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20 de abr. de 2014

Meninas sonhadas



As três meninas são muito leves
cor de laranja
com seus vestidos de fina gaze
plissados.


Elas são como três grandes leques
plissados
abrindo ao sol gazes redondas
cor de laranja.

São muito leves as três meninas
cor de laranja
como brinquedos de papel fino
plissados.

Posso exibi-las no ar: seus vestidos
plissados 
cheios de vento: balões, lanternas
cor de laranja.

As três meninas são muito leves
cor de laranja:
talvez não sejam mais que vestidos
plissados.

Talvez não sejam mais do que hibiscos
plissados,
flores de seda, papel de flores
cor de laranja.

Pétalas tênues, nimbo da lua
cor de laranja
por pensamentos adormecidos
plissados.

1961



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

15 de abr. de 2014

Menina do sonho




Menina do sonho,
filha não vivente,
desenho da noite,
piedosa menina,
toca a doce musica
do teu alaúde,
mensagem do tempo,
muito necessária,
porém tão discreta,
delicada e tímida
que se comunica
em noite, somente,
em nuvem de sonho,
sem vida verídica:
esta caridade 
sobre o sofrimento
do dia, do mundo,
das palavras de ódio.
Toca a doce musica
do teu alaúde:
filha não vivente,
toda consolante,
de que céu descida
sem nenhum apelo
e aos céus retornada,
límpida e incorpórea,
numa noite única.


Nunca misterioso,
vivo para sempre,
som dentro do sonho,
desatando angustias,
abafando vozes,
convertendo lagrimas.


A aurora, no entanto,
vem depois da musica
e ainda traz nos olhos
sinistros impérios
cobertos de espadas

1961

Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

Sonho com carneirinhos e falas meigas




O carneirinho que em sonho
pousa as mãos delicadas
sobre o meu coração:
é o de Blake? é o de Cristo?
Ou o de São João?


Com voz humana fala,
mais que a dos homens humana:
diz que tem fome de pão.
(Oh! A que pão se refere?)
E beija-me na mão.


E eu me sinto pastora
em campo sem horizonte.
Meu campo é só lagrima e resignação.
Que te posso dar, carneirinho meigo
de Blake, de Cristo ou de São João?


Viveremos de fome,
de uma fome encantada
do espírito do ar e do chão.
Em fome nos transcendermos,
ininteligíveis na vigília, irmão. 


Conversaremos em sonho,
tão simples e sobre-humanos,
numa inviolável comunicação.
Pasceremos símbolos, bailaremos glorias
por tempos sem fim de perdão.


1960



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

25 de fev. de 2014

SAIS PELO SONHO COMO DE UM CASULO E VOAS




Sais pelo sonho como de um casulo e voas.

Com tal leveza podes percorrer o mapa
e ir e vir ao acaso, ar e nome:
como as borboletas.

Não és tu, mas a tua memória com asas.

E abrem-se os palácios,
e percorres os tesouros guardados,
e és sorriso e silêncio
e já nem precisas mais de asas.

Na noite encontras o dia, claro e durável
Voas sobre séculos e horóscopos
Ouves dizer que te amam
como ninguém jamais o poderia confessar.

Não tens idade nem tribo,
nem rosto nem profissão.
Podes fazer o que quiseres com palavras,harpas,almas.

E quando voltas ao teu casulo
já não tens medo nenhum da morte.
E em teu pensamento há néctar e pólen.

Cecília Meireles
In Sonhos

23 de abr. de 2010

Sonho com plantas e gestos amáveis


Em sonho vireis delicadamente
e sem motivo algum
direis palavras amáveis
que vos surpreenderiam
se vos fossem contadas.


Em sonho mandareis colocar no meu terraço
plantas cheias de flores
que todos admirariam,
pois jamais foram vistas
da China à Patagônia
e existem apenas neste sonho.


Jamais saberei o que sonháveis
enquanto eu sonhava com as vossas gentilezas.
Jamais sabereis que tais gentilezas foram sonhadas.


Sem motivo algum,
ficam floridos noutro mundo os meus terraços.
E somente eu poderei pensar nisso.
Somente eu vi tudo isso.


E é como um achado arqueológico,
momentâneo e perene
entre o ar e o pó.


1959



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

16 de mar. de 2010

Trinta anos no vale de exílios da sombra



Trinta anos no vale de exílios da sombra,
tua voz se eleva cintilante, responde-me
com seus cristais clarificados, - e sem nenhum rumor.


Fica repleta a noite e meus ouvidos te reconhecem:
os ouvidos que nem estão no meu corpo
nem na memória, mas só no ausente universo do sono.


Eu te digo: “Espera-me! Desculpa-me!
Vou chegar muito tarde!” E não sei se falo
com palavras ou símbolos, nas dimensões submersas do horizonte.


