14 de abr de 2009

Depoimento - Pavilhão Mourisco


Depoimento do poeta Geir de Campos:

“Ao terminar o ano letivo de 1935, em minha passagem da primeira para a segunda série ginasial, motivos de ordem doméstica fizeram-me vir de Campos continuar os estudos no Rio. Minha família morava então numa casa de cômodos da Praia de Botafogo, entre São Clemente e Voluntários, e foi dali que um dia a curiosidade infanto-juvenil me levou ao Pavilhão Mourisco, defronte, para ver o que havia por baixo daquelas cúpulas escamadas e por trás daquelas janelas coloridas: era uma biblioteca infantil especializada, a primeira que se organizava entre nós, e que durou quatro anos, frutificando em uma porção de outras que se espalharam pela cidade e por todo o país.

O Pavilhão Mourisco passou a ser o meu divertimento predileto, pois, além do salão de leitura, a biblioteca tinha também um setor de manualidades (modelagem, pintura, desenho), um de brinquedos e jogos (foi onde encontrei o primeiro "mecanô"), e uma sessãozinha de cinema toda quinta-feira. O dia triste para mim era o Domingo, quando o Pavilhão não abria.

Também me lembro de que qualquer dificuldade pedagógica ou disciplinar era comunicada a Dona Cecília, uma professora morena e alta, de sorriso para quase tudo, que tudo resolvia e ordenava. E vez por outra Dona Cecília tirava-se de seus cuidados administrativos para conversar com os freqüentadores mirins do Pavilhão Mourisco, sobre os livros lidos ou a ler, os brinquedos brincados ou a brincar, os filmes vistos ou a ver, um pouco da vida vivida ou a viver.

No Pavilhão Mourisco vi uma porção de filmes educativos, li o que havia das aventuras de Tarzan, de Sherlock Holmes, dos personagens de Dumas e de Monteiro Lobato, de Júlio Verne, os contos de Grimm e Andersem e Perrault que me deixavam maravilhado. Só muitos anos depois vim a saber que Dona Cecília era Meireles - detalhe que para mim, naquele tempo, nenhuma importância teria: ela era a fundadora e diretora, mas o que me interessava mesmo era a biblioteca infantil com os seus livros e divertimentos, meus únicos divertimentos de garoto pobre naqueles poucos meses.

No ano seguinte matricularam-me na segunda série do Internato Pedro II, e a família se mudou para São Cristóvão, mais propriamente São Januário. O Pavilhão Mourisco ficava longe, longe os livros, os jogos, o cineminha; longe Dona Cecília e suas auxiliares. Depois demoliram o Pavilhão.”

2 comentários:

  1. Nossa, sou FÂ da Cecília!!!!
    Ela é como uma inspiração para mim, gosto muito de escrever poesias e as poesia de Cecília me inspiram muito!!!!

    Bjs a todos os FÂS de nossa querida e amada Cecília Meirelles!!!!!

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  2. Tudo isto é triste

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