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20 de abr. de 2014

Das três princesas



As três Princesas silenciosas
Virão da sombra de outros mundos,
Trazendo aromas, nevoas, rosas...

As três Princesas silenciosas
Que dão consolo aos moribundos...

Da alma das noites desoladas
Hão de surgir, mudas, piedosas,
Loiras e lindas como fadas...

Da alma das noites desoladas
As três Princesas silenciosas...

As três Princesas silenciosas
Virão dizer quando termino...
Virão trazer-me astros e rosas...

As três Princesas silenciosas,
As fiandeiras do meu destino...

E as longas, mórbidas tristezas
Das minhas horas dolorosas
Desaparecerão surpresas,

À chegada das três Princesas,
Das três Princesas silenciosas... 



Cecília Meireles
In: Baladas para El-Rei (1925)

10 de abr. de 2014

Do meu outono




O outono vai chegar... Neva a névoa do outono...
Perdem-se astros sem luz... Anda em choro a folhagem...
Há desesperos silenciosos de abandono...


O outono vai chegar... Neva a névoa do outono...
E eu sofro a angustia irremediável da paisagem...


O outono vai chegar... O outono vem tão cedo!
Irão morrer flores e estrelas, como as crianças
Tristes e mudas, que impressionam, fazem medo?


O outono vai chegar... Têm vozes do passado
As horas loiras, a cantarem vagarosas,
Com ressonâncias de convento abandonado...


Vozes de sonho, vozes lentas, do passado,
Falando coisas nebulosas, nebulosas...


O outono vai chegar, como um poeta descrente
Que funerais desilusórios acompanha...


O outono vai chegar... Neva a névoa do outono...
Perdem-se astros sem luz... Anda em choro a folhagem...
Há desesperos silenciosos de abandono...


O outono vai chegar... Neva a nevoa do outono...
E eu sofro a angustia irremediável da paisagem... 



Cecília Meireles
In: Baladas para El-Rei (1925)

Das avozinhas mortas



As avozinhas acordaram
Porque eu chorei, no meu violino,
Um morto amor que elas choraram...

Na meia-noite do destino,
As avozinhas acordaram...

As ultima arcada era tão triste
Que os meus olhos se emocionaram...
Coisas tão longe do que existe!

E as avozinhas recordaram
Todo um passado ausente e triste...

As avozinhas murmuraram
Frases antigas como lendas...
Frases, decerto, que escutaram

Entre jóias, leques e rendas...
As avozinhas murmuraram...

De alma, porém, desiludida,
Os olhos úmidos fecharam...
E, no ermo sonho da outra vida,

As avozinhas continuaram
A partitura interrompida... 



Cecília Meireles
In: Baladas para El-Rei (1925)

Suavíssima



Os galos cantam, no crepúsculo dormente...
No céu de outono, anda um langor final de pluma
Que se desfaz por entre os dedos, vagamente...

Os galos cantam, no crepúsculo dormente...
Tudo se apaga, e se evapora, e perde, e esfuma...

Fica-se longe, quase morta, como ausente...
Sem ter certeza de ninguém... de coisa alguma...
Tem-se a impressão de estar bem doente, muito doente,

De um mal sem dor, que se não saiba nem resuma...
E os galos cantam, no crepúsculo dormente...

Os galos cantam, no crepúsculo dormente...
A alma das flores, suave e tácita, perfuma
A solitude nebulosa e irreal do ambiente...

Os galos cantam, no crepúsculo dormente...
Tão para lá!... No fim da tarde... Além da bruma...

E silenciosos, como alguém que se acostuma
A caminhar sobre penumbras, mansamente,
Meus sonhos surgem, frágeis, leves como espuma...

Põem-se a tecer frases de amor, uma por uma...
E os galos cantam, no crepúsculo dormente... 



Cecília Meireles
In: Baladas para El-Rei (1925)


5 de nov. de 2013

PARA MIM MESMA

 Para os meus olhos, quando chorarem,
Terem belezas mansas de brumas,
Que na penumbra se evaporarem...

Para os meus olhos, quando chorarem,
Terem doçuras de auras e plumas...

E as noites mudas de desencanto
Se constelarem, se iluminarem
Com os astros mortos que vêm no pranto...