E eu te digo: “Atira-me a chave!” E deploro-me –
e de muito longe vejo a chave que me atiras,
e que receberei como álibi do sobrenatural.


Assim, eu sou agora, ainda que a mesma, também outra,
em mundo paralelo, com a chave da porta invisível,
e o som da tua voz é uma arvore clara que não se ouve,
numa atmosfera absurda –
como se nos fossemos encontrar, um dia, e continuássemos.


Abril, 4, 1963



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

Pela flor amarela viajaremos



Pela flor amarela viajaremos:
afastaremos as nuvens espessas
e as florestas de espinhos.


Pela flor amarela, vamos e voltamos,
por escadas escuras, corredores estreitos,
falando a desconhecidos.


Onde está, dizei-nos, a flor amarela?
Era minha? era vossa? era do seu próprio instante,
era sua, cativa por algum caçador floral?


Pela flor amarela atravessaremos a pedra,
o vidro, o metal, as palavras.
Atravessaremos o coração, como quem se mata.


Atravessaremos um novo mar desconhecido,
correremos Áfricas e Ásias, pólo e tropico,
e jogaremos nossa vida entre as estrelas.


A flor amarela está guardada em si mesma,
seu perfume, sob mil pétalas tranqüilas,
seu pólen resguardado contra o vão descobrimento.


1962



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

5 de mar. de 2010

Em algum lugar me encontro deitada


(Roman Zaslonov)


Em algum lugar me encontro deitada
com longos vestidos graves,
como um quadro, tênue de cor, muito sereno.


E reconheço-me.


Não há paisagem nenhuma, apenas um vazio imenso,
a luz de um crepúsculo imóvel,
uma grandiosa quietude.


Em algum lugar me encontro assim deitada,
sem brisa que me altere, presença que me perturbe.
Do céu à terra, de leste a oeste, tudo é muito longe,
infinitamente,
num lugar de nenhum país.


Horizontes de esquecimento circundam a imagem,
a imagem minha que parece venturosa,
que descansa em nobre solidão,
que talvez esteja sonhando
sonhos que jamais conhecerei,
mas que dão a seus olhos fechados
uma plácida curva.


Reconheço-me e ignoro-me.
(Uma noite dentro de outra noite.)


1958



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos

23 de fev. de 2010

'Apontamento'



Ó noite, ó noite, ó noite!
Luar e primavera
e os telhados cobrindo
sonhos que a vida gera!


Subo por essas horas
solitária e sincera,
e encontro, exausta e pura,
minha alma que me espera.


2, Maio, 1959


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

Sonhei um sonho


(Joan Miró)

Sonhei um sonho
e lembrei-me do sonho
e esqueci-me do sonho
e sonhei que procurava
em sonho aquele sonho
e pergunto se a vida
não é um sonho que procurava um sonho.


1959

Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

Venho do Sono


(Guillaume Seignac)

Venho do Sono,
desse fluido país
do pensamento visível,
dos endereços divinos,
dos nomes de amor,
das gloriosas ressurreições.


Venho do Sono.


Ai! distancias profundas...
E olho-me ao espelho.


1959


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

18 de fev. de 2010

Cerejas na prata



Em grandes bandejas de clara prata
há cerejas vermelhas, muito cintilantes.
Serão as manhãs nórdicas suspensas na noite?
lençóis d’água, ramos de flores?


Serão as pedras sangrentas de que coroas,
de que reinados – ó Golconda a meus pés
desfeita em sombra...?
Serão gotas de sangue, ó Crucifixos,
ó dor humana e divina alçada entre lanças
de pólo a pólo...?


Serão apenas lagrimas
vossas
minhas
nossas
estas lagrimas que vão e vêm pela nossas veias
e aparecem aqui resplandecentes,
anônimas e tão poderosas,
subitamente mostradas
e logo depois
em sonho, eternidade, gloria
confundidas...
Ah, o tempo!
Cerejas de fogo no rosto da prata quieta.


1961



Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

29 de jan. de 2010

Com agulhas de prata



Com agulhas de prata
de brilho tão fino
bordai as sedas do vosso destino.


Bordai as tristezas
de todos os dias
e repentinamente as alegrias.


Que fiquem as sedas
muito primorosas
mesmo com lagrimas presas nas rosas.


Com agulhas de prata
de brilho tão frio...
ai, bordai as sedas, sem partir o fio!


1961


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)

Uma noite me balancei no céu


(Tela by Jean-Honoré Frangonard)

Uma noite me balancei no céu.
O balanço era de flores ou de estrelas,
e suas pontas perdiam-se no Norte e no Sul,
e atiravam-me de Leste a Oeste.


Desci do sonho melancólica.
Às vezes suspiro por esse alto sonho.
Contá-lo não é nada: mas vivê-lo:
mas estar longe, numa solidão deleitosa,
mas crer, afinal, que há um tempo de viver...


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Sonhos (1950-1963)
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