11 de mai de 2011

Papeis


I

Tão aflita, perguntava-me: “Por que vim? Por que vim?” Era a note, em
redor. O grande cobertor da noite envolvia-me, opaco, abafava o mundo,
as lagrimas, as lembranças – e o mistério do dia seguinte. E os olhos
abertos não viam nada, na fina cegueira da treva: a parede mais próxima
estava tão longe quanto o horizonte, o universo, Deus. Inclinava a cabeça
nos pulsos onde a idéia da vida batia, batia. Batia desde muito tempo, com
o mesmo compasso, regular seguro, obediente. Batera assim no meio do
céu e no meio do mar, nas ruas todas da terra entre coisas banais e coisas
que pareciam tão graves. Batera assim diante de cóleras, vaidades, mortes,
incompreensões. Batera. Batera assim nos campos da infância, na eterna
madrugada. E houve infância?



II

A infância era uma vastidão de silencio, por mais que cantassem os
pássaros, e que as tempestades rugissem entre os trovões e o vento.
Por mais que as ruas se enchessem de vozerio, que as conversas
familiares circulassem pelas mesas, pelas salas, pelos jardins. A infância
era aquela voz presa atrás de muros. Aquela pergunta a subir no tempo.
Que só o tempo responderá.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

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