20 de mai de 2011

Canção


Se não chover nem ventar,
se a lua e o sol forem limpos
e houver festa pelo mar
- ir-te-ei visitar.


Se o chão se cobrir de flor,
e o endereço estiver claro,
e o mundo livre de dor
- ir-te-ei ver, amor.


Se o tempo não tiver fim,
se a terra e o céu se encontrarem
à porta do teu jardim
- espera por mim.


Cantarei minha canção
com violas de eternamente
que são de alma e em alma estão.
- De outro modo, não.

Maio, 1960



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

Elegia


Destes obscuros canteiros da alma,
destes bosques do coração,
desta melancolia da morte
sobem as vozes, com ramos de lágrimas.


Assim partis,
sem terras, ares, mares:
só pela invisibilidade,
sem saberdes sequer que estais partindo.


Não nos podemos mais saudar nem despedir,
ó amigos,
nem repartir o pão da nossa mesa
e a luz dos nossos sonhos.


Sois agora como estátuas
em solidões silenciosas,
entre solenes paredes de saudade,
em sítios suspensos do pensamento.


Mais longe que aquela nuvem.
Mais longe que qualquer céu.
Podemos pensar mais longe.
E quereríamos que um dia voltásseis,


para sermos outra vez amigos.
(Ramos de lágrimas, as vozes.)



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

11 de mai de 2011

Papeis


I

Tão aflita, perguntava-me: “Por que vim? Por que vim?” Era a note, em
redor. O grande cobertor da noite envolvia-me, opaco, abafava o mundo,
as lagrimas, as lembranças – e o mistério do dia seguinte. E os olhos
abertos não viam nada, na fina cegueira da treva: a parede mais próxima
estava tão longe quanto o horizonte, o universo, Deus. Inclinava a cabeça
nos pulsos onde a idéia da vida batia, batia. Batia desde muito tempo, com
o mesmo compasso, regular seguro, obediente. Batera assim no meio do
céu e no meio do mar, nas ruas todas da terra entre coisas banais e coisas
que pareciam tão graves. Batera assim diante de cóleras, vaidades, mortes,
incompreensões. Batera. Batera assim nos campos da infância, na eterna
madrugada. E houve infância?



II

A infância era uma vastidão de silencio, por mais que cantassem os
pássaros, e que as tempestades rugissem entre os trovões e o vento.
Por mais que as ruas se enchessem de vozerio, que as conversas
familiares circulassem pelas mesas, pelas salas, pelos jardins. A infância
era aquela voz presa atrás de muros. Aquela pergunta a subir no tempo.
Que só o tempo responderá.



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

2 de mai de 2011

O rosto que me encontro...


O rosto que me encontro
e que a nuvem contempla
vai-se mudando noutro
só pelo que relembra.


De caminhos andados,
se levanta e suspira,
contando sonhos gastos
e palavras perdidas.


Tudo o que parecia,
tudo quanto não era,
tirou-lhe o gosto à vida
e a ternura da terra.


Guardei para o silencio
os tempos de renuncia:
quando meus sonhos penso,
vejo que sempre é nunca.


E é tão bela a tristeza,
que nem o amor alado
deixará dentro dela
mais que um desenho vago.


(Areia que aparece
dentro de águas que fogem,
sinto que te disperses
pela memória, longe...)



Cecília Meireles
In: Canções (1956)
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