22 de out de 2013

''PÁSSARO''

Aquilo que ontem cantava
Já não canta.
Morreu de uma flor na boca:
Não do espinho na garganta.

Ele amava a água sem sede,
E, em verdade,
Tendo asas, fitava o tempo,
Livre de necessidade.

Não foi desejo ou imprudência:
Não foi nada.
E o dia toca em silêncio
A desventura causada.

Se acaso isso é desventura:
Ir-se a vida
Sobre uma rosa tão bela,
Por uma tênue ferida.

Cecília Meireles
In Retrato Natural

''SERENATA''

Dize-me Tu, montanha dura,
Onde nenhum rebanho pasce,
De que lado na terra escura
Brilha o nácar de sua face.

Dize-me tu, palmeira fina,
Onde nenhum pássaro canta,
Em que caverna submarina
Seu silêncio em corais descansa.

Dize-me tu, ó céu deserto,
Dize-me tu se é muito tarde,
Se a vida é longe e a dor é perto
E tudo é feito de acabar-se!

Cecília Meireles
In Retrato Natural

21 de out de 2013

''CANTATA VESPERAL''


CERRAI-VOS, OLHOS, que é tarde, e longe,
E acabou-se a festa a festa do mundo:
Começam as saudades hoje.

Longos adeuses pelas varandas
Perdem-se; e vão fugindo em mármore
Cascatas céleres de escadas.

Pelos portões não passam mais sombras,
Nem há mais vozes que se entendam
Nas distâncias que o céu desdobra.

As ruas levam a mares densos.
E pelos mares fogem barcas
Sem esperanças de endereços.

Cecília Meireles
In Retrato Natural

20 de out de 2013

NÃO: JÁ NÃO FALO DE TI,JÁ NÃO SEI DE SAUDADES



Não: já não falo de ti, já não sei de saudades.
Feche-se o coração como um livro, cheio de imagens,
de palavras adormecidas, em altas prateleiras,
até que o pó desfaça o pobre desespero sem força,
que um dia, pode ser, pareceu tão terrível.

A aranha dorme em sua teia, lá fora, entre a roseira e o muro.
Resplandecem os azulejos – é tudo quanto posso ver.
O resto é imaginado, e não coincide, e é temerário
cismar. Talvez se as pálpebras pudessem
inventar outros sonhos, não de vida...

Ah! rompem-se na noite ardentes violas,
pelo ar e pelo frio subitamente roçadas.
Por onde pascerão, nestes céus invioláveis,
nossas perguntas com suas crinas de séculos arrastando-se...
Não só de amor a noite transborda mas de terríveis 
crueldades, loucuras, de homicídios mais verdadeiros.

Os homens de sangue estão nas esquinas resfolegando,
e os homens da lei sonolentos movem letras 
sobre imensos papeis que eles mesmos não entendem...
Ah! que rosto amaríamos ver inclinar-se da aérea varanda?
Nem os santos podem mais nada. Talvez os anjos abstratos
da álgebra e da geometria. 


Cecília Meireles
In: Poesia Completa





18 de out de 2013

''PEQUENA MEDITAÇÃO''

Chorai, negras águas,
À sombra das pontes,
Na raiz das árvores.

Tempo melancólico
Amarrando os braços
Dos altos relógios.

Cresceriam lágrimas,
Se não se abolissem
As lembranças cálidas.

Noites antiqüíssimas
Até nos esperam
Nomes de carícia.

Seremos idênticos
Ao passado enorme,
De amor e silêncio,

Ao jamais recíproco
Sonho que resvala
Para precipícios.

Só triste matéria
Lembrará mais tarde
Nossa descendência.

Em ruas contrárias,
Vereis negros tetos,
Como velhas máscaras.

Mas não esta fluida
Verdade da vida.
As mãos – sem a música.

Chorai, negras águas,
A dor, vagarosa,
E a memória, rápida.

Cecília Meireles
In Retrato Natural


17 de out de 2013

SURDINA



Quem toca piano sobre a chuva,
na tarde turva e despovoada?
De que antiga, límpida música
recebo a lembrança apagada?

Minha vida, numa poltrona
jaz diante da janela aberta.
Vejo árvores, nuvens, - é a longa
rota do tempo, descoberta.

Entre os meus olhos descansados
e os meus descansados ouvidos,
alguém colhe com dedos calmos
ramos de som,descoloridos.

A chuva interfere na música.
Tocam tão longe! O turvo dia
mistura piano, árvore, nuvens,
séculos de melancolia...


Cecília Meireles
In Flor de Poemas, 1972

16 de out de 2013

''PALAVRAS''

ESPADA entre flores,
Rochedo nas águas,
Assim firmes, duras,
Entre as coisas fluídas,
Fiquem as palavras,
As vossas palavras.

Pois se por acaso
Dentro dos sepulcros
Acordassem as almas
E em sonhos confusos
Suspirassem rumos
De história passadas
E houvesse um tumulto
De ânsias e de lágrimas,

- lembrassem as lágrimas
caídas no mundo
nas noites amargas
cercadas dos muros
das vossas palavras.
Todas as palavras

Nos espelhos puros
Que a memória guarda,
Fique o rosto surdo,
A música brava
Do humano discurso.
De qualquer discurso.

