21 de jul. de 2014

Pequeno poema de Ouro Preto



A Rodrigo M.F. de Andrade


Quem é a dona que toca?
Fechei os olhos, não vi.
Que nunca se abra a cortina
quando eu passar por aqui.
Sonho seus longos cabelos
como harpa, na escuridão;
seus olhos de prata, esquivos,
e uma perola nublosa
no nácar de sua mão.


O que a dona vai tocando?
Que importa? Seja o que for.
Tudo aqui fora á saudade.
Lá dentro, seria amor.
O piano que a dona toca,
de onde, de que tempo vem?
E o que eu penso, enquanto a escuto,
ela o pensará também?



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

12 de jul. de 2014

MAPA DE ANATOMIA: O OLHO



" O Olho  é  uma  espécie   de  globo  ,
é  um  pequeno planeta 
 com  pinturas  do  lado  de  fora .
Muitas  pinturas :
azuis , verdes, amarelas .
É  um  globo brilhante  :
parece  de  cristal ,
é  como um aquário com plantas
finamente  desenhadas :  algas , sargaços ,
miniaturas  marinhas , areias , rochas , naufrágios
e peixes  de  ouro .
 
Mas  por  dentro há outras  pinturas ,
que  não se  vêem :
umas  são  imagens  do  mundo  ,
outras  são  inventadas .
 
O  Olho  é  um  teatro  por dentro .
 
E  às  vezes , sejam  atores , sejam cenas ,
e  às  vezes  sejam   imagens , sejam  ausências
formam ,   no  Olho ,  lágrimas ."
 

Cecília  Meireles ,
in  " Poesia  Completa "
 

7 de jul. de 2014

Até quando terás, minha alma, esta doçura



Até quando terás, minha alma, esta doçura,
este dom de sofrer, este poder de amar,
a força de estar sempre – insegura – segura
como a flecha que segue a trajetória obscura,
fiel ao seu movimento, exata em seu lugar...?


Fevereiro, 1955 


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)


Felizes os que podem mover facilmente os olhos, sem os ver transbordar



Felizes os que podem mover facilmente os olhos, sem os ver transbordar,
oh! abrir e fechar as pálpebras de mil modos,
refletir as variedades do mundo,
revelar as ramagens múltiplas e delicadas da alma
- levemente.


Eu, do coração para cima sou toda lagrimas:
qualquer movimento abala esta secreta arquitetura,
qualquer pequeno descuido pode derramar este oceano
sempre crescente.


Felizes as folhas que o vento da sua carga de orvalho.
Felizes.
Mas o Anjo repete-me sobre cada passo do ponteiro:
“Sustenta a agonia para sempre intacta!”


Para sempre a sustento.


Agosto, 1955



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

Chega o verão



Vamos abrir as janelas ao vento salgado do mar.
Chega o verão, vagarosa nau, de um trêmulo horizonte,
com seu andar de floresta e seus odores enevoados
de resinas espessas e tormentas no alto da tarde.


Nuvens de cupins jorram da sombra, girando em cegueira.
Asas sem peso chovem o arco-íris, semeiam nácar pelos meus dedos.
Oh, por que serão feitas estas mínimas vidas
com tanta perfeição para instantâneas se desfazerem?


Vamos fechar as janelas sobre a noite, com seu vento de fogo.
Aqui vêm, despojados, os cupins pelas mesas,
arrastando-se por entre as próprias asas caídas.
Aqui vêm, num cortejo de desvalidos, de sentenciados...


Oh, dizei-me, dizei-me, que anjos, que santos, que potencias
se ocupam desse silencio movediço, do apressado
itinerário dos moribundos frágeis que passam! 



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

2 de jul. de 2014

As perolas



O mercador dizia-me que as perolas deste colar
levaram dez anos a ser reunidas.
Pequenas perolas
 – de que mares?
 – de que conchas?
 – menores que lagrimas, apenas maiores que grãos
de areia, transpiração das flores.
Talvez o mercador mentisse. Mas a própria mentira
não perturbava a beleza das perolas.
E eu via dez anos, de mar em mar, em muitas mãos,
escuras e magras, sob longos olhares pacientes,
aquele pequeno orvalho medido, perfurado, enfiado
para uma criatura de muito longe, desconhecida
e inesperada, que um dia tinha de recebê-las aqui.


Maio, 1954


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

Poema do nome perdido



Como é teu nome, ó amiga estrangeira,
como é teu nome, ó rosto branco,
madona de tranças tristes, rio de ouro que um vento frisa?


