14 de abr de 2014

Ninguém me venha dar vida




Ninguém me venha dar vida,
que estou morrendo de amor,
que estou feliz de morrer,
que não tenho mal nem dor,
que estou de sonho ferida,
que não me quero curar,
que estou deixando de ser 
e não me quero encontrar,
que estou dentro de um navio
que sei que vai naufragar,
já não falo e ainda sorrio,
porque está perto de mim
o dono verde do mar
que busquei desde o começo,
e estava apenas no fim.


Corações, por que chorais?
Preparai meu arremesso
para as algas e os corais.


Fim ditoso, hora feliz:
guardai meu amor sem preço,
que só quis a quem não quis.

1947



Cecília Meireles
In: Dispersos (1918-1964)

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