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14 de jun. de 2014

O ELEFANTE


foto by Sebastião Salgado


O rugoso elefante pousa as patas cuidadosas nas pedras,
Pedras do imenso caminho, sinuoso e íngreme,
Entre as antigas muralhas e as altas frondes,
E vai subindo devagar para o palácio- fatigado patriarca.

O rugoso elefante tem apenas um velho manto amarelo,
Manto amarelo esgarçado e pobre, que não se parece
Com as coberturas soberbas, os brocados que outrora
Envolveram seus ancestrais, portadores de palanquins.

O rugoso elefante é um grande mendigo, e atrás dele vão e vêm
As crianças tênues, de dentes claros, que agitam raminhos
E com voz de brincadeira vão dizendo aos viajantes:
“Bakhshish! Bakhshish!Bakhshish!”
Para ganharem alguma pequena moeda negra.

Vão cantando assim. E seus dentes são mesmo pequenas pérolas,
E o elefante protege as crianças com sua sombra,
Levando-as na tromba, ri com os olhos, é um avô complacente,
Que vai morrendo entre bondades, alegrias, pobreza, lembranças.


Cecilia Meireles
In Poemas Escritos na Índia






26 de mai. de 2014

ANOITECER



Ao longo do bazar brilham pequenas luzes.
A roda do último carro faz a sua última volta.
Os búfalos entram pela sombra da noite,
onde se dispersam.

As crianças fecham os olhos sedosos.
As cabanas são como pessoas muito antigas,
sentadas, pensando.

Uma pequena música toca no fim do mundo.

Uma pequena lua desenha-se no alto do céu.

Uma pequena brisa cálida
flutua sobre a árvore da aldeia
como o sonho de um pássaro.

Oh, eu queria ficar aqui,
pequenina.


Cecília Meireles,
in Poemas escritos na Índia


30 de abr. de 2014

TAJ-MAHAL



Somos todos fantasmas
evaporados entre água e frondes,
com o luar e o zumbido do silêncio,
a música dos insetos,
gaze tensa na solidão.

De vez em quando, uma borbulha d'água:
pérola desabrochada,
súbito jasmim de cristal aos nossos pés.

Fantasmas de magnólias, as cúpulas brancas,
orvalhadas de estrelas, na friagem noturna.

Tudo como através de lágrimas,
com as bordas franjadas de antiguidade,
de indecisos limites,
e um vago aroma vegetal, logo esquecido.

Tudo celeste, inumano, intocável,
subtraindo-se ao olhar, às mãos:
fuga das rendas de alabastro e dos jardins minerais,
com lírios de turquesa e calcedônia
pelas paredes;
fuga das escadas pelos subterrâneos.
E os pés naufragando em sombra.

Eis o sono da rainha adorada:
longo sono sob mil arcos, de eco em eco.
(Fuga das vozes, livres de lábios, independentes,
continuando-se...)

Vêm morrer castamente os bogaris sobre os túmulos.

Movem-se apenas sedas, xales de lã,
alvuras: como sem corpo nenhum.

Tudo mais está imóvel, estático:
mesmo o rio, essa vencida espada d'água:
mesmo o lago, esse rosto dormente.

Entre a morte e a eternidade, o amor,
essa memória para sempre.

Foi uma borbulha d'água que ouvimos?
Uma flor que desabrochou?
Uma lágrima na sombra da noite,
em algum lugar?


Cecilia Meireles, 
in Poemas escritos na Índia




PÁGINA



Entre mil jorros de arco-íris e entrelaçados arroios
entre mil flóreos turbantes e faixas vermelhas
e rendas de jaspe e chispas de pássaros
e coleções de flores nunca vistas,
_um sorriso brilha,
um gesto pára desenhado
e uma palavra se imprime.

É uma figura, apenas,
na riqueza prolixa
da imensa tarde oriental.

Entre arabescos de mil voltas,
um verso antigo.

Uma palavra imortal, sózinha.

E o resto, a farfalhante floresta
da intricada moldura.


Cecília Meireles,
in Poemas escritos na Índia



MAHATMA GANDHI



Nas grandes paredes solenes, olhando, 
o Mahatma. 

Longe no bosque, adorado entre incensos, 
o Mahatma. 

Nas escolas, entre os meninos que brincam, 
o Mahatma. 

Em frente do céu, coberto de flores, 
o Mahatma. 

Na vaca, na praia, no sal, na oração, 
o Mahatma. 

De alto a baixo, de mar a mar, em mil idiomas, 
o Mahatma. 

Construtor de esperança, mestre da liberdade, 
o Mahatma. 

Noite e dia, nos poços, nos campos, no sol e na lua,
o Mahatma. 

No trabalho, no sonho, falando lúcido, 
o Mahatma. 

De dentro da morte falando vivo, 
o Mahatma. 

Na bandeira aberta a um vento de música, 
o Mahatma. 

Cidades e aldeias escutam atentas: 
é o Mahatma. 


Cecília Meireles,
in Poemas escritos na Índia

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