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29 de mai. de 2014

MIMETISMO



O sábio no jardim sorria
do artifício da borboleta
convertida em folha amarela
até com manchas e defeitos.

O sábio sorria daquela
mentira. Ó colorido embuste!
Ó fingimento desenhado
por cegos presságios e sustos!

Para salvar seu breve tempo,
- tempo de inseto - dom dos vivos,
tinha a borboleta bordado
seu sigiloso mimetismo.

( atrás das máscaras, que morte
pode alcançar o oculto pólo
sensível, no pulsante abismo
onde a hora de existir se acolhe?)

Sendo e não sendo, perto e longe,
escondia-se, ignota e inquieta,
guardando, em paredes de medo,
a esperança da seiva eterna.

O sábio no jardim sorria
do cauteloso fingimento,
de tênue silêncio expectante
sobre os universais segredos.


Cecília Meireles -
In 'O Estudante Empírico'

10 de set. de 2013

ANATOMIA



 
É triste ver-se o homem por dentro:
tudo arrumado, cerrado, dobrado
como objetos num armário.
 
A alma, não.
 
É triste ver-se o mapa das veias,
e esse pequeno mar que faz trabalhar seus rios
como por obscuras aldeias
indo e vindo, a carregar vida, estranhos escravos.
 
Mas a alma?
 
É triste ver-se a elétrica floresta
dos nervos: para estrelas de olhos e lagrimas,
para a inquieta brisa da voz,
para esses ninhos contorcidos do pensamento.
 
E a alma?
 
É triste ver-se que de repente se imobiliza
esse sistema de enigmas,
de inexplicado exercício,
antes de termos encontrado a alma.
 
Pela alma choramos.
Procuramos a alma.
Queríamos alma.
 
Agosto, 1959
 
 
Cecília Meireles
In: O Estudante Empírico (1959-1964)


24 de set. de 2011

A NOITE

A noite é essa escuridão tão envolvente
que parece um exercício de morte:
assim vai desaparecendo tudo,
assim desaparecemos dos outros
e de nós.

Apenas respiramos.
Podem cortar esse último fio
— e o tear que somos se imobiliza.

A noite esconde a terra, o céu a casa,
os vossos rostos.

Estou novamente dentro de uma entranha?
Humana? Cósmica? Em que entranha me aninho,
onde se enrola o novelo da minha memória,
em que cofre, na escuridão?

Nossas asas estão docemente fechadas
e nossos olhos moram no pensamento.

Cada um tem a sua noite.
Cada coisa.
E tudo está na sua noite,
enquanto é noite.

O dia é um bailarino com sinos e espelhos

Interrompemos a treva onde aprendíamos lembranças;
e somos de repente uns falsos acordados.

1960

Cecília Meireles.
In: ‘O Estudante Empírico’ p. 9/10

5 de jul. de 2010

Não sei distinguir no céu as varias constelações


Não sei distinguir no céu a varias constelações:
não sei os nomes de todos os peixes e flores,
nem dos rios nem das montanhas:
caminho por entre secretas coisas,
a cada lugar em que meus olhos pousam,
minha boca dirige uma pergunta.


Não sei o nome de todos os habitantes do mundo.
nem verei jamais todos os seus rostos,
embora sejam meus contemporâneos.


Não, não sei, na verdade, como são em corpo e alma
todos os meus amigos e parentes.
Não entendo todas as coisas que dizem,
não compreendo bem de que vivem, como vivem,
como pensam que estão vivendo.


Não me conheço completamente,
só nos espelhos me encontro,
tenho muita pena de mim.


Não penso todos os dias exatamente
do mesmo modo.
As mesmas coisas me parecem a cada instante diversas.
Amo e desamo, sofro e deixo de sofrer,
ao mesmo tempo, nas mesmas circunstancias.


Aprendo e desaprendo,
esqueço e lembro,
meu Deus, que águas são estas onde vivo,
que ondulam em mim, dentro e fora de mim?


Se dizem meu nome, atendo por habito.
Que nome é o meu?
Ignoro tudo.


Quando alguém diz que sabe alguma coisa,
fico perplexa:
ou estará enganado, ou é um farsante
- ou somente eu ignoro e me ignoro e me ignoro desta maneira?


E os homens combatem pelo que julgam saber.
E eu, que estudo tanto,
inclino a cabeça sem ilusões,
e a minha ignorância enche-me de lagrimas as mãos.


1960



Cecília Meireles
In: O Estudante Empírico

23 de fev. de 2010

'Desenho'


(Kasimir Malevich)

Traça a reta e a curva,
a quebrada e a sinuosa.
Tudo é preciso.
De tudo viverás.