Onde está o teu nome, dentro de mim, que não o encontro?
Acho tuas mãos tão finas, teus olhos verdes,
teu silencio delicado...
Mas teu nome onde está?


Deves começar por A, tão clara tão nítida,
tão perdida...
água...Oh!... Ar... Dize, como te chamas?


Quero escrever-te, e conheço-te,
e não me lembro do teu nome...
Alba... Aurora... Asa... Aragem...


Como te chamas? E por que não me lembro,
lembrando-te tanto, querendo-te tanto?
Decerto, o que estimo em ti não tem nome nenhum.
Nem mesmo o teu.


Mas o teu qual é, ó amiga que assim te escondes?

Cigarra na folhagem, sussurra para que te encontre!

Amália! Amália!


Ó exata, ó fiel, ó geométrica,
é dona das cores matutinas, dos barcos brancos,
das janelas fechadas ao crepusculo!...

Quem separa dentro de mim teu rosto do teu nome?

E procurei-o letra por letra,
como em noite escura se adivinha uma flor,
tocando pétala por pétala.

E eras inúmera! Amália, Amália...

Dália . 


Cecília Meireles
Poesia Completa
In: Dispersos (1918 – 1964)


30 de jun. de 2014

ALUNA



Conservo-te o meu sorriso
para, quando me encontrares,
veres que ainda tenho uns ares
de aluna do paraíso...

Leva sempre a minha imagem
a submissa rebeldia
dos que estudam todo o dia
sem chegar à aprendizagem...

_ e, de salas interiores,
por altíssimas janelas,
descobrem coisas mais belas,
rindo-se dos professores...

Gastarei meu tempo inteiro
nessa brincadeira triste;
mas na escola não existe
mais do que pena e tinteiro!

E toda a humana docência
para inventar-se um ofício
ou morre sem exercício
ou se perde na experiência...

Cecília Meireles,
in Vaga Música











26 de jun. de 2014

EIS A CASA






Eis a casa
menos que ar
imponderável,
no entanto é branca de camélia
e tem perfume de cal

Com seus corredores

O alpendre

As janelas uma a uma

Vê-se o mar. As montanhas. O trem passando
O gasômetro

Vêem-se as árvores por cima com suas flores

A casa imponderável

Mas de cimento madeira tijolos ferro vidro

A pintura prateada das grades cheira a óleo a fruta a luz

A água a pingar cheira a musgo,
soa metálica, trêmula
insetos pássaros líquidos
pequenas estrelas
clarins muito longe

Peitoris gastos de braços antigos
Sombras de borboletas

Eu sei quem comprou a terra
quem pensou nos desenhos
quem carregou as telhas

Passam legiões de formigas pelos patamares

Eu sei de quem era a casa
quem morou na casa
quem morreu

Eu sei quem não pôde viver na casa

É uma casa
com seus andares
suas escadas
seus corredores
varandas
aposentos
alvenaria
muros

imponderável.

Uma casa qualquer.
Cruz que se carrega.
Imponderávelmente, para sempre, às costas.


1961.

Cecília Meireles,
in Dispersos

24 de jun. de 2014

Província




Cidadezinha perdida
no inverno denso de bruma,
que é de teus morros de sombra,
do teu mar de branda espuma,

das tuas árvores frias
subindo das ruas mortas?
Que é das palmas que bateram
na noite das tuas portas?

Pela janela baixinha,
viam-se os círios acesos,
e as flores se desfolhavam
perto dos soluços presos.

Pela curva dos caminhos,
cheirava a capim e a orvalho
e muito longe as harmônicas
riam, depois do trabalho.

Que é feito da tua praça,
onde a morena sorria
com tanta noite nos olhos
e, na boca, tanto dia?

Que é feito daquelas caras
escondendo o seu segredo?
Dos corredores escuros
com paredes só de medo?

Que é feito da minha vida?
abandonada na tua,
do instante de pensamento
deixado nalguma rua?

Do perfume que me deste,
que nutriu minha existência
e hoje é um tempo de saudade,
sobre a minha própria ausência?


Cecília Meireles,
in Viagem







ANUNCIAÇÃO



Toca essa musica de seda, frouxa e trêmula
que apenas embala a noite e balança as estrelas noutro mar.

Do fundo da escuridão nascem vagos navios de ouro,
com as mãos de esquecidos corpos quase desmanchados no vento.

E o vento bate nas cordas, e estremecem as velas opacas,
e a água derrete um brilho fino, que em si mesmo logo se perde.

Toca essa musica de seda, entre areias e nuvens e espumas.

Os remos pararão no meio da onda, entre os peixes suspensos;
e as cordas partidas andarão pelos ares dançando à toa.

Cessará essa musica de sombra, que apenas indica valores de ar.
Não haverá mais nossa vida, talvez não haja nem o pó que fomos.

E a memória de tudo desmanchará sua dunas desertas,
e em navios novos homens eternos navegarão. 


Cecília Meireles
In: Viagem

17 de jun. de 2014

A moça pecadora apareceu-me de branco




A moça pecadora apareceu-me de branco
Toda de cetim branco bordado de vidro e prata.
A cintilante moça pecadora tinha um rosto
de quinze anos.

(Oh, como era belo teu rosto de quinze anos:
belos teus louros cílios,
teus olhos de água-marinha com raios dourados...

Tuas mãos de quinze anos, longas, límpidas, claras,
de unhas cor de perola, 
tuas mãos inocentes!)

E a moça ria-se entre arvores ondulantes,
e era uma ondina saída de algum rio,
e seu vestido era de luz e de água.

Quero encontrar essa moça, quero encontrá-la:
quero ver se ficou sobre ela um pouco desse brilho,
dessa alvura, dessa juventude, dessa castidade
com que me apareceu no sonho deslumbrante,
tênue como o luar:

1959


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

16 de jun. de 2014

FLORISTA




Deixai passar pela margem da tarde
a velha florista
que levanta nos braços o fim das flores:
- imenso chapéu de ramos amontoados.

Vede os tristes cravos desfeitos,
e o lábio oscilante da ultima pétala de rosa.
Os lírios quase líquidos,
moles e túmidos,
prolongam densas lagrimas.

Deixai passar com o fim das flores,
com o fim da vida,
a velha florista,
de saia verde, de xale roxo, de meias grossas,
toda coberta de flores murchas,
de espesso pólen, de mortos espinhos
- canteiro deslizante,
a velha florista,
a escorregar para o ocaso,
lenta e sozinha,
sob os alamos amarelos,
ao longo de muros tão antigos,
como depois de uma grande festa,
de um culto de outrora.



Cecília Meireles
In: Poemas Italianos 


DISCURSO AO IGNOTO ROMANO



Não está no mármore o teu nome.
Nem teu perfil nem tua face
nada revelam do que foste.
Sabemos só que padeceste,
como acontece a qualquer homem;
que foste vivo e contemplaste
o que faz entre a alma e o horizonte,
e, com as grandes estrelas, viste
os vácuos do céu, na alta noite.
Cresceste como o bicho e a planta:
- mas sabendo que há amor e morte.
Houve um pensamento pousado
entre as rugas da tua fronte
e, dos teus olhos aos teus lábios,
vê-se da lagrima o recorte.

Por que foi talhado o teu rosto
nessa pedra pálida e suave,
ninguém se lembra. E as mãos que andaram
nessa escultura, ninguém sabe.
Poderoso foste? Do mundo 
que desejaste? Que alcançaste?
Na raiz das tuas pupilas,
que sonho existiu, na verdade?
Como pensavas que era a vida?
E de ti mesmo que pensaste?
Diante desta bela cabeça,
vendo-a de perfil e de face,
entre os teus olhos e os do artista,
qual terá sido a tua frase?

IGNOTO ROMANO esculpido
por ignota mão, preservando
no silencio da pedra o antigo
rosto, que encobre a ignota sorte,
parado entre sonho e suspiro,
sem gesto, sem corpo, sem roupas,
sem profissão nem compromisso,
sem dizer a ninguém mais nada
nem do amigo nem do inimigo. . .

(E todos os homens – ignotos –
com os olhos nesse claro abismo,
sem saberem que estão parados
ante um puro espelho polido!
Ignoto Romano – soletram. . .
E continuam seu caminho,
certos de terem algum nome,
com pena do desconhecido...)

Abril, 1953


Cecília Meireles
In: Poemas Italianos 


15 de jun. de 2014

Tomar a substancia do dia



Tomar a substancia do dia,
a sua mágica substancia,
e levantá-la como um vaso,
desenhando no seu cristal
desejo, deslumbramento, esperança
na rosa que não é apenas flor,
mas diagrama da perfeição.


E de novo recomeçar,
porque é sempre um novo dia,
e o cristal da sua substancia
foge entre os nossos dedos,
e amarga em nossa boca,
e é puro quartzo de lagrima
que se prepara e forma e quebra
para sempre, na eterna solidão.    



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)


Seja bem-vindo. Hoje é