Só de morte exata
Sonharão os justos,
Saudosos de nada,
Isentos de tudo,
Pascendo auras claras,
Livres e absolutos,
Nos campos de prata
Dos túmulos fundos.

No meio das águas,
Das pedras, das nuvens,
Verão as palavras:
Estrelas de chumbo,
Rochedos de chumbo.
A cegueira da alma.
O peso do mundo.

Adeus, velhas falas
E antigos assuntos!

Cecília Meireles
In Retrato Natural

[Arte de Catrin Welz-Stein]

CANÇÃO QUASE TRISTE




 Brilhou a rosa
No espinhoso galho.
Quem viu? Ninguém.

Nuvens muito altas
Lágrimas de orvalho
Deram-lhe: - de além.

Seca os teus olhos,
No amargo trabalho,
Que a noite já vem.

Vê-te a ti mesmo,
Sê teu agasalho,
Pobre Pero Sem.

Cecília Meireles
In Retrato Natural

APONTAMENTO


 
Ó noite, ó noite, ó noite!
Luar e primavera
e os telhados cobrindo
sonhos que a vida gera!
 
 
Subo por essas horas
solitária e sincera, 
e encontro, exausta e pura, 
minha alma que me espera. 
 
 
Cecília Meireles
In: Poesia Completa

14 de out de 2013

''APRESENTAÇÃO''




Aqui está minha vida
– esta areia tão clara
Com desenhos de andar dedicados ao vento.

Aqui está minha voz – esta concha vazia,
Sombra de som curtindo o seu próprio lamento.

Aqui está minha dor – este coral quebrado,
Sobrevivendo ao seu patético momento.

Aqui está minha herança – este mar solitário,
Que de um lado era amor e, de outro, esquecimento.

Cecília Meireles
In Retrato Natural

[Tela by  Christian Schloe]

''DESENHO''



 
Árvore da noite
Com ramos azuis
Até o horizonte.

Estendi meus braços,
E apenas achei
Nevoeiros esparsos.

O resto era sonhos
No profundo fim
Da vida e da noite.

A memória em pranto
Os ramos azuis
Fica procurando

E de olhos fechados
Vejo longe, sós,
Meus alados braços.

Ó noite, azul, árvore ...
Suspiro a subir
Muro de saudade!

Cecília Meireles
In Retrato Natural

[Tela by  Christian Schloe]

''AR LIVRE''

A menina translúcida passa.
Vê-se a luz do sol dentro dos seus dedos.
Brilha em sua narina o coral do dia.

Leva o arco-íris em cada fio de cabelo.
Em sua pele, madrepérolas hesitantes
Pintam leves alvoradas de neblina.

Evaporam-se lhe os vestidos, na paisagem.
É apenas o vento que vai levando seu corpo pelas alamedas.
A cada passo, uma flor, a cada movimento, um pássaro.

E quando pára na ponte, as águas todas vão correndo,
Em verdes lágrimas para dentro dos seus olhos.

Cecília Meireles
In 'Retrato Natural'


[Tela by Christian Schloe]

12 de out de 2013

A BAILARINA




Esta menina 
tão pequenina 
quer ser bailarina. 

Não conhece nem dó nem ré 
mas sabe ficar na ponta do pé. 

Não conhece nem mi nem fá 
mas inclina o corpo para cá e para lá. 

Não conhece nem lá nem si, 
mas fecha os ohos e sorri. 

Roda, roda, roda com os bracinhos no ar 
e não fica tonta nem sai do lugar. 

Põe no cabelo uma estrela e um véu 
e diz que caiu do céu. 

Esta menina 
tão pequenina 
quer ser bailarina. 

Mas depois esquece todas as danças, 
e também quer dormir como as outras crianças. 


Cecília Meireles,
in Flor de Poemas

CRIANÇA




Cabecinha boa de menino triste, 
de menino triste que sofre sozinho, 
que sozinho sofre, — e resiste, 

Cabecinha boa de menino ausente, 
que de sofrer tanto se fez pensativo, 
e não sabe mais o que sente... 

Cabecinha boa de menino mudo 
que não teve nada, que não pediu nada, 
pelo medo de perder tudo. 

Cabecinha boa de menino santo 
que do alto se inclina sobre a água do mundo 
para mirar seu desencanto. 

Para ver passar numa onda lenta e fria 
a estrela perdida da felicidade 
que soube que não possuiria. 

Cecília Meireles,
 in 'Viagem'

''APELO''

Abri na noite as grandes águas
Criadas no tempo de chorar.
Levantei os mortos do sonho
Que trouxestes para viajar.
Fechai os olhos, despedi-vos,
Atirai os mortos ao mar!

Por amor às vossas estrelas,
Chamai ventos de solidão.
Em voz alta, dizei responsos,
Descarregai o coração!
Aos mortos que descem nas águas,
Mandai amor, pedi perdão!

Fazei-vos marinheiros límpidos,
Isentos do bem e do mal.
Dizei que, à procura dos deuses,
Com um rumo sobrenatural,
Necessitais da despedida
De toda lembrança mortal.

Ide, com o esbelto movimento,
A graça da libertação,
À proa das naves solenes
Que os deuses vos transportarão.

Mas não fiteis a densa vaga
Que se arquear em redor de vós!
- O rosto dos mortos flutua
para sempre. E é um longo cometa
a aérea franja da sua voz.

Cecília Meireles
In Retrato Natural

Seja bem-vindo. Hoje é