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3 de abr. de 2014

A MINHA PRINCESA BRANCA



Estendo os olhos aos mares:
Ela anda pelas espumas ...
Serenidades lunares,
Tristezas suaves de brumas ...

Ela anda nos céus vazios,
Em brancas noites morosas;
Mira-se nas águas dos rios,
Dorme na seda das rosas ...

Passa em tudo, grave e mansa ...
E, do seu gesto profundo,
Solta-se a grande esperança
De coisas fora do mundo ...

Por sobre almas vagueia:
Almas santas ... Almas boas ...
É um palor de lua cheia,
Na água morta das lagoas ...

Quando contemplo as encostas,
De alma ansiosa por vencê-las,
Vejo-a no alto, de mãos postas,
Muda e coroada de estrelas ...

E vou, sofrendo degredos,
A dominar os espaços ...
Só quero beijar-lhe os dedos
E adormecer-lhe nos braços!


Cecília Meireles
In Nunca Mais

25 de mar. de 2011

Cantiga Outonal


Outono. As árvores pensando ...
Tristezas mórbidas no mar ...
O vento passa, brando ... brando ...
E sinto medo, susto, quando
Escuto o vento assim passar ...

Outono. Eu tenho a alma coberta
De folhas mortas, em que o luar
Chora, alta noite, na deserta
Quietude triste da hora incerta
Que cai do tempo, devagar ...

Outono. E quando o vento agita,
Agita os galhos negros, no ar,
Minha alma sofre e põe-se aflita,
Na inconsolável, na infinita
Pena de ter de se esfolhar ...


Cecília Meireles
de 'Nunca Mais e Poema dos Poemas'

26 de out. de 2009

Poema da duvida



Nesta sombra em que vivo,
Sonho que me apareceras,
Numa hora extática...
E ando a esperar-te, noite por noite...
Sonho que te hei de ver,
Todo vestido de oiro,
Com os cabelos carregados de estrelas
E as mãos enfeitadas de luas...
Sonho que desceras a ver-me,
De tanto me ouvires
Cantar e louvar
O teu nome...
Nesta sombra em que vivo,
De te evocar,
É como se já tivesses vindo...
Como se houvesse visto os teus olhos,
Que devem ser a própria alma da luz...
Como se houvesse adorado o teu coração,
Onde morrem todos os corações que viveram
E de onde nascem todos os corações...
Nesta sombra em que vivo,
Sofro por seres assim irreal,
Assim tão além do que se pode pensar...
Sofro porque nem sei
Quando haverá, nos meus olhos,
Luz com que te veja
E com que te adore...
.................................................................
Nesta sombra em que vivo,
Por que me não apareces,
Numa hora extática,
Se sabes que te ando a esperar,
Noite por noite!...



Cecília Meireles
In: Poema dos Poemas

8 de out. de 2009

TUMULTO



Tempestade. O desgrenhamento
Das ramagens ... O choro vão
Da água triste, do longo vento,
Vem morrer-me no coração.

A água triste cai como um sonho,
Sonho velho que se esqueceu ...
(quando virás, ó meu tristonho
Poeta, ó doce troveiro meu! ...)
.....................................................
E minha alma, sem luz nem tenda,
Passa errante, na noite má,
À procura de quem me entenda
E de quem me consolará ...


Cecília Meireles
In Nunca Mais e Poema dos poemas

21 de set. de 2009

CANTIGA OUTONAL



Outono. As árvores pensando ...
Tristezas mórbidas no mar ...
O vento passa, brando ... brando ...
E sinto medo, susto, quando
Escuto o vento assim passar ...

Outono. Eu tenho a alma coberta
De folhas mortas, em que o luar
Chora, alta noite, na deserta
Quietude triste da hora incerta
Que cai do tempo, devagar ...

Outono. E quando o vento agita,
Agita os galhos negros, no ar,
Minha alma sofre e põe-se aflita,
Na inconsolável, na infinita
Pena de ter de se esfolhar ...


Cecília Meireles
In Nunca Mais e Poema dos Poemas

16 de set. de 2009

SOB A TUA SERENIDADE



Não me ouvirás ...É vão ... Tudo se espalha
Pelos ermos de azul ... E permaneces
Sobre o vale das súplicas e preces
Com solenes grandezas de muralha ...

Minha alma, sem Te ouvir nem ver, trabalha
Tranqüila. Solidão ... Desinteresses ...
Por que pedir? De tudo que me desses
Nada servirá a esta existência falha...

Nada servirá, agora ... E, noutra vida,
Oh, noutra vida eu sei que terei tudo
Que há na paragem bem-aventurada ...

Tudo – porque eu nasci desiludida
E sofri, de olhos mansos, lábio mudo,
Não tenho nada e não pedindo nada ...


Cecília Meireles
In Nunca Mais

4 de set. de 2009

A chuva chove



A chuva chove mansamente ... como um sono
Que tranqüilize, pacifique, resserene ...
A chuva chove mansamente ... Que abandono!
A chuva é a música de um poema de Verlaine ...

E vem-me o sonho de uma véspera solene,
Em certo paço, já sem data e já sem dono ...
Véspera triste como a noite, que envenene
A alma, evocando coisas líricas de outono ...

... Num velho paço, muito longe, em terra estranha,
Com muita névoa pelos ombros da montanha ...
Paço de imensos corredores espectrais,

Onde murmurem velhos órgãos árias mortas,
Enquanto o vento, estrepitando pelas portas,
Revira in-fólios, cancioneiros e missais ...


Cecília Meireles
In Nunca Mais e Poema dos Poemas

BEATITUDE



Corta-me o espírito de chagas!
Põe-me aflições em toda a vida:
Não me ouvirás queixas nem pragas ...

Eu já nasci desiludida,
De alma votada ao sofrimento
E com renúncias de suicida ...

Sobre o meu grande desalento,
Tudo, mas tudo, passa breve,
Breve, alto e longe como o vento ...

Tudo, mas tudo, passa leve,
Numa sombra muito fugace,
- Sombra de neve sobre neve ... –

Não deixando na minha face
Nem mais surpresas nem mais sustos:
- É como, até, se não passasse ...

Todos os fins são bons e justos ...
Alma desfeita, corpo exausto,
Olho as coisas de olhos augustos ...

Dou-lhes nimbos irreais de fausto,
Numa grande benevolência
De quem nascei u para o holocausto!

Empresto ao mundo outra aparência
E às palavras outra pronúncia,
Na suprema benevolência

De quem nasceu para a Renúncia! ...


Cecília Meireles
In Nunca Mais e Poema dos Poemas

Á HORA EM QUE OS CISNES CANTAM ...



Nem palavras de adeus, nem gestos de abandono.
Nenhuma explicação. Silêncio. Morte. Ausência.
O ópio do luar banhando os meus olhos de sono ...
Benevolência. Inconseqüência. Inexistência.

Paz dos que não tem fé, nem carinho, nem dono ...
Todo perdão divino e a divina clemência!
Oiro que cai dos céus pelos frios do outono ...
Esmola que faz bem ... – nem gestos, nem violência ...

Nem palavras. Nem choro. A mudez. Pensativas
Abstrações. Vão temores de saber. Lento, lento
Volver de olhos, em torno, augurais e espectrais ...

Todas as negações. Todas as negativas.
Ódio? Amor? Lê? Tu? Sim Não? Riso? Lamento?
- Nenhum mais. Ninguém mais. Nada mais. Nunca mais ...


Cecília Meireles
In 'Nunca Mais e Poema dos Poemas'1923

16 de ago. de 2009

Oração da Noite



Trabalhei, sem revoltas nem cansaços,
No infecundo amargor da solitude:
As dores, - embalei-as nos meus braços,
Como alguém que embala a juventude...

(...)

Acendi luzes, desdobrando espaços,
Aos olhos sem bondade ou sem virtude;
Consolei mágoas, tédios e fracassos
E fiz, a todos, todo o bem que pude!


Cecília Meireles
in Nunca Mais e Poemas dos Poemas- 1923-
(Excerto)

Canção Desilusória



Já não se pode mais falar!...
O encantamento está perdido...
Tudo são frases sem sentido
e as palavras dispersas no ar...
O encantamento está perdido!...
Já não se pode mais falar...

Já não se pode mais sonhar!...
Em vão se canta ou se deplora!
Todos os sonhos são de outrora...
Vêm de um sonho preliminar...
Em vão se canta ou se deplora...
Já não se pode mais sonhar!...

Já não se pode mais amar!...
Oh! soturna monotonia...
A saudade e a melancolia
são de todo tempo e lugar!
Oh! soturna monotonia!...
Já não se pode mais amar...

Já não se pode mais findar!
Numa interminável miséria,
depois do opróbrio da matéria,
surge o castigo do avatar!
Numa interminável miséria...
Já não se pode mais findar!...

Já não se pode mais chorar!
É o destino...o Alfa-Ômega... a Sorte...
É melhor não pensar na morte,
ao sentir a vida passar...
É o destino...o Alfa-Ômega... a Sorte...
E só nos resta renunciar!...


Cecília Meireles
in: Nunca Mais -1923-
(p. 37,38)
*Rio de Janeiro: A Grande Livraria Leite Ribeiro, [1923]
(Ilustração de Fernando Correia Dias, original no livro)
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