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22 de jul. de 2010

"I"


Não me adianta dizer nada,
Sabiá,
porque não nos entendemos.
Mas essa melancolia
da tua queixosa toada,
Sabiá,
bate no meu coração
como batem n ‘água os remos
que nunca mais voltarão.


O que dizes quando cantas,
Sabiá,
tão bem se ajusta ao que penso,
que mais prefiro escutar-te.
Minhas tristezas são tantas,
Sabiá,
que já nem sei quantas são.
Como é duro, negro, extenso,
o campo da ingratidão!


Não sinto mais no meu peito,
Sabiá,
força para aquele verso
com que outrora me explicava:
e por isso me deleito,
Sabiá,
força para aquele verso
com que outrora me explicava:
e por isso me deleito,
Sabiá,
quando te ouço... Entenderão
os ouvidos do universo
nossa comum solidão?


Cecília Meireles
In: Canções (1956) – Ciclo do Sabiá

"II"


Vi descer a tempestade,
Sabiá,
sobre nuvens tenebrosas.
Os homens, soltos, corriam,
Sabiá...
(De onde lhes vem tal pavor?)
- Presas morriam as rosas,
em seu destino de flor.


Nessa densa tarde escura,
Sabiá,
entre as batalhas do vento,
escutei pela montanha
tua voz tranqüila e pura,
Sabiá,
- perfeita imagem do amor
em cristal de pensamento:
grande, claro e sofredor.


Debrucei-me no ar selvagem,
Sabiá,
para ouvi-la, tão serena,
sem medo do fim do mundo,
proclamar sua mensagem,
Sabiá.


Levarei para onde for
dois perfis da mesma pena:
meu silencio, teu clamor.



Cecília Meireles
In: Canções (1956) – Ciclo do Sabiá

"III"


E é de novo madrugada,
Sabiá.
Semana sobre semana,
tu, que cantas, serás sempre
o mesmo que ouço, encantada?
Sabiá,
recolho todos os ais
da tua voz sobre-humana,
- mas não sei por onde vais!


E não sei, pois não te avisto,
Sabiá,
Mas, embora te avistasse,
não te reconheceria.
E eu, quem sou? por onde existo?
Sabiá,
não se encontrarão jamais
tua voz, e minha face,
quase sobrenaturais...


Por quantos remotos dias,
Sabiá,
nossos vagos descendentes
repetirão este jogo,
com suas alegorias?
Sabiá,
de que servem tais sinais?
Que anúncios clarividentes
podem ter vozes mortais?



Cecília Meireles
In: Canções (1956) – Ciclo do Sabiá

"IV"


Já não há mais dias novos,
Sabiá...
O mundo já se acabou.
Não há rios, não há montes,
nem luzes nos horizontes.
Morreram terras e povos,
Sabiá...
(Quem te escutou?)


Plumoso, pequeno, frio,
Sabiá,
teu corpo em que areia jaz?
Que foi mundo, sol e terra,
amor, pensamento, guerra,
morte, coração vazio,
Sabiá?
Não os saberás.


E tu, quem foste, quem eras,
Sabiá,
que não se explica, também?
- Que somos, além dos ossos
e dos terrenos destroços,
e imaginarias quimeras,
Sabiá,
Quem somos? quem?



Cecília Meireles
In: Canções (1956) – Ciclo do Sabiá
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