17 de set de 2010

Personagem

(Paint by Caty Milner)

São os espelhos que me revelam:
Sem eles eu talvez não soubesse de mim.


Personagem incerto:
alguma dimensão, para demarcar-me.


Densidade suficiente para as quedas.
Às vezes, uma perplexa luz.


De nome não se fala, por desnecessário.
De origem não se sabe o que dizer.


Esta unidade insuficiente,
que não consegue ser sozinha.


Sim, conseguiria, se tudo não fossem agressões,
de dentro e de fora.


Que obediência, que disciplina é preciso aceitar?
Que genealogias se impõem?
Flutua-se num rio caudaloso e baço:
toas as gerações já passaram – e que souberam de proveitoso?
De onde provinham? Como se encadearam seus rostos?
Viveram suas obrigações. Que deixaram?
Tudo se perde na origem anônima,
Nessa negra fonte cega.


Que posso eu ter com essas vidas passadas,
se elas nada afinal têm com a minha?
Que somos todos um sangue?
Ah! cada um vive o seu sangue separadamente!



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

4 comentários:

  1. Olá Maria! Antes de mais nada, parabéns pelo blog. Sou admirador de Cecília Meireles, mas não sabia que ela tinha essa "casa" tão elegante e acolhedora. Muito lindo este espaço. Gostaria muito de saber o título de um poema de Cecília Meireles, que fala sobre o viver de aparências. Lembro só da última frase que diz algo como "pena (ou dó) nos causaria". O poema fala de como nos enganamos com a felicidade de muitas pessoas, que, na verdade, nos dariam dó se soubéssemos quem realmente são. Vc saberia qual é? Atenciosamente, Marcos (RJ)

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  2. Olá Marcos, muito grata por suas palavras em referencia ao blog.
    Com as palavras que sugeriste, no momento, só consigo lembrar de "Mal secreto" do poeta Raymundo Correia.

    Se a cólera que espuma, a dor que mora
    N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
    Tudo o que punge, tudo o que devora
    O coração, no rosto se estampasse;

    Se se pudesse o espírito que chora
    Ver através da máscara da face,
    Quanta gente, talvez, que inveja agora
    Nos causa, então piedade nos causasse!

    Quanta gente que ri, talvez, consigo
    Guarda um atroz, recôndito inimigo,
    Como invisível chaga cancerosa!

    Quanta gente que ri, talvez existe,
    Cuja a ventura única consiste
    Em parecer aos outros venturosa!

    ***

    Caso eu recorde de algo similar, da Cecília, postarei no blog para você!
    Um grande abraço,
    Maria Madalena

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  3. pErfeito eu tenho apenas 16 anos mas amo Cecília... Ela é tudo de bom...
    Lívia Pereira.

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  4. amo esta poeta, fiquei grata. pelo apreço a nossa grande Cecilia Meireles.

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