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7 de out. de 2009

Defronte da janela em que trabalho



Defronte da janela em que trabalho.
Nas horas quietas, em que tudo dorme,
Sobranceira e viril, como um carvalho,
Alevanta-se espessa arvore enorme.

O zéfiro um momento encrespa um galho
À sua barba: e, ou seja que a transforme
O vento ou meu olhar, a arvore enorme,
Erguida ante a janela em que trabalho,

Toma a feição de uma cabeça rude,
Sonolenta e selvatica oscilando
Numa estranha, fantástica atitude.

E, posta a contemplá-la, esta alma cuida
Ver sob o azul do céu, diáfano e brando,
A fronte erguer, leonina, o ultimo druida.


Cecília Meireles
In: Espectros

21 de set. de 2009

Evocação


(Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais, Paris -1732-1799)

(Lendo Beaumarchais)


Noite fresca e serena. Aberta a gelosia
Do florido balcão, numa penumbra leve,
Dorme a câmara avoenga. O vulto a um canto amplia
O velho cravo mudo. O luar Poe tons de neve


No embutido do assoalho, em que a sombra descreve,
Larga e aconchegadora, a poltrona macia,
Onde sonha, esquecida, uma guitarra breve
O seu sonho eternal de amor e melodia.


Há um perfume no ambiente – um perfume de outrora,
Muito vago, a lembrar todo um passado morto...
... E é quando no silencio um largo acorde chora,


e sente-se fremir, numa estranha dolência,
sob o esplendido céu, calmo, profundo, absorto,
a alma de Querubim, na ansiosa adolescência...



Cecília Meireles
In: Espectros

4 de set. de 2009

Espectros



Nas noites tempestuosas, sobretudo
Quando lá fora o vendaval estronda
E do pélago iroso à voz hedionda
Os céus respondem e estremece tudo,


Do alfarrábio, que esta alma ávida sonda.
Erguendo o olhar; exausto a tanto estudo,
Vejo ante mim, pelo aposento mudo,
Passarem lentos, em morosa ronda,


Da lâmpada à inconstante claridade
(Que ao vento ora esmorece ora se aviva,
Em largas sombras e esplendor de sois),


Silenciosos fantasmas de outra idade,
À sugestão da noite rediviva
- Deuses, demônios, monstros, reis e heróis.


Cecília Meireles
In: Espectros (1919)
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