As noites mudas de desencanto...
Para os meus olhos, quando chorarem...

Para os meus olhos, quando chorarem,
Terem divinas solicitudes
Pelos que mais os sacrificarem...

Para os meus olhos, quando chorarem,
Verterem flores sobre os paludes...

Para que os olhos dos pecadores
Que os humilharem, que os maltratarem,
Tenham carinhos consoladores.

Se, em qualquer noite de ânsias e dores,
Os olhos tristes dos pecadores
Para os meus olhos se levantarem...


Cecília Meireles
In: Baladas para El-Rei

1 de mar. de 2011

Inicial


Lá na distância, no fugir das perspectivas,
Por que vagueiam, como o sonho sobre o sono,
Aquelas formas de neblinas fugitivas?

Lá na distância, no fugir das perspectivas,
Lá no infinito, lá no extremo... no abandono...

Aquelas sombras, na vagueza da paisagem,
Que tem brancuras de crepúsculos do Norte,
Dão-me a impressão de vir de outrora...de uma viagem...

Aquelas sombras, na vagueza da paisagem,
Dão-me a impressão do que se vê depois da morte...

Lá muito longe, muito longe, muito longe,
Anda o fantasma espiritual de um peregrino...
Lembra um rei mago, lembra um santo, lembra um monge...

Lá muito longe, muito longe, muito longe,
Anda o fantasma espiritual do meu destino...


Cecília Meireles
De Baladas para El-Rei

12 de nov. de 2009

Soturna




Olhas o céu, que é a flama azul do olhar de um santo.
Parece, até, que, de tão fluida, a luz é aroma...

E eu, vendo o céu lúcido assim, penso no pranto
De súlfur vivo que escorreu sobre Sodoma...

Olhas os ramos, na opulência e na indolência...
Lembras sazões, pomos, desejos e pecados...

E eu, nesses ramos, sinto a lúgubre cadencia
Da pendular oscilação dos enforcados...

Olhas a terra toda em flor... Falas na gloria
De messidores, de farturas, de celeiros...

Diante da terra, oiço a canção desilusoria
Da ronda triste e sonolenta dos coveiros...

Olhas o mar em que o oiro-azul do céu se estrela:
Não sentes, vendo-o, nem pavores nem presságios...

E eu, pelo mar, vejo os espectros da procela,
E as naus sem norte, os precipícios, e os naufrágios...

Olhas a Vida... E ouves, da terra aos céus, o coro
Propiciatório de alegrias e noivado...

Dos céus à terra, eu sinto as suplicas e o choro
Dos prisioneiros, ofendidos, degradados...

Diante da Morte, unicamente, se alevanta
Minha alma em luz, serena e só, tranqüila e forte...

E, diante dela, o seu louvor sem frases canta...
Que é que tu sentes, meu Irmão, diante da Morte?



Cecília Meireles
In: Baladas para El-Rei (1925)

Na grande noite tristonha



Na grande noite tristonha,
Meu pensamento parado
Tem quietudes de cegonha
Numa beira de telhado.

- Na grande noite tristonha...

Lembram planícies desertas
De uma paisagem do Norte,
As perspectivas abertas
No mundo da minha sorte...

- Lembram planícies desertas...

Ao longe, distancias ermas...
Em tudo quanto se abarca
Há ligeirezas enfermas
De luas da Dinamarca...

- Ao longe, distancias ermas...
Em tudo quanto se abarca
Há ligeirezas enfermas
De luas da Dinamarca...

- Ao longe, distancias ermas...

E sob olhares em pranto
De estrelas alucinadas,
Vais – coroa, cetro e manto,
Ó Rei das minhas baladas!

- E sob olhares em pranto...
......................................................
Na grande noite tristonha,
Meu pensamento parado
Tem quietudes de cegonha
Numa beira de telhado.

- Na grande noite tristonha...

E eu sonho o meu sonho oculto
De ave triste – que não voa,
Detida a ver o teu vulto
De cetro, manto e coroa...

- Eu sonho o meu sonho oculto...


Cecília Meireles
In: Baladas para El-Rei (1925)
Seja bem-vindo. Hoje é