30 de mar de 2011

As valsas


Como se desfazem as valsas
por longos pianos aéreos
que a noite envolve em suas chuvas!
Que ternura nas nossas pálpebras,
pelo exílio suave dos gestos
e dos perfis de antigas musicas!


Os marfins opacos recordam,
com uma graça desiludida,
a aura da morta formosura.
Gente de sonho, sem memória,
entrelaçada, conduzida
por salões de esperanças e duvida.


E eram tão leves, nessas valsas!
E levavam lagrimas entre
seus colares e suas luvas!
E falavam de suas magoas,
valsando, e delicadamente,
com a voz presa e as pestanas úmidas!


Ah, tão longe, tão longe, as salas...
Levados os lustres as vidas,
o amor triste, a humildade loucura...
Ficaram apenas as valsas,
girando cegas e sozinhas,
sem os habitantes da musica!



Cecília Meireles
In: Retrato Natural

25 de mar de 2011

Cantiga Outonal


Outono. As árvores pensando ...
Tristezas mórbidas no mar ...
O vento passa, brando ... brando ...
E sinto medo, susto, quando
Escuto o vento assim passar ...

Outono. Eu tenho a alma coberta
De folhas mortas, em que o luar
Chora, alta noite, na deserta
Quietude triste da hora incerta
Que cai do tempo, devagar ...

Outono. E quando o vento agita,
Agita os galhos negros, no ar,
Minha alma sofre e põe-se aflita,
Na inconsolável, na infinita
Pena de ter de se esfolhar ...


Cecília Meireles
de 'Nunca Mais e Poema dos Poemas'

'CANÇÃO DE OUTONO'


Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o própro coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando áqueles
que não se levantarão...

Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.

Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

1 de mar de 2011

Inicial


Lá na distância, no fugir das perspectivas,
Por que vagueiam, como o sonho sobre o sono,
Aquelas formas de neblinas fugitivas?

Lá na distância, no fugir das perspectivas,
Lá no infinito, lá no extremo... no abandono...

Aquelas sombras, na vagueza da paisagem,
Que tem brancuras de crepúsculos do Norte,
Dão-me a impressão de vir de outrora...de uma viagem...

Aquelas sombras, na vagueza da paisagem,
Dão-me a impressão do que se vê depois da morte...

Lá muito longe, muito longe, muito longe,
Anda o fantasma espiritual de um peregrino...
Lembra um rei mago, lembra um santo, lembra um monge...

Lá muito longe, muito longe, muito longe,
Anda o fantasma espiritual do meu destino...


Cecília Meireles
De Baladas para El-Rei
Seja bem-vindo. Hoje é