Cuida com exatidão da perpendicular
e das paralelas perfeitas.
Com apurado rigor.
Sem esquadro, sem nível, sem fio de prumo,
traçaras perspectivas, projetaras estruturas.
Numero, ritmo, distancia, dimensão.
Tens os teus olhos, o teu pulso, a tua memória.


Construirás os labirintos impermanentes
que sucessivamente habitaras.


Todos os dias estarás refazendo o teu desenho.
Não te fatigues logo. Tens trabalho para toda a vida.
E nem para o teu sepulcro terás a medida certa.


Somos sempre um pouco menos do que pensávamos.
Raramente, um pouco mais.


1963



Cecília Meireles
In: O Estudante Empírico (1959-1964)

10 de fev. de 2010

A noite



A noite é essa escuridão tão envolvente
que aparece um exercício de morte:
assim vai desaparecendo tudo,
assim desaparecemos dos outros
e de nós.


Apenas respiramos.
Podem cortar esse ultimo fio
- e o tear que somos se imobiliza.


A noite esconde a terra, o céu, a casa,
os vossos rostos.


Estou novamente dentro de uma entranha?
Humana? Cósmica? Em que entranha me aninho,
onde se enrola o novelo da minha memória,
em que cofre, na escuridão?


Nossas asas estão docemente fechadas
e nossos olhos moram no pensamento.


Cada um tem a sua noite.
Cada coisa.
E tudo está na sua noite,
enquanto é noite.


O dia é um bailarino com sinos e espelhos.


Interrompemos a treva onde aprendíamos lembranças;
e somos de repente uns falsos acordados.

1960



Cecília Meireles
In: O Estudante Empírico (1959-1964)

Anatomia



É triste ver-se o homem por dentro:
tudo arrumado, cerrado, dobrado
como objetos num armário.


A alma, não.


É triste ver-se o mapa das veias,
e esse pequeno mar que faz trabalhar seus rios
como por obscuras aldeias
indo e vindo, a carregar vida, estranhos escravos.


Mas a alma?


É triste ver-se a elétrica floresta
dos nervos: para estrelas de olhos e lagrimas,
para a inquieta brisa da voz,
para esses ninhos contorcidos do pensamento.


E a alma?


É triste ver-se que de repente se imobiliza
esse sistema de enigmas,
de inexplicado exercício,
antes de termos encontrado a alma.


Pela alma choramos.
Procuramos a alma.
Queríamos alma.


Agosto, 1959



Cecília Meireles
In: O Estudante Empírico (1959-1964)

O sol está numa tal posição



O sol está numa tal posição,
que de todos os lados se vê o mesmo.


Ah, que amor incontestado
podemos dar e ser,
que esfera impecável, impoluta,
de sempre adiado horizonte,
continuando-se, interminável,
na sucessão de si mesma,
afirmando sua duração,


ah, que esfera podemos ser, em sonho,
talvez,
em alma,
quem sabe,
que sol, que totalidade sem arestas,
que evidencia inegável,
em que lugar, em que posição?


1960



Cecília Meireles
In: O Estudante Empírico (1959-1964)

Todas as coisas têm nome



Todas as coisas têm nome.
(Têm nome todas as coisas?)


Todos os verbos são atos.
(São atos todos os verbos?)


Com a gramática e o dicionário
faremos nossos pequenos exercícios.


Mas quando lermos em voz alta o que escrevemos,
não saberão se era prosa ou verso,
e perguntarão o que se há de fazer com esses escritos:


porque existe um som de voz,
e um eco – e um horizonte de pedra
e uma floresta de rumores e água


que modificam os nomes e os verbos
e tudo não é somente léxico e sintaxe.


Assim tenho visto.


1960



Cecília Meireles
In: O Estudante Empírico (1959-1964)

2 de ago. de 2009

O Quadro negro



Poema Formatado pela amiga Leila Derzi.

23 de abr. de 2009



Que densidades, que obediência
a que ordens invencíveis?
Os ângulos se calculam,
dispõe-se a coesão,
constrói-se a transparência,
ó poliedro!


Unidade repleta de renuncias,
disciplina obscura e predestinada,
mundo cintilante de simetrias,
submersa entrega,
difícil e fácil,
resistente e súbita,
ó poliedro.


Fábula mineral com a poderosa geometria
a enfrentar as incansáveis arestas da erosão,
invisíveis, mas peremptórias.


Abril, 1963



Cecília Meireles
In: O Estudante Empírico (1959-1964)
Seja bem-vindo. Hoje é