23 de set de 2010

Para os livros, cujo perfume

Para os livros, cujo perfume
de campo e verniz fascinava
meus olhos e meu pensamento,
não tenho tempo.


Para a flor, o linho, a ramagem,
a cor, que me arrastavam como
por um bosque múrmuro e denso,
não tenho tempo.


Nem para o mar, nem para as nuvens,
nem para a estrela que adorava
não tenho, não tenho, não tenho
não tenho tempo.


Canta o pássaro inútil ritmo,
os homens passam como sombras,
e o mundo é um largo e doido vento.
Não tenho tempo.


Longe, sozinha, arrebatada,
entro no circulo secreto
e a mim mesma não me pertenço.
Não tenho tempo.


Oh, tantas coisas, tantas coisas
que a alma servira com delicia...
(São nebulosas de silencio...)
Não tenho tempo.


Lagrimas detidas – meus olhos.
Sofro, porem já não batalho
entre saudade e esquecimento.
Não tenho tempo.


Aonde me levam? Que destino
governa a delirante vida?
Nem hei de morrer como penso.
Não tenho tempo.


Tão longe esforço, e tão penoso
- e agora fechado o horizonte.
Ó vida, inefável momento,
- não tenho tempo...



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

2 comentários:

  1. Cara amiga

    Que surpresa deliciosa este maravilhoso recanto de Cecília. Sou autor do Blog Quintana Eterno e, como ele, Mario Quintana, admiro demais Cecília (e quem não admira!!!)Poderiamos fazer uma parceria na divulgação de nossos Blogs e de nossos poetas, mestres da palavra e do sentimento.
    Um grande abraço
    Bernardo

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  2. tudo aqui é muito belo . adorei seu espaço com os belos poemas de cecilia meireles !

    voltarei sempre !

    abraços !

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