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22 de abr. de 2009

Cânticos

Em cânticos, Cecília Meireles nos revela, na melodia de seus versos, sua sabedoria, a um só tempo suave e profunda. Suas palavras, com delicadeza, permitem um olhar diferente sobre a vida: além das frustrações e da aridez do cotidiano, da dor da passagem do tempo, da necessidade premente de amor, da presença constante da morte ... Cecília canta a beleza da renúncia:



“nada é realmente nosso, porque nada permanece. Renunciar às coisas, pode ser, então, uma alternativa à dor por aquilo que perdemos - se nada é nosso, nada pode ser realmente perdido.”


Cada poema nos desperta para o eterno que existe por trás do efêmero, para a luz que permanece a mesma, apesar da mudança das cores. Somos convidados, também, a procurar por nossa própria luz, por aquilo que em nós sobrevive às desilusões e à passagem do tempo. Cada verso nos sussurra, baixinho, a verdade daquela antiga sabedoria oriental: tudo é maya tudo é apenas ilusão.


O livro reúne vinte e seis poemas, todos eles de caráter intimista e introspectivo, alguns com mote vinculado à eternidade e à auto descoberta. Exploram a repetição de palavras e o paralelismo sintático, recursos que conferem aos poemas suave musicalidade.


A edição, ao permitir ao leitor observar os manuscritos da autora, oferece a rara oportunidade de compartilhar alguns de seus processos de produção poética, além de apreciar os delicados desenhos que vai deixando distraidamente em algumas páginas.


Nos poemas de Cânticos, Cecília Meireles utiliza o recurso da repetição de palavras ou de estruturas sintáticas que estabelecem uma relação entre a sonoridade e o conteúdo dos poemas.


Site: moderna.






No texto em prosa, ela exterioriza sua perplexidade, enquanto na poesia dos Cânticos ela parece incentivar o marido a não desistir.


Uma última tentativa aconteceu em 1934, quando Cecília Meireles foi convidada pelo governo português a fazer uma série de conferências em cidades como Lisboa e Coimbra. O convite reanimou o casal, especialmente Correia Dias, na expectativa por voltar à terra natal. "O efeito, porém, foi contrário", conta Teixeira. "Cecília foi muito festejada pelos portugueses, que não receberam com o mesmo calor seu conterrâneo.


O resultado foi trágico - de volta ao Brasil, Fernando aprofundou-se em sua crise até se matar, em 1935.



As crônicas, portanto, terminaram como um testemunho de Cecília em seu ímpeto de eternizar seu presente. Em 1939, quando fazia dez anos do início de sua colaboração ao O Jornal, a poeta decidiu recuperar seus artigos e os organizou com a disposição de editá-los em livro. Preparou até uma introdução, em que revela uma dor persistente.



"Relendo-os, verifico, dez anos depois, que ainda me comovem essas páginas. Nelas está minha vida, em toda a sua pureza, numa fase amargurada de construção. Amo essa tristeza conformada da minha disciplina", datilografou ela.



Alexandre Carlos Teixeira

(Neto da poeta em trecho da entrevista a O povo on-line)



20 de abr. de 2009

Vaga Música


VAGA MÚSICA

Vaga música marcou definitivamente o clímax de sua carreira como escritora. A obra mostra sua poesia contínua que avança para uma virtuosidade implacável, com uma preocupação crescente com a imagem do mar, sugerindo a fluidez plástica e a adaptação de sua personalidade interna.

Uma das formas poéticas mais utilizadas em Vaga música é a da canção, o que vem indicado, à maneira antiga, já nos títulos: "Pequena canção da onda", "Canção da menina antiga", "Canção excêntrica", "Canção quase inquieta", "Canção do caminho", "Canções do mundo acabado", "Canção quase melancólica", "Canção de alta noite", "Canção mínima", entre muitas outras semelhantes.

Essa forma é na verdade largamente usada em toda a obra de Cecília Meireles, não constituindo uma peculiaridade apenas desse livro.

Note o poema seguinte extraído de Vaga música:

Pequena canção

Pássaro da lua,
que queres cantar,
nessa terra tua,
sem flor e sem mar?

Nem osso de ouvido
Pela terra tua.
Teu canto é perdido,
pássaro da lua...

Pássaro da lua,
por que estás aqui?
Nem a canção tua
precisa de ti!

No poema escolhido, algumas características da canção aparecem nitidamente: a forte atuação do som e do ritmo, a impregnação da realidade exterior pela emoção, o apagamento dos fatos, a indeterminação quanto ao tempo e ao espaço. Essas características se ligam intimamente. Assim, a musicalidade mais enfatizada na canção indica a fusão entre o eu e o mundo exterior. A alma invade o mundo objetivo, que aparece apenas como um reflexo daquela. Isso leva a um apagamento dos contornos da vida exterior e, conseqüentemente, a frases mais brandas, mais musicais, pois, mais do que definir um acontecimento, busca-se criar uma atmosfera emocional, para o que a música contribui fortemente. Esse relaxamento dos contornos implica também o relaxamento das noções de tempo e espaço, elementos sempre difíceis de precisar numa canção, que parece no mais das vezes se desenvolver no sem-tempo e no sem-espaço. É o sem-tempo e o sem-espaço da vida interior.

Site: passeiweb



[...]
Cecília Meireles ingressou nas letras como uma escritora neo-simbolista, junto com alguns amigos poetas da revista Festa. Até depois de se afastar destes poetas, seus poemas ainda se relacionavam com fantasias, sonhos, solidão, padecimento, e melancolia. Seus poemas valorizam ainda coisas como símbolos, imagens sugestivas e constantes apelos visuais. Sua poesia manteve-se presa ao lirismo de tradição portuguesa. Herdando e ao mesmo tempo depurando a linguagem musical e cadenciada do simbolismo e seu lirismo transformaram em belos poemas a sua melancolia e o sentimento da saudade do tempo que passou. Concentrou sua sensibilidade poética na reflexão sobre a fugacidade da vida: a descrição real, a expressão sensorial, ou o questionamento do mundo material. Apresenta certa fixidez temática nas alusões ao espaço (privilégio do mar e da água). Profundo senso de solidão.
Suas características são: fuga para o sonho, preocupação com a falta de sentido da existência, ênfase à condição solidária do ser humano.

Alexandra Andrade
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