de louco
e estrelas da madrugada…
.
Cecília Meireles
In "Vaga Música", 1942 

2 de out de 2013

VINHO



A taça foi brilhante e rara,
mas o vinho de que bebi
com os meus olhos postos em ti,
era de total amargura.

Desde essa hora antiga e preclara,
insensivelmente desci
e em meu pensamento senti
o desgosto de ser criatura.

Eu sou de essência etérea e clara:
no entanto, desde que te vi,
como que desapareci...
Rondo triste à minha procura.

A taça foi brilhante e rara;
mas, com certeza enlouqueci.
E desse vinho que bebi
se originou minha loucura.


Cecília Meireles
Viagem, 1938

1 de out de 2013

DESPEDIDA




Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:
quero solidão.


Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? – me perguntarão.
-Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.


Que procuras? – Tudo. Que desejas? – Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.


A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação. . .
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?


Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra. . .)


Quero solidão.



Cecília Meireles
In: Vaga Música

28 de set de 2013

IMAGEM



Uma pobre velhinha franzida e amarelada
sentou-se num banco, em Paris.
A tarde cinzenta andava atrás dela
como um triste gato de feltro e flanela,
igualmente exausta e infeliz.
Entretanto, aquela cidade, aquela
é a maior do mundo, segundo se diz.
E não só maior – mas alegre e bela:
é a cidade chamada Paris.

Por que há uma velhinha tão triste e amarela
sentada num banco em forma de X?
Nunca vi ninguém mais triste do que ela,
em tarde nenhuma de nenhum país.

Nas mãos, uma chave – de que bairro, viela,
porta, corredor, mansarda, canela? –
com um desenho de flor-de-lis.



Paris 1953




Cecília Meireles
de ''Poemas de Viagens''




De ''Poesia Completa'' Volume II Organização de 
Antônio Carlos Secchin - pág1378
Editora Nova Fronteira - 2001
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