16 de jan de 2012

Meus amigos de vento e nuvem


Meus amigos de vento e nuvem,
meus amigos sem rosto algum,
abrem caminhos, mudam casas,
estendem paredes sem fim.


Meus fluidos amigos, num mundo
que existe apenas para mim.


Que longas escadas tão belas,
que luzes sem chama, que amável
cena para uma vida eterna
em cor de amizade e jardim.


Meus amigos estão construindo
um mundo aéreo para mim.


Mãos tão frágeis levantam muros,
corpos voantes transportam ruas,
todos num silencio conjunto
e gestos de anjo e volantim.


Ah, meus invisíveis amigos
que entre os céus trabalhais por mim!


Fevereiro, 1961



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

Trinta anos no vale de exílios da sombra

Trinta anos no vale de exílios da sombra,
tua voz se eleva cintilante, responde-me
com seus cristais clarificados, - e sem nenhum rumor.


Fica repleta a noite e meus ouvidos te reconhecem:
os ouvidos que nem estão no meu corpo
nem na memória, mas só no ausente universo do sono.


Eu te digo: “Espera-me! Desculpa-me!
Vou chegar muito tarde!” E não sei se falo
com palavras ou símbolos, nas dimensões submersas do horizonte.


E eu te digo: “Atira-me a chave!” E deploro-me –
e de muito longe vejo a chave que me atiras,
e que receberei como álibi do sobrenatural.


Assim, eu sou agora, ainda que a mesma, também outra,
em mundo paralelo, com a chave da porta invisível,
e o som da tua voz é uma arvore clara que não se ouve,
numa atmosfera absurda –
como se nos fossemos encontrar, um dia, e continuássemos.


Abril, 4, 1963



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